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É o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos fazer um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno, muito bem-vindo. Volodymyr Zelensky deu uma entrevista ao britânico The Guardian, que foi publicada este domingo, ontem à noite, na qual disse que apesar de toda a gente no mundo parecer ter medo de Donald Trump, ele é uma exceção, ele sendo Zelensky. E à pergunta do correspondente britânico em Kiev, Zelensky disse que a Ucrânia não é inimiga, mas sim amiga dos Estados Unidos e por isso, por que é que haveria de ter medo de Donald Trump? Tem razão, Volodymyr Zelensky?

É realmente uma entrevista bastante interessante, que também tem uma versão em vídeo, que aliás começa com um apagão, portanto, passa bem esta ideia de como realmente, neste momento, como tem acontecido sempre, quando se aproxima o inverno, temos esta guerra em torno das infraestruturas da energia e a tentativa russa de criar aqui situações de falta de energia num país como a Ucrânia, no contexto do inverno daquelas zonas do Norte da Europa, realmente tem consequências dramáticas para as condições de vida das pessoas. Mas além disso, eu acho que os pontos mais interessantes são realmente em torno da relação com Donald Trump. Zelensky insiste que o último encontro em Washington, o relato que surgiu no Financial Times não corresponde, pelo menos à visão dele do encontro, ou seja, ele diz que não houve nada desagradável, não houve uma espécie de repetição ainda com portas fechadas, portanto, sem estar presente a imprensa daquilo que aconteceu no início do ano, em fevereiro deste ano. No fundo, passa esta imagem de que continua a ter confiança nos Estados Unidos. Agora, é inegável que realmente o nível de apoio não é o mesmo, as garantias de que esse apoio se manterá estão sempre muito sujeitas às oscilações da postura de Donald Trump. A mim parece-me que a forma de entender a entrevista é como uma tentativa de Zelensky passar uma imagem o mais positiva possível dessas relações. Isso é importante como sinal também pra Rússia, de que a Rússia não deverá contar com tensões bilaterais e também em termos da própria imagem de Donald Trump, que neste momento passa por uma certa crise de popularidade nos próprios Estados Unidos. Zelensky parece estar a dar sinal de que está disposto a ajudar a passar a imagem de que realmente não tem razões de queixa de Donald Trump. Eu tenho as minhas dúvidas de que isso seja inteiramente assim, mas percebe-se como postura diplomática. E só pra terminar, acho que também é interessante que ele refira expressamente, porque o Guardian é obviamente um órgão da imprensa britânica, o papel do Rei Carlos III, que mostra sempre muito interesse, muito empenho, muito apoio à Ucrânia e que se terá empenhado também em reaproximar Trump da Ucrânia. Zelensky diz: "Não sei exatamente em que termos, não vou entrar nisso", mas percebi que realmente terá havido um papel dele nestas viagens, que Zelensky aprecia sempre muito palácios reais, estas paradas, estas visitas de Estado à Grã-Bretanha, que o Rei Carlos III terá aproveitado discretamente para passar a mensagem de que para a Grã-Bretanha e para a forma como os britânicos também veem os Estados Unidos e o presidente Trump, era muito importante a forma como ele lidava com a disponibilidade de tão mostrar algum apoio à Ucrânia.

E hoje, Bruno, nas redes sociais, o presidente ucraniano pediu um endurecimento da posição europeia relativamente às violações do espaço aéreo europeu, de diversos países da União Europeia, por parte de drones russos. Volodymyr Zelensky tem razão quando denuncia a existência de uma guerra híbrida de Moscovo contra a Europa?

