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Gabinete de Guerra aberto na Rádio Observador. Eu sou Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Vamos começar com a Ucrânia e com a utilização, durante esta noite, de mísseis de longo alcance, neste caso, mísseis Flamingo, que são de fabrico próprio, e foram mísseis utilizados no ataque à Crimeia, à zona de Zaporíjia e também a território russo. Miguel, que mísseis são estes e qual é o objetivo deste ataque ucraniano?

Olá, Miguel, muito boa tarde também a todos que nos ouvem. Os mísseis Flamingo são parecidos com aquilo que seriam os mísseis Taurus ou os mísseis Tomahawk. São, obviamente, de qualidade inferior, técnica e militarmente, mas são os chamados mísseis de longo alcance, ou seja, são os mísseis que podem fazer uma guerra profunda. Portanto, não têm só uma capacidade de voo curta. Esses mísseis, por exemplo, conseguiriam mesmo entrar bastantes quilômetros no campo inimigo. E, portanto, como a Ucrânia não tem conseguido, e não vai conseguir, porque isso levava-nos a toda uma outra conversa, à entrada quer da Alemanha, quer dos Estados Unidos no palco da guerra, os Taurus e os Tomahawk. Os Flamingos são de fabrico próprio, são mísseis que têm uma capacidade de extremamente longo alcance e que de alguma destruição. Parece que a única diferença, por exemplo, em relação quer aos Tomahawks e quer mesmo aos Taurus, que voam a um nível mais baixo, mais próximo do solo e nesse caso conseguem enganar os radares e muitas vezes passar despercebidos, os Flamingo voam um pouco mais acima e têm essa dificuldade. De toda forma, representa aqui duas coisas. Primeiro, a capacidade militar e tecnológica da Ucrânia em produzir as suas próprias armas.

E em pouco tempo.

E em pouco tempo. Mas lá está, a necessidade aqui da Ucrânia tem feito um bocado, como diz aquela expressão portuguesa, que a necessidade aguça o engenho. E aqui tem sido a mesma coisa, quer na relação dos drones, quer na relação destes mísseis. Estes mísseis aqui servem pra fazer duas coisas. Como a situação em Pokrovsk e em Zaporíjia está extremamente complicada, Pokrovsk poderemos considerar praticamente perdida e que vai abrir e vai permitir um avanço russo no Donbass extremamente problemático. Em Zaporíjia, os setores ucranianos estão sob fortíssima pressão da artilharia russa. Esta tentativa é uma tentativa de atingir a Rússia, digamos assim, na sua retaguarda, tentando fazer duas coisas. Primeiro, na Crimeia nós sabemos que foram alvos militares e energéticos. Dentro da Rússia, foram na tentativa de atacar a retaguarda, ou seja, na tentativa de alguma forma, de atingir as linhas de apoio à linha da frente. E, portanto, isto é a Ucrânia a responder, uma vez que se encontra numa situação militar difícil, onde nós estamos a ter algo como 220 confrontos, combates corpo a corpo num só dia, segundo informações que tivemos do Estado-Maior ucraniano. E portanto, esta é a Ucrânia na tentativa de, primeiro, mostrar que tem capacidade militar e capacidade tecnológica, dando a ideia também aos Estados Unidos e à própria Europa, a dizer: "Vocês estão a ver, se eu tivesse aqui os Taurus e os Tomahawks, eu podia infligir um ataque muito mais forte à Rússia", obrigando a Rússia, de alguma forma, a ter que rever e sentar-se à mesa e chegar, possivelmente, até a um processo de cessar fogo. E, por outro lado, é tentar fazer com que a Rússia pare ou pelo menos-

Tenha mais dificuldade, não é?

Exato, retardar estes ataques. O que está acontecendo, Miguel? A Ucrânia está a ter grandes dificuldades de variadíssimas coisas. Primeiro, recrutar homens. Depois, tem dificuldade em termos de munições e está a ter dificuldade a conseguir suster aquilo que são os ataques russos, o que até mais ou menos agosto, princípios de setembro, não tinha. Este avanço, principalmente este avanço no inverno, que efetivamente a Ucrânia não estava à espera que fosse tão intenso, intensificou-se e tem criado grandes dificuldades à própria Ucrânia.

Falemos de Pokrovsk, já estava a tocar nesse ponto. Continuam os combates intensos, a situação militar é difícil. É difícil em várias zonas da Ucrânia, mas especialmente em Pokrovsk. O presidente ucraniano Zelensky garantiu que os soldados não vão ser obrigados a sacrificar-se em vão. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrskyi, diz que a cidade ainda não está sob controle russo, apesar dos intensos combates. Parece-lhe, de fato, possível que a Ucrânia consiga conter os avanços russos em Pokrovsk?

