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Gabinete de Guerra na Rádio Observador com Bruno Cardoso Reis, historiador Bruno Cardoso Reis, que semana após semana aqui nos vai ajudando a desvendar os caminhos que seguem os diferentes conflitos e, em particular hoje, o conflito do Médio Oriente. Bem-vindo, Bruno Cardoso Reis. Vamos começar por Mostafa Khamenei, o novo líder supremo do Irão. Por onde anda?
Sim, realmente essa é uma questão que não está até tão presente como poderia estar, porque apesar de tudo há muito com que nos ocuparmos em termos de desenvolvimentos da guerra, há negociações, não há negociações, mas uma das coisas realmente bizarras é essa, que é quando Donald Trump diz: "Estou a negociar com alguém muito bem colocado." Tanto quanto percebemos, será o presidente do Parlamento, mas à partida deveria ser, no sistema iraniano, o guia supremo. Mas realmente não há sinais de que seja assim e, sobretudo, não há nenhum sinal de vida dele. Poder-se-ia dizer que se mantém muito reservado para ser difícil perceber onde ele está, portanto, manter a sua segurança operacional, etc., dificultar ser alvo de um ataque, mas obviamente isso não impediria que houvesse vídeos, que houvesse algum tipo de declarações, algum tipo de filmagens que mostrassem que ele está vivo.
Há de resto essa alegação, não é? De que Mostafa Khamenei terá morrido durante um ataque de Estados Unidos e Israel.
Sim, isso seria realmente extraordinário, embora haja uma longa tradição no islão xiita, sobretudo nesta variante do islão xiita que é dominante no Irão, de facto dos imãs ocultos. Portanto, supostamente o último líder legítimo do islão para esta variante do islão xiita terá desaparecido. É uma espécie de Dom Sebastião, ainda como criança, o iman Al-Hussaini, e irá voltar a aparecer, não é no amanhã de nevoeiro, mas quando Alá, quando Deus quiser, para salvar o mundo na fase final do apocalipse global. Mas realmente é estranho. Acho que a única explicação possível é ou estará morto ou estará de tal forma incapacitado e ferido que eventualmente também se diz que poderia estar em coma ou que poderá ter entrado em coma, algo assim, que de facto não é possível que haja imagens ou que as imagens de alguma forma seriam ainda piores do que a ausência de imagem. Mas realmente é algo bastante estranho e acho que se continuar realmente teremos de tirar aqui a conclusão de que, na prática, o guia supremo não está a funcionar como tal. Temos todas as razões já para desconfiar que será assim, mas quanto mais tempo isto se prolongar, mais se irá consolidar essa ideia de que de facto o sistema tem aqui, no fundo, uma espécie de fantasma no seu lugar de topo. Temos aqui uma espécie de fenômeno de feiticeiro de Oz, uma figura que simbolicamente é importante, que é usado nomeadamente pelos radicais do regime para mobilizar apoio. A ideia de que continuamos a ter um Khamenei apesar do ataque americano, mas que na prática, de facto, não está a ter nenhum controle, nenhuma ação, nenhum papel na tomada de decisão no Irão.
Bruno, é uma notícia com poucos minutos. O enviado norte-americano para o Médio Oriente, Steve Witkoff, afirmou que existem fortes indícios de que o Irão está disposto a chegar a um acordo com os Estados Unidos para pôr fim ao atual conflito. É uma informação avançada pouco tempo depois de também se saber que o Irão rejeitou a proposta de 15 pontos apresentada pelos Estados Unidos. De facto, em que ponto estamos desta negociação? Está iminente esse acordo? Não está?
