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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Professor Carlos Gaspar, tivemos hoje Rishi Sunak, o primeiro-ministro britânico, a chegar a Kiev de surpresa. É importante esta visita à Ucrânia nesta altura e também anunciando este novo pacote de ajuda de cerca de € 3 mil milhões, numa altura em que na União Europeia vai havendo algum desgaste. É também um recado da parte do Reino Unido para a União Europeia?
O Reino Unido tem estado na primeira linha do apoio à Ucrânia desde a primeira hora, desde o dia da invasão russa da Ucrânia. Esta visita do primeiro-ministro britânico é importante não apenas por causa da ajuda financeira, que repete, grosso modo, o mesmo pacote de ajuda que já existiu no ano passado, mas sobretudo porque Rishi Sunak foi assinar com o presidente Zelensky um acordo bilateral de segurança que empenha a Grã-Bretanha num quadro de cooperação com a Ucrânia na resistência à agressão russa. É uma decisão tomada na reunião do Grupo dos Sete em Vilnius, em julho do ano passado, em 2023. Todos os sete membros do Grupo dos Sete assumiram esse compromisso. A Grã-Bretanha é a primeira a concretizar esse acordo bilateral de garantias de segurança à Ucrânia e, de certa maneira, esse acordo é um sinal político mais forte do que a própria ajuda financeira.
E isto tem especial importância porque também a ajuda militar dos Estados Unidos à Ucrânia parou por completo, é o que assume a Casa Branca. Tendo em conta o investimento na guerra do Médio Oriente, Bruno Cardoso Reis, esta é a prova mais do que provada de que a bola, por assim dizer, neste momento, está mais do lado da Europa no apoio à Ucrânia?
Eu penso que está do ponto de vista político, do ponto de vista diplomático. Acho que é muito importante realmente para a moralização dos ucranianos e até em termos do ambiente geoestratégico, uma mensagem também importante para a Rússia. No fundo, a Grã-Bretanha está aqui a dizer: "Nós vamos continuar a apoiar a Ucrânia durante vários anos, até mais do que no passado." Este pacote representa um aumento de quase € 250 milhões por ano em relação ao que foi dado nos dois anos anteriores. "E vamos aqui assinar, no fundo, um compromisso de segurança mútua." Ora, isso tem implicações, por exemplo, para os próprios Estados Unidos. A ideia é que os Estados Unidos podem deixar cair a Ucrânia, mas se a Grã-Bretanha, que é historicamente o grande aliado dos Estados Unidos, mesmo para alguém como Donald Trump, esta ideia de pelo menos ter a Grã-Bretanha ao seu lado é alguma coisa que não é completamente irrelevante. Se a Grã-Bretanha está lá empenhada, como é que os Estados Unidos vão abandonar completamente a Ucrânia, não é? Portanto, isso realmente representaria uma rutura não só com a Ucrânia, mas até com os países europeus, parceiros muito importantes na Europa, a começar pelo talvez o mais importante para os Estados Unidos, que é em termos, por exemplo, militares, de cooperação militar, que é a Grã-Bretanha. Agora, há aqui um ponto base que é: a Europa já ajuda mais a Ucrânia que os Estados Unidos. Isso é verdade em termos de PIB per capita. Portugal ajuda mais, faz um esforço maior em relação ao tamanho da sua economia do que os Estados Unidos, ligeiramente maior, 0,5% do PIB, os Estados Unidos é 0,4 ou 0,3. Mesmo em termos militares há um apoio significativo, sobretudo da Grã-Bretanha, mas também da Alemanha, da Suécia, etc., da Polónia. O problema é que ninguém pode substituir os Estados Unidos em termos do tipo de apoio militar, do volume de apoio militar que eles dão à Ucrânia, porque os Estados Unidos são de longe a maior potência militar mundial. Têm um complexo militar-industrial que não tem paralelo a nível mundial. Portanto, não é a Europa ou não é o país A ou o país B da Europa que não pode substituir os Estados Unidos. Nenhum país no mundo conseguiria substituir os Estados Unidos. O orçamento de defesa norte-americano representa tanto quanto o orçamento dos outros 15 países seguintes, que são as maiores potências militares a seguir aos Estados Unidos, países como a China, como a Rússia, tudo isso somado, é preciso somar 15 dessas potências para chegarmos ao valor atingido pelos Estados Unidos. E, portanto, o apoio americano é realmente insubstituível. Esperemos que esta polarização extrema, esta aposta dos republicanos em usar a Ucrânia como arma de arremesso contra Biden para conseguir algumas cedências em áreas, em políticas que os republicanos valorizam. Que realmente isso se resolva rapidamente, nas próximas semanas, eu diria até o final de janeiro. Se for assim, as consequências em termos da guerra e em termos estratégicos não serão demasiado graves. Se continuarem neste impasse, realmente a situação vai-se complicar, mesmo que estes sinais políticos, econômicos da Europa sejam bastante importantes em termos de continuar a mostrar que, no fundo, a Ucrânia terá condições, pelo menos, para se defender, eventualmente não para atacar ou não para recuperar os seus territórios, mas pelo menos para se defender, condições mínimas.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.