De todas as informações que nós temos, é praticamente impossível. Esta é uma região importantíssima do Donetsk, e o Donetsk nós sabemos que é algo que tem estado sempre na primeira linha daquilo que é a intenção por parte da Rússia na tomada do território ucraniano. E, portanto, o que nós sabemos hoje é que existem duas coisas. Existe falta de capacidade de abastecer a linha da frente ucraniana, existe um cansaço extremo e depois existe uma coisa, que neste momento as forças russas estão com uma capacidade militar que supera completamente a ucraniana. E, portanto, aquilo que nós aguardamos nos próximos dias será uma retirada estratégica por parte Do exército ucraniano, até possivelmente, nós ouvimos vários especialistas militares dizer que os ucranianos poderiam sair permitindo que os russos entrassem na cidade sem a destruírem completamente e que, portanto, eles pudessem se reagrupar a alguns quilômetros e tentar retomar a cidade. E aquilo que o Zelensky vem dizer é que não há necessidade de se ver, o que às vezes se vê muitas vezes, defender a cidade até ao último homem, porque militarmente não será possível isso acontecer e vai criar uma matança generalizada nos militares ucranianos. Sendo que, e isto é importante, é que esses acontecimentos que estão acontecendo, quer em Prokrovsk, quer também em Zaporizhzhia, estão a criar uma má energia dentro das forças ucranianas.

E esse é um dos objetivos da Rússia, não é?

Exatamente, que é enfraquecer psicologicamente os ucranianos, nomeadamente as Forças Armadas, e dando esta ideia de que a Ucrânia está mesmo a perder a guerra. Se juntarmos a isto o facto de os Estados Unidos terem sempre esta ambiguidade em relação à Ucrânia, tanto apoiam como desapoiam, dizem que vão entregar os Tomahawks, mas depois não entregam, está-se a começar a criar, quer nos militares, quer na sociedade ucraniana, uma fadiga de guerra, e esse é também um dos pontos fulcrais que a Rússia está empenhada.

Miguel, pra terminar, falemos aqui rapidamente do Médio Oriente, a situação em Israel, até porque há este caso midiático de Donald Trump ter pedido um perdão para Netanyahu no caso de corrupção. Os Estados Unidos negam agora que esse pedido esteja ligado a uma estratégia diplomática para o Médio Oriente. Como explicar este caso e se, de fato, esta ajuda de Trump é importante para Netanyahu?

A ajuda de Trump é importante para Netanyahu, porque Netanyahu sabe que mais tarde ou mais cedo terá que responder em tribunal. As acusações são sérias. Já se viu que a própria sociedade civil israelita não quer submeter-se àquilo que tem sido a força e de alguma forma até o extremismo do próprio governo israelita. E não só Donald Trump vem fazer agora, como já o tinha feito no próprio parlamento israelita. Na altura, houve quem achasse que isto poderia ser uma piada, uma graça, uma tentativa de ser simpático com Netanyahu quando esteve no Parlamento. Mas não, sabe-se que existe esta posição por parte de Donald Trump, que precisa de Netanyahu e da forma como Netanyahu encara a política, encara a sua ação no Médio Oriente como parceiro americano, apesar de efetivamente, neste momento, Israel não é mais o maior parceiro econômico, isso está na Arábia Saudita, por exemplo, ou noutros países, as chamadas monarquias do Golfo, mas existe esta necessidade de continuar a ter este governo, pelo menos para já, Netanyahu, como um pivô da ação política externa americana. E, portanto, como existe esta posição e como nós sabemos que Netanyahu terá que ser ouvido novamente em tribunal, existirá outras acusações a virem. Existem as acusações internacionais por parte do Tribunal Penal Internacional. Trump está a tentar, de alguma forma, aliviar esta pressão sobre Netanyahu e também fazendo uma coisa que é importante, que nós sabemos que mesmo Donald Trump, dentro de portas, já teve e terá no futuro, certamente quando deixar a presidência, outras questões com a Justiça. E isto é um pouco aquilo que Donald Trump também gostaria que fizessem com ele quando ele deixasse a presidência, que seria darem-lhe um perdão para aquilo que ele fez. Netanyahu tem aqui uma grande dificuldade. O presidente, apesar de ser próximo da sua área política terá grande dificuldade de justificar na sociedade civil este perdão a um homem que tem cometido crimes de guerra.

Miguel Baumgartner e o Gabinete de Guerra da Rádio Observador.