Sim, isso parece-me bastante evidente. Isto é um caso paradigmático exatamente desse conceito. Não é por acaso que os países onde mais se desenvolveu investigação e centros de investigação sobre este tipo de guerra híbrida, de conflito híbrido, são países como, por exemplo, a Finlândia, que tem o centro de excelência da União Europeia pra este tipo de conflitos, de ataques, porque realmente é algo que a Rússia já vinha fazendo há vários anos, inclusive antes da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, coisas como ações de sabotagem, assassinatos, casos famosos como, por exemplo, os dos Caripow, aquele dissidente russo que estava refugiado na Grã-Bretanha, que é alvo de um ataque, que depois acaba por vitimar cidadãos britânicos em 2018, etc. Mas realmente isso intensificou-se muito depois da invasão da Ucrânia. Eu fui sempre dizendo, quando se falava muito da escalada no conflito, das ameaças russas, que não me parecia credível uma escalada pra uma guerra convencional, pra uma Terceira Guerra Mundial, pra uma guerra nuclear, isso seria suicida pra própria Rússia, mas que me parecia que a escalada que já estava a acontecer era, por um lado, contra a própria Ucrânia e contra as infraestruturas civis da Ucrânia, este tipo de guerra aérea que estamos a ver com drones e mísseis, e depois ataques híbridos contra os países europeus, em particular os mais próximos da Ucrânia e da Rússia, mais envolvidos no conflito, mas em geral, todos os países europeus que dão algum tipo de apoio à Ucrânia são potencialmente vulneráveis. E, portanto, acho que é um aviso, que obviamente também corresponde aos interesses ucranianos, mas que é bastante pertinente. E eu diria que, por exemplo, no caso de um país como Portugal, me parece também fundamental que nós, que somos dos poucos países europeus onde não se percebe até agora nenhum ataque que tenha essas características, no fundo, estas ações de sabotagem, assassinatos, ciberataques, ataques com drones, etc, que não são um ataque militar convencional, mas que causam muita perturbação, nalguns casos causam morte, estas ações de assassinato que têm, pra já, sobretudo visado dissidentes russos ou ucranianos, etc, mas que podem também correr mal e vir a vitimar também cidadãos europeus Portanto, tudo isso, de facto, Portugal tem escapado, mas não quer dizer que não possa vir a acontecer, sobretudo se passarmos esta ideia de que somos uma espécie de elo mais fraco. Portanto, acho que é um aviso bastante pertinente e que todos os países europeus deviam ter em conta, inclusive Portugal.

No Kremlin, Bruno, o Sergei Lavrov tem estado ausente do espaço público há já algumas semanas. Há rumores de que a razão pra esse, pra essa ausência possa ser um certo afastamento com Vladimir Putin. Lavrov não aparece em público desde o mês de outubro e falhou até recentemente um encontro com o Marco Rubio. Há razões para acreditar que Sergei Lavrov caiu, de certa forma, em desgraça junto do presidente russo?

Bem, eu não vejo nenhuma indicação em termos do seu comportamento, das suas declarações, que apontasse nesse sentido. Ou seja, Lavrov não é um dissidente, nem de perto nem de longe. É alguém que está completamente identificado com a agenda de Putin há muitos anos. Enfim, houve alguns rumores, por exemplo, no caso da invasão da Ucrânia, ele não esteve muito diretamente envolvido. Houve declarações dele, por exemplo, que apareceram no Financial Times, supostamente a um oligarca russo, que teria dado conta dessa conversa. Quando esse oligarca se queixou: "Mas isto é uma coisa terrível pra economia russa, pras nossas relações com a Europa", e Lavrov terá dito qualquer coisa como: "Bem, mas não sou eu que agora ando a aconselhar o presidente Putin, é o czar Pedro, o Grande, a Catarina, a Grande". Portanto, no fundo, dando a entender que ele sozinho tomava estas decisões em função de uma certa imagem que ele tinha da história russa, de quem era um grande líder na história russa e, no fundo, esta tentativa de afirmar o seu legado novamente como uma espécie de czar conquistador. Mas isso nunca levou, no fundo, a nenhum tipo de ruptura e, portanto, de facto, não me custa acreditar que este afastamento possa ter a ver com coisas como a idade, a saúde, alguma outra questão, mas realmente não vejo nenhuma razão pra pensar que há aqui uma espécie de rutura com as políticas de Putin. Mas enfim, obviamente, posso rever essa opinião se surgirem informações nesse sentido. Mas, de facto, da informação disponível, não vemos nenhum sinal que aponte nesse sentido.

