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Contamos agora com o antigo professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo. Muito bem-vindo à Rádio Observador. Aproveito para pegar já aqui nesta questão da Base das Lajes, porque, de facto, vários aviões militares norte-americanos foram passando pela ilha açoriana, mas da parte do governo português, fomos ouvindo Paulo Rangel dizer que não tinha aqui responsabilidades, que fazia parte do protocolo. É mesmo assim ou de facto Portugal tem a obrigação de questionar os Estados Unidos e também de se explicar um pouco melhor?
Bom dia a todos. Sabe, eu acho que em qualquer momento o que temos que ver é o que é fundamental e o que é secundário, o que é importante e o que é menos importante ou, inclusive, não importante de todo. Neste caso, temos uma situação em que pela primeira vez surge uma oportunidade real de alterar por completo os equilíbrios do Médio Oriente. A favor, diga-se, da maior parte dos estados do Médio Oriente que, de alguma forma, são críticos em relação ao regime iraniano atual e que foram atacados pelo regime iraniano várias vezes ao longo de décadas. Portanto, existe essa oportunidade, de facto, uma oportunidade que, aliás, abre a porta para uma paz duradoura no Médio Oriente, para um Médio Oriente próspero e muito diferente do que é hoje, inclusive para acabar com o principal fomentador do terrorismo, não só no Médio Oriente, mas a nível mundial. É isso que está em jogo. E é necessário ter em conta que há aqui duas perspectivas em relação a esse ponto fundamental. A perspectiva israelita, que põe à frente e à cabeça, embora não o diga com todas as letras, derrubar o regime iraniano. E a perspectiva americana, que é uma perspectiva centrada, oficialmente, pelo menos, na questão dos mísseis balísticos e do armamento nuclear, e que não põe à cabeça e como prioridade derrubar o regime iraniano. E é compreensível que assim seja, mas é mesmo muito compreensível. Repare, as movimentações recentes no Irão, das quais resultaram largas dezenas de milhares de mortes feitas por este regime iraniano contra a sua própria população, tinham claramente por trás, de maneira muito evidente, um plano que era primeiro movimentações civis, a começar nos estudantes, depois na população civil, da qual necessariamente ou quase obrigatoriamente iriam partir o massacre desses civis e desses estudantes, que causaria indignação, e depois um golpe militar. Ou seja, as forças militares regulares do Irão, chamo forças militares regulares para distinguir de uma outra força militar que é a guarda revolucionária. O exército, a força aérea, a marinha regular do Irão teriam que intervir para derrubar o regime. Os civis sozinhos não são capazes de derrubar o atual regime iraniano. Portanto, é necessária uma ação militar por parte das forças militares regulares do Irão. Isso não avançou. Aparentemente, estava planeado e preparado, mas à última da hora a verdade é que não avançou. E, portanto, esta operação tem também como incentivo que isso avance. Agora, vamos a ver a perspectiva europeia tradicional. Primeiro, a Europa está completamente fora disto. O equilíbrio mundial está a ser reorganizado. E a Europa está, como sempre, refugiada em declarações legalistas e moralistas que pura e simplesmente perdem de vista o que está em jogo e perdem de vista os interesses europeus de médio e longo prazo. E os interesses europeus de médio e longo prazo claramente apontam num sentido nesta crise que se passa no Médio Oriente. Do ponto de vista da legalidade internacional, eu tenho dificuldade em conceder um regime mais contrário à lei internacional, à moral e à ética internacional que o do Irão, que o atual regime do Irão. É um regime que promove o terrorismo em larga escala, não só no Médio Oriente, como também na Europa, que provocou milhares e milhares de mortes por atos terroristas espalhados por todo o mundo. É um regime que massacra a sua população. É difícil conceder um regime mais contrário aos valores humanistas e aos valores humanitários. Portanto, a ilegalidade é total por parte do regime iraniano e é um regime que não pode ser derrubado com declarações de princípios, declarações morais, declarações éticas e condenações. Tem que ser derrubado com força militar, tão simples como isso. Não há outra maneira de derrubar. Obviamente, por uma ação da população iraniana que já provou, recentemente, que uma parte significativa está disposta a ir contra o resto do regime, e morreram dezenas de milhares de iranianos por causa disso, mas agora é preciso força militar, a começar na força militar do próprio Irão. Portanto, é isso que é preciso termos em conta quando falamos no contexto mais geral destes acontecimentos. O equilíbrio todo do Médio Oriente e a partir dali o equilíbrio global está em cima da mesa e pode mudar de um momento para o outro. E quem é que está a fazer essa segurança? Bom, Estados Unidos e Israel. E a Europa? A Europa, como sempre, por esse lado. Subia para o lado, faz declarações de éticas de escola primária e pura e simplesmente está completamente fora da jogada, pelo menos os principais países europeus. Por exemplo, condenar esta ação é, de facto, perder de vista o seu contexto, que é o contexto de uma ação militar contra um regime que massacra a sua população, que promove o terrorismo em larga escala e que tem feito centenas, cento e poucos milhares de ataques contra os países vizinhos e de destabilização da zona, a começar nos últimos e a continuar por todo o resto
A reação que temos, a primeira e única até agora da União Europeia, é da alta representante da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que fala em acontecimentos alarmantes. Diz que a União Europeia vai levar a cabo os esforços diplomáticos com os países árabes. Não é muito clara sobre a condenação ou não do ataque. Só para também dar este contexto aos nossos ouvintes e também para o convidar a comentar estas declarações.
