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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Vitor Gabriel Oliveira, desta vez é o Papa Francisco a expressar preocupação com o fato da atenção internacional estar a afastar-se da guerra russa contra a Ucrânia, que já dura há quase dois anos. O Papa alertou que corre o risco de se tornar uma guerra esquecida. A Ucrânia deve continuar a ser o principal foco do mundo pelo perigo que representa à Rússia ou a importância de Israel é mais sensível e requer mais atenção, sobretudo do mundo ocidental?

Eu acho que uma não impede a outra. O mundo deverá concentrar-se sempre na paz. Os países deverão ter o foco sobre a paz, tanto numa região como na outra. Aquilo que temos estado a assistir é que os Estados Unidos viraram, até pelos interesses que têm na região, a agulha mais para a zona de Israel, onde António Blinken tem feito várias visitas. Ele tem sido um ator quase omnipresente naquela região, mas Zelenskyy, como é sabido, tem estado a trabalhar para que não se esqueça a Ucrânia. Até porque está neste momento nos países do Báltico e ontem também. Não é fácil para Zelenskyy gerir esta falta de bolha mediática na Ucrânia, até porque começou a ter problemas internos de divisões internas, nomeadamente com o general Zaluzhnyi, e isso provoca-lhe, de certa forma, uma não união em termos de bolha mediática. E o Papa Francisco, até porque aquilo que aconteceu na Ucrânia é um problema com mais tempo do que aquilo que está a acontecer em Israel, tem alertado para essa falta de atenção que tem estado a ser dada. Só para referir aqui mais uma situação, é que, por exemplo, Emmanuel Macron estará na Suécia nas próximas semanas, no final de janeiro. A Europa continua a olhar para o conflito da Ucrânia com mais importância do que o conflito israelo-palestiniano, mas os Estados Unidos viraram um pouquinho a agulha e, de certa forma, estão a pedir à Europa para tomar mais posição no conflito da Ucrânia e dividirem as despesas mundiais destes dois conflitos.

Entretanto, a Coreia do Sul diz que a Ucrânia é efetivamente um local de testes para mísseis nucleares norte-coreanos para o regime de Kim Jong-un, que está a fornecer à Rússia material que pode permitir lançar uma bomba atómica. Francisco Pereira Coutinho, isto é um teste possível, é verosímil?

Isso foi uma discussão que tivemos ontem no Conselho de Segurança. Essa questão foi levantada pela Coreia do Sul. Nós sabemos que a Federação Russa tem utilizado armamento de Estados terceiros, principalmente do Irão e da Coreia do Norte, não só munições, como também sabemos, drones e também mísseis, que é a novidade que temos discutido nas últimas semanas, mísseis de longo alcance. Sabemos que a Coreia do Norte tem essa capacidade militar e aparentemente a Federação Russa tem-na utilizado. Claro que isto é problemático ao uso do direito internacional, porque existem resoluções do Conselho de Segurança que proíbem a exportação de armamento norte-coreano. A Coreia do Norte está sancionada por desenvolver um programa nuclear violando o Tratado de Não Proliferação, uma proibição, isto numa resolução do Conselho de Segurança votada pela própria Federação Russa, que proíbe a importação e exportação de material militar. E essa foi a razão que levou a esta discussão junto do Conselho de Segurança. A circunstância referida pela Coreia do Sul de este armamento ser utilizado para efeitos nucleares, no caso da Federação Russa, não terá grandes consequências, porque a Federação Russa é um Estado nuclear e tem essas capacidades. E não é crível que as vá utilizar na Ucrânia. Mas a circunstância de a Federação Russa, que se acha ser uma grande potência militar, necessitar de armamento norte-coreano e também iraniano, mostra também as limitações que esta guerra está, de facto, a impor aos beligerantes, não apenas à Ucrânia, que como sabemos, está muito dependente do armamento ocidental, mas mesmo à própria Federação Russa, membros do Conselho de Segurança, que nesta guerra de atrição tem gastos e despesas militares de equipamentos enormes e está a precisar do apoio de Estados fários nas relações internacionais, como é o caso, claro, tanto do Irão como da própria Coreia do Norte.

Uma sondagem do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião, da Universidade de Chicago, revela que a maioria dos russos, cerca de 63% da população, continua a apoiar a guerra em grande escala contra a Ucrânia. Vitor Gabriel Oliveira, isto é surpreendente por ser uma maioria ou por não ser assim uma maioria tão esperada, eventualmente, por Vladimir Putin?

Eu acho que é surpreendente é por ser tão baixo. Porque a informação é poder e quando não a possuímos, não temos o poder de decisão imparcial. E por isso estes números até espantam por serem tão baixos. A informação que chega na Rússia é amplamente setorial, de certa forma, pode enviesar a opinião das pessoas. E mesmo que com o tempo a informação comece a chegar de forma mais fidedigna, as feridas já estão abertas e são impossíveis de cerrar.

Este número até peca por baixo. Grande parte das pessoas na Rússia apoiam esta invasão e eu creio que este número será muito superior nas populações de fronteira, porque lidam muito mais com o conflito e, de certa forma, há feridas que os Estados Unidos como a União Europeia, num pós-guerra, deverão ter atenção que não é só um clima de paz que devem promover naquela região, mas é um clima de paz duradoura que terão que trabalhar para que dure décadas e que demorará décadas a ser trabalhada. Porque não é fácil cerrar estas feridas que já estão abertas em ambos os lados.

Entretanto, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, tem insistido com Viktor Orbán para que a Hungria aprove o pacote de 50 mil milhões de euros para a Ucrânia. Pelo que se sabe, até o momento não há reações. Francisco Pereira Coutinho, a terminar, Meloni é, de facto, a melhor interlocutora da União Europeia para convencer o líder húngaro?

Em teoria, sim. Porque a área política não está assim tão distante, apesar de enquanto Orbán é uma espécie de cavalo de Troia russo dentro da União. Agora temos também o caso do primeiro-ministro eslovaco Fico, acho que é assim que se pronuncia. Orbán tem bloqueado a alteração ao orçamento da União que permitiria um apoio plurianual à Ucrânia e vamos voltar a discutir isto no dia 1 de fevereiro, no próximo Conselho Europeu. E neste momento é preciso tomar decisões a 27. E para tomar decisões a 27 é preciso que a Hungria não vete. E se isso não for possível, é preciso encontrar soluções criativas, como conseguimos no passado, que poderão passar por uma cooperação forçada ou mesmo pelo recurso ao direito internacional. E eu creio que Meloni, sendo da área política de Orbán, está no fundo a explicar-lhe que não vale a pena continuar a insistir nesta questão e procurar conseguir mais concessões do que aquelas que conseguiu. É preciso recordar em dezembro, em que como contrapartida do início de negociações da Ucrânia tendentes à adesão à União Europeia, foram libertados alguns fundos para a Hungria. Mas creio que neste momento não há, da parte dos restantes Estados-membros ou mesmo da Comissão Europeia, qualquer margem para ceder, seja o que for a Viktor Orbán, como contrapartida da não imposição de um veto ao apoio financeiro à Ucrânia. Eu creio que isto não pode passar do dia 1 de fevereiro e Meloni, eu concordo, talvez seja a pessoa mais indicada para explicar isto mesmo a Viktor Orbán.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem uma nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.