E prejudica de alguma forma a diplomacia de Moscovo, por exemplo, este encontro com Marco Rubio, o facto da Rússia não ter estado representada pelo ministro russo dos Negócios Estrangeiros?

Bem, eu aí acho que o mais provável é que isto corresponda realmente a uma intransigência russa nas condições pra chegar à paz, que voltou a ser reafirmada também ainda hoje com o Dmitry Peskov, e de Marco Rubio, que tem, do meu ponto de vista, pelo menos tradicionalmente, enfim, agora que se aproximou do Donald Trump, é sempre mais incerto, mas que tinha uma linha bastante dura em relação à Rússia e, do meu ponto de vista, acertada, ou seja, percebendo que realmente a Rússia de Putin a única linguagem que percebe e que respeita é a linguagem da força. E portanto, parece-me que isso é muito mais provável do que haver aqui algum tipo de divergência. Em todo caso, é verdade que ele é um diplomata extremamente experiente. Não faltariam outros diplomatas que pudessem seguir fielmente a linha de Putin, mas realmente é alguém que, apesar de tudo, tem muitos conhecimentos, que em muitos casos temos testemunhos de diplomatas ocidentais que, por exemplo, trabalharam com ele ainda no período em que ele foi o representante russo, o embaixador russo nas Nações Unidas, portanto, o representante também no Conselho de Segurança, e que dizem, em termos pessoais, têm uma boa opinião dele, em termos profissionais, também de competência diplomática, têm uma boa opinião dele. Portanto, aí eu diria que marginalmente pode ter algum efeito, ou seja, se vier alguém menos experiente, digamos, com menos contactos e até com menos prestígio, um prestígio ainda que residual junto de colegas, por exemplo, ocidentais, que isso pode ter algum impacto, mas eu diria que seria um impacto sempre muito marginal, porque realmente ele não tem grande autonomia e também não há grande margem para mudanças radicais na política externa russa, pelo menos não enquanto Putin estiver no poder e mantiver estas prioridades estratégicas.

Na Ucrânia, Bruno, as atenções estão viradas pra região de Pokrovsk, é uma região que continua sob controle ucraniano, pelo menos foi isso mesmo que insistiu Kiev, ou é uma região que, pelo contrário, Bruno, está cada vez mais perto de ser tomada por Moscovo? Qual dos lados é que tem aqui razão?

Infelizmente, eu diria que tendo em conta a informação disponível, me parece que a Ucrânia está aqui um pouco, eventualmente, em negação e que realmente os dados apontam para crescentes dificuldades da Ucrânia manter essa posição, que tem, aliás, a ver com uma espécie de regra permanente nesta questão de operações militares, ou seja, e da geografia das operações militares quando se tem uma bolsa, ou seja, quando a linha da frente, em vez de seguir mais ou menos uma linha reta, de repente tem ali uma espécie de um balão que está preso apenas por um pedaço de território ao resto da linha da frente, essa posição à partida é relativamente vulnerável, ainda mais quando nós sabemos que, de acordo com as próprias informações ucranianas, os russos têm estado a investir muito em reforçar a sua produção de drones, em usar de forma mais eficaz esses drones na linha da frente, em alargar a linha chamada kill zona, a zona em que os drones são muito eficazes em abater tropas, portanto, em que as tropas têm muita dificuldade em movimentar-se sem correr grandes riscos por causa da saturação de drones, que passou de 4 ou 5 km às vezes pra 20 km. Portanto, tudo isso realmente aponta para que esta posição se tenha tornado muito mais difícil de manter e realmente o que vamos vendo é que a Rússia consegue também, de acordo com a própria informação ucraniana, penetrar, infiltrar esta zona. E portanto, eu acho que tudo isso aponta realmente pra crescentes dificuldades e pra um risco sério De queda, não só de perda deste território, o que em si mesmo não parece que tivesse consequências dramáticas, porque a Ucrânia, até por isso, por ser já um território em grande parte cercado, já não o consegue usar como logística há bastante tempo e terá posições defensivas preparadas a 10, 15 quilômetros, portanto, numa linha da frente muito mais defensável. O grande problema aqui é se realmente a Ucrânia, que transferiu aparentemente algumas unidades de elite de outras pontes da frente para esta zona, para tentar também maximizar as perdas russas, se corre o risco de retirar demasiado tarde e no fundo, ter aqui algumas perdas significativas, sobretudo de unidades mais experientes. Acho que isso realmente pode ser uma perda custosa, porque a Ucrânia tem muita dificuldade realmente em substituir as suas baixas, não tem aqui reservas estratégicas. E mesmo um efeito em termos de desmoralização das tropas ucranianas, que já estão em combate há vários anos e têm aqui um desgaste grande. E portanto, se passar esta ideia de que houve aqui uma má aposta política, que não se retirou a tempo, isso realmente pode criar mais insatisfação e algum efeito de desmoralização. Portanto, vamos ver se a Ucrânia consegue evitar isso, mas parece-me que realmente tudo indica que esta zona está, de facto, em grande risco cair pra Rússia.