Qualquer declaração de condenação merece a minha condenação total. É, de facto, de uma cegueira difícil de conceber. Custa-me entender como é que pessoas inteligentes conseguem ser tão cegas perante o que se está a passar, perante a perspectiva da alteração dos equilíbrios de todo o Medio Oriente, vizinho da Europa, e a partir daí, dos equilíbrios globais, e a não participação da Europa nestes acontecimentos. A Europa põe-se de lado. E põe-se de lado em larga medida, porque muitos dos governos europeus têm medo da reação interna, têm medo dos efeitos, nomeadamente eleitorais, que isso pode ter. Então preferem não defender os interesses europeus e pôr-se de lado, em vez de assumir uma posição que é clara. Neste caso, para mim, não há a mais pequena dúvida que esta ação deve ser aplaudida e não condenada. Agora, isto é uma perspectiva geral. Em relação às Lajes, como colocou a questão, era evidente. Mas quer dizer, era preciso ser um super cego para não entender que aquele acumular de aviões na Base das Lajes tinha o Irão em perspetiva. E tudo isto acontecia pela operação que estava a ser preparada contra o Irão, mas que ninguém escondia. Os Estados Unidos eram os primeiros a falar abertamente nisso e a dizer que: "Sim, senhora, estamos a preparar uma operação de larga escala. E se quiser, depois falamos sobre isso, que a escala é, de facto, muito larga". Isso era dito claramente. Não há qualquer hipótese de haver outra explicação, que não aquela, para a acumulação de aviões nas Lajes. O que é que o governo português devia fazer? Devia fazer, na minha opinião, exatamente o que fez. Só posso aplaudir a posição do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era dizer, primeiro, autorizar e segundo, não fazer perguntas, porque fazer perguntas seria colocar-se diretamente em termos do fogo cruzado. E Portugal não tem dimensão para sozinho se meter em fogos cruzados. Portanto, sim senhora, não fazer perguntas oficiais e deixar que isso acontecesse e deixar e extra-oficialmente dizer que sim, senhora, que era autorizado. Parece-me uma posição perfeitamente compreensível, lúcida e inteligente por parte do governo português e por parte do Ministro dos Negócios Estrangeiros, que só posso cumprimentar por ter tomado essa posição. E espero que não venha a ter que engolir estas palavras se houver uma condenação futura, que não acredito que isso aconteça, mas se vier a seguir uma condenação futura. Agora, isto é um ponto. O segundo ponto, não sei se quer entrar nisso, é qual é a perspectiva para a evolução desta situação. Quer entrar nisso? Há tempo para entrar nisso, ou não?
Sim. Até porque temos aqui a questão do eventual conflito regional e até que ponto é que isto depois pode escalar também a nível mundial.