Acho que ninguém sabe. O problema aqui é que temos, do lado dos Estados Unidos, uma administração que muitas vezes o que diz e os factos realmente não batem certo, que é muito dada, se quisermos ter aqui uma interpretação mais benévola, no mínimo à hipérbole, é sempre tudo magnífico, excelente, grandes vitórias, está tudo a ser resolvido com grande sucesso. E depois, na prática, muitas vezes percebe-se que não será bem assim. E depois, obviamente, o próprio regime iraniano também não pode ser visto como propriamente muito credível. Inclusive com coisas como ataques contra a Turquia e Omã, que depois vem dizer que não foram do Irão, mas que teriam sido de outros, como se isso fosse crível. Portanto, realmente temos aqui um problema de base de termos dois atores, dois beligerantes. Enfim, numa guerra sabemos que é sempre preciso ter algum cuidado com as mensagens que vêm dos beligerantes, que naturalmente também farão parte de uma estratégia de informação, de guerra da informação. Mas neste caso eu diria que as coisas estão ainda piores do que é costume. Portanto, acho que é estranho que se fosse assim, o Irão estivesse a sinalizar a sua recusa total em relação a estas propostas. Não consigo perceber qual seria a lógica disso. Neste contexto, sou apesar de tudo obrigado a dizer que me parece um pouco mais crível o Irão do que os Estados Unidos, porque como eu digo, mesmo que não houvesse já um acordo, e portanto mesmo que o Irão quisesse sinalizar que estava aqui a manter a sua linha, dizer taxativamente que recusou tudo o que os Estados Unidos propuseram, realmente parece-me pouco compatível com esta ideia de que o acordo está iminente e que poderá ser anunciado daqui a muito pouco tempo. A ideia de um acordo iminente à partida é essa, que será rapidamente possível formalizar esse acordo. Portanto, obrigaria o Irão a desmentir completamente aquilo que disse. Não é algo que seja completamente inédito na história, já vimos quase tudo ou quase tudo, mas é realmente um pouco bizarro. À partida, o que seria normal seria o Irão começar até um pouco a preparar o terreno, a começar a sinalizar que conseguiu aqui grandes vitórias, que não cedeu em relação a pontos essenciais, algo desse tipo. Agora, recusar taxativamente tudo realmente parece pouco compatível com a ideia de que estamos perante a possibilidade de um acordo iminente.
E esse facto é surpreendente, a rejeição dos 15 pontos, tendo em conta a natureza dessas propostas dos Estados Unidos
A mim não parece assim tão surpreendente neste sentido: eu não tenho dúvida de que o Irão está militarmente numa posição de inferioridade, que os ataques americanos e israelitas destruíram muitos dos meios militares iranianos mais avançados. Mas o problema é que realmente, e é aquilo que nos mostra a história de muitos conflitos assimétricos, é que uma potência muito mais fraca militarmente não precisa de ser igualmente forte em termos de meios militares, não precisa ter os mesmos meios militares. O Irão não precisa ter porta-aviões pra conseguir combater os Estados Unidos. Basta fazer um uso inteligente da geografia, por exemplo, deste ponto de estrangulamento do Estreito de Ormuz, que significa que não precisa ter meios avançados navais para fazer ataques, por exemplo, até a partir de terra ou usar minas, que são uma tecnologia muito básica, muito fácil de produzir, para no fundo criar aqui suficiente incerteza no Estreito de Ormuz para a maior parte da navegação não querer utilizar o estreito. E as exigências norte-americanas pareciam ser, no fundo, as exigências mais maximalistas de negociações anteriores que o Irão também terá recusado. Enfim, aqui a única coisa mais positiva pro Irão seria eventualmente a questão do alívio das sanções. Mas realmente em muitos outros pontos eram aspectos que o Irão já tinha recusado. Portanto, parece haver do lado americano a ideia de que, por causa do custo militar da guerra, do número de alvos, dos milhares de alvos que eles já conseguiram atingir, eles estão a ganhar a guerra e portanto o Irão tem realmente de ceder e vai acabar por ser forçado a ceder. Mas eu temo que não seja essa a percepção do lado do regime iraniano, que eles achem que, pelo contrário, isto está a mostrar a limitação do poder americano, a capacidade de encaixe do Irão, de sofrer muitas baixas, inclusive entre a sua liderança, e continuar a combater, continuar a resistir.
Sendo que hoje os rebeldes houthis do Iémen anunciaram que estão prontos para se juntar ao Irão na guerra contra Israel e os Estados Unidos, que relevância tem este facto?
Tem uma relevância muito grande, porque, no fundo, os Estados Unidos parecem estar aqui a sinalizar que o passo seguinte seria ações no Estreito de Ormuz e eventualmente também na zona de Kharg, contra a ilha de Kharg, ou seja, eventualmente até ocupar algumas ilhas, algum território iraniano, para forçar a reabertura do estreito e também para ter uma moeda de troca para o Irão poder retomar esses territórios e essa exportação de petróleo, ter aqui uma moeda de troca. No fundo, o problema aí é se está a reabrir o Estreito de Ormuz, mas do outro lado os houthis voltarem a fechar ou criar uma enorme insegurança que leve a que a maior parte da navegação não utilize o estreito Aden, no fundo está-se a resolver um problema, mas está-se a abrir o outro. Além do mais, significa que, à partida, para responder a essa ameaça, mesmo que ela não se concretize já, os Estados Unidos à partida terão que desviar mais meios navais para essa zona, pra zona do estreito de Aden, pra zona do mar Vermelho. Portanto, não poderão concentrar tantos meios na zona do estreito como eventualmente seria necessário para esta operação extremamente complexa de libertar o estreito das ameaças iranianas mais imediatas, inclusive a partir de terra, e eventualmente começar algum tipo de ação de patrulha. Como eu tenho dito, isso é bastante custoso, arriscado, é muito difícil garantir uma segurança absoluta nesse contexto e exigiria bastantes meios navais. E se os Estados Unidos têm de dividir ainda por cima esses meios entre essa missão em Ormuz e outra em Aden, vai complicar ainda muito mais as coisas.