Antes de te deixar ir, Bruno, queria olhar contigo por um pouco o que se passa no Meio Oriente, até porque há uma série de encontros num horizonte muito próximo, a começar por hoje, quando Donald Trump vai receber na Casa Branca o presidente de transição da Síria, Ahmed Al-Sharaa. É a primeira visita de um chefe de Estado sírio à Casa Branca, é um sinal de uma aproximação diplomática inédita. E o que eu te quero perguntar é qual é que é o objetivo de parte a parte?

Bem, o objetivo do lado sírio é bastante claro, que é realmente Al-Sharaa tem se mostrado muito pragmático, tem procurado melhorar relações basicamente 360 graus, portanto, desde a Rússia, que apesar da Rússia ter apoiado inclusive os massacres, os ataques com armas químicas do regime do Assad, ter dado exílio ao presidente Bashar al-Assad, até aos países árabes moderados, que no passado também estavam em choque completo com a Al-Qaeda, de onde vem Al-Sharaa, até os próprios Estados Unidos, que o chegaram a prender também no Iraque. E portanto, aqui os Estados Unidos, no fundo, isto é revelador e portanto pra Al-Sharaa é muito importante, porque ainda há algumas sanções que dependem da autoridade do Executivo, não de Trump, que já levantou essas sanções, até em resposta a pedidos da Arábia Saudita e dos países do Golfo, mas dependem do Congresso. Portanto, esse será um dos objetivos, Al-Sharaa encontrar-se com líderes republicanos, mediadamente do Congresso, pra tentar levantar essas sanções. Aparentemente, a contrapartida seria garantias de que ele vai ter aqui uma postura muito mais cuidadosa ao lidar com as várias minorias religiosas, cristãos, alauítas, drusos, etc., na Síria, os curdos também. E por outro lado, o que isso também revela é da parte do Donald Trump também um enorme pragmatismo, ou seja, Donald Trump é alguém que realmente não se preocupa com questões de direitos humanos, com o fato de termos aqui alguém que de facto tem todo um histórico de ligações ao terrorismo. Pelo contrário, ele fez declarações em relação a Al-Sharaa do gênero das que fez em relação ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita ou ao líder da Coreia do Norte. É um líder forte, que vive numa região muito dura e portanto ele ultrapassou muitas dificuldades, muitos riscos e eu respeito isso, ser aqui uma espécie de homem forte. E isto mostra que realmente, nalguns aspectos, a política do Donald Trump realmente representa uma ruptura. Isso cria muitos problemas, muita incerteza, mas também cria algumas oportunidades, sobretudo para líderes de regimes com um passado mais questionável em termos, por exemplo, de direitos humanos, democracia, etc. Isso realmente não é claramente uma prioridade pra Donald Trump.

Bruno Cardoso Reis, num Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Bruno, obrigado, boa tarde. O Gabinete de Guerra está de regresso logo à noite.