Esta operação, em termos de envolvimento de Estados Unidos/Israel, nunca, jamais passará por botas no terreno. Não passa. A não ser, com uma exceção, obviamente, que são as forças especiais, essas já lá estão. E já lá estão desde há muito tempo no Irão e a sua ação é extremamente importante para justamente permitir uma intervenção aérea cirúrgica e direcionada. Mas retirando-se as forças especiais, nunca passará por uma invasão, como já ouvi muitas vezes dizer: "Invasão". Não haverá nunca uma invasão. O que há é uma ação pensada com dois objetivos, um que é muito claro e que é oficial, acabar com a capacidade atómica nuclear, entenda-se, com a capacidade do armamento nuclear e de mísseis balísticos de longo alcance do Irão, e uma segunda, eventualmente, que é apoiar o levantamento que já está em curso, que já decorreu e que já provocou dezenas de milhares de mortes do povo iraniano para derrubar este regime. E isso surge claramente em todas as afirmações que são feitas, quer por parte dos Estados Unidos, quer por parte de Israel. E que me parece, diga-se, que é oportuno e perfeitamente justificável nesta altura. Portanto, a ação militar tem, na minha opinião, uma evolução com vários cenários possíveis. E esses vários cenários possíveis têm uma grande incógnita que neste momento está por trás e que possivelmente nem sequer os Estados Unidos conseguem responder. E essa incógnita é: o que é que vão fazer as forças militares regulares do Irão, por oposição à Guarda Revolucionária, que essa quase de certeza irá apoiar o regime, se não na totalidade, na quase totalidade. Mas há depois o resto, que são as forças militares regulares do Irão. Essa é que é a grande incógnita. E de certeza que por trás desta operação houve contactos e houve preparativos justamente para ver o que é que poderá acontecer. E de certeza que a escolha dos alvos tem também isso em conta. Ou seja, sem ser um objetivo oficial da operação, tem em conta justamente criar uma situação que favoreça e que incentive as forças militares regulares do Irão a intervirem. Eu repito, os civis sozinhos não conseguem derrubar o regime. Os coitados dos estudantes têm morrido aos milhares e dos civis desarmados têm morrido aos milhares nas ruas das cidades do Irão não conseguem sozinhos derrubar o regime. É preciso uma intervenção da força militar. Qual força militar? A do Irão. Essa tem de intervir para o regime ser derrubado. Portanto, esta operação visa incentivar isso. Se irá acontecer ou não, é uma grande incógnita e dependendo da evolução dessa incógnita, esta operação poderá dirigir-se num sentido ou noutro. Uma saída possível, digamos, a saída de efeito mínimo, é pura e simplesmente o governo iraniano, ou seja, o atual governo iraniano, dizer: "Está bem, aceitamos todas as condições que estavam em cima da mesa das negociações em termos do programa nuclear dos mísseis balísticos". E pura e simplesmente fazer isto como forma de se salvar e de continuar no poder. É uma possibilidade. Justamente, quem planeou esta operação, o que deve ter também em perspectiva é criar uma situação em que os militares iranianos tenham o incentivo para intervir. Já agora, uma prevenção também. O atual governo americano, gostemos nós dele ou não, e a maior parte dos europeus não gosta, não faz intervenções para derrubar regimes numa perspectiva ideológica. O que se pretende não é reconstruir ou construir uma democracia no Irão, ainda menos uma democracia de tipo ocidental e ainda menos uma democracia tipo Europa Ocidental. Poderá acontecer, mas não é esse o objetivo. O objetivo é, em termos, nomeadamente, de intervenção militar, terminar com o regime terrorista que está prestes a ter um armamento nuclear, que já provou que ataca sem hesitar os seus vizinhos. Já agora, uma das coisas que para mim é também um ponto de interrogação adicional é ver quem é que o Irão ataca, porque o Irão já atacou as bases americanas nos países pequeninos do Golfo Pérsico, mas as principais bases americanas estão na Arábia Saudita. Será que o Irão vai atacar a Arábia Saudita? Eu tenho sérias dúvidas, para mim é um ponto de interrogação. Mas à parte disso, quem diz que esta intervenção é feita para repor uma democracia no Irão não entende o que se está a passar, não entende o nosso mundo. Está a viver numa utopia que não corresponde ao planeta Terra, que não existe no planeta Terra neste momento. Isso poderá acontecer, repito, mas não é um objetivo expresso. Por quê? Porque para isso ser feito como objetivo expresso, aí, sim, seriam precisas botas no terreno. E ninguém quer pôr botas no terreno, não só os Estados Unidos e Israel, mas nenhum dos países vizinhos: Iraque, Arábia, etc., países do Golfo Pérsico, etc. Nenhum dos países vizinhos o quer fazer, porque está mais preocupado justamente com os grupos terroristas e jihadistas financiados pelo Irão dentro do seu território e com guerras civis a decorrerem um pouco por toda a parte, a começar na própria Arábia Saudita. Portanto, o Irão tem sido o grande desestabilizador desta zona, no sentido de promoção do terrorismo e promoção do jihadismo