Donald Trump, entretanto, voltou hoje a procurar justificar esta intervenção militar do Médio Oriente. Diz o presidente dos Estados Unidos que o Irão teria usado armas nucleares contra Israel, Estados Unidos e outros países caso esta intervenção militar não tivesse ocorrido. Isto é possível confirmar através de fontes independentes se de facto isto é verdade ou não? Ou estaremos na presença das armas de destruição maciça que deram lugar àquela intervenção do Iraque a 11 de abril?
Sim. Mas já agora, só em relação ao ponto anterior, talvez valha a pena recordar aos ouvintes que o estreito de Aden é crucial em termos das comunicações marítimas entre a Ásia e Europa. É a grande via marítima mais direta, mais rápida e mais barata através do mar Vermelho e depois do canal do Suez, entre o oceano Índico e, por sua vez, depois também o Pacífico, as potências do Extremo Oriente, a China, etc., o Japão e a Europa. Portanto, mais uma vez, o potencial pra um custo econômico elevado é bastante significativo. É possível contornar, obviamente, o estreito, mas é dando a volta do cabo. Isso aumenta muito, quase que duplica a distância, aumenta o tempo também de forma correspondente e os custos, e portanto complica muito as cadeias de abastecimento da economia global, sobretudo entre a Europa e a Ásia. Mas em relação a essa tese, não temos aparentemente nenhuns dados concretos, ou seja, geralmente quando o presidente norte-americano faz esse genre de declarações, depois apresenta qualquer coisa, mas aqui não temos dados concretos nesse sentido e realmente isso é algo completamente especulativo. Neste momento, o Irão não tem armas nucleares, isso é reconhecido por toda a gente, até pelos próprios Estados Unidos. Tem, de facto, um programa de enriquecimento que é altamente suspeito, não faz sentido todo este esforço para enriquecer urânio àqueles níveis. Isso é desnecessário pra um programa nuclear civil, para produzir energia com centrais atômicas. Portanto, só faz sentido se estivesse a procurar adquirir aqui pelo menos uma capacidade militar potencial, mas realmente ela não se concretizou. Portanto, objetivamente, e até nos termos das informações que os Estados Unidos têm estado a dar, isso é puramente especulativo, porque implicava concluirmos que apesar de Donald Trump também ter dito que tinha obliterado o programa nuclear, o Irão, na verdade, conseguia recuperar isso muito rapidamente. Não só isso, mas que iria rapidamente passar a ter armas nucleares e, ainda mais, e esse é o passo que até agora nenhum Estado deu, nem a Coreia do Norte, nem a Rússia, apesar das múltiplas ameaças na questão da Ucrânia, nem os Estados Unidos, nem nenhuma potência nuclear desde 1945 realmente utilizou armas nucleares. Portanto, seria realmente um passo tremendo e em relação a isso não temos, que eu saiba, nenhuma indicação, muito menos nenhuma prova de que isso estivesse a acontecer ou estivesse à beira de acontecer, até porque, como eu digo, os Estados Unidos até agora, que eu saiba, nunca afirmaram que o Irão já tinha armas nucleares. Portanto, como é que é possível fazer ataques com armas nucleares sem ter armas nucleares? Eventualmente, há sempre esta especulação de uma bomba suja, no fundo, uma bomba convencional com material radioativo. Mas esse risco também nunca se concretizou. Nenhum grupo terrorista terá feito isso e, portanto, também que eu saiba, não há indícios disso, não há nenhum indício concreto, credível, nenhuma prova credível de que isso pudesse estar a ser preparado.
O argumento voltou a ser invocado por Donald Trump para justificar a intervenção militar conjunta de Estados Unidos e Israel no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, obrigado mais uma vez pela tua presença em mais um Gabinete de Guerra.
Obrigado.