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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos do conflito no Médio Oriente. Hoje com o especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. Muito boa noite, João, e obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começávamos com a informação que surgiu hoje que as negociações técnicas entre os Estados Unidos e o Irão vão decorrer, vão ter lugar na próxima semana e perguntava-lhe: está construído um clima de confiança mútua suficiente entre o Irão e os Estados Unidos para que se possa avançar positivamente com estas negociações?
Olá, António, e olá aos ouvintes da Rádio Observador. Eu acho que tem vindo a ser construída nos últimos tempos, depois de vários meses de muita incerteza, não só obviamente do ponto de vista militar, mas também dos diferentes avanços e recuos, acima de tudo recuos, infelizmente, que houve durante o processo, nomeadamente da parte da administração americana e Donald Trump, com os sucessivos prazos que foi impondo e depois simultaneamente não cumprindo. Portanto, aquilo que se foi vendo nos últimos tempos foi de facto avanços significativos, quer do ponto de vista da confiança das duas partes, com a intermediação de terceiros numa fase inicial e agora com estes contactos mais diretos entre as partes, que permite que possa de facto haver uma plataforma de diálogo com confiança entre ambos. Eu acho que mais importante até do que isso, é depois avaliar qual é que será realmente o impacto da negociação que será alcançado ou do acordo que será alcançado, e perceber quais são os ganhos de parte a parte, sobretudo numa lógica de que ambas as partes terão de vender as negociações e o resultado das negociações como uma vitória para si própria.
Uma das questões que estará sempre presente nestas negociações é a questão do Líbano. Ainda hoje o ministro da Defesa israelita, Israel Katz, afirmou que as forças de Tel Aviv não vão sair do sul do Líbano, mesmo que os Estados Unidos o exijam no âmbito do acordo de paz que querem fazer com o Irão. Eu perguntava-lhe qual é a viabilidade de se conseguir alcançar um acordo duradouro entre Washington e Teerão, tendo esta questão do Líbano sempre presente e esta posição de Israel?
Muito difícil. Há aqui dois momentos-chave para o desenrolar daquilo que poderá vir a ser o futuro ou pelo menos a forma como os Estados Unidos ainda poderão exercer alguma pressão sobre Israel e que terão lugar uma nos Estados Unidos e outra em Israel. Em Israel, com a possibilidade das eleições no outono e, portanto, eventualmente uma mudança de governo que, por aquilo que se sabe, pode não levar a uma melhoria da situação, pode efetivamente levar a que haja um endurecimento da linha política em Israel e que com isso haja o triunfo das forças mais extremistas e que defendem mais uma posição militar em relação ao Líbano, e depois as eleições nos Estados Unidos, as eleições intermédias nos Estados Unidos, que permitirão ou que poderão levar a uma mudança substancial no Congresso americano. E isso, como se tem visto nos tempos mais recentes, tem provocado já mudanças muito profundas na forma como quer democratas, quer republicanos, mas sobretudo na ordem democrática, na postura como têm encarado Israel e quebrado, de certa maneira, a aliança tradicional que os Estados Unidos sempre tiveram. E temos vários candidatos democratas que estão na iminência de poder ganhar nas eleições e, portanto, com isso mudar um pouco as dinâmicas de maiorias no Congresso americano. E isso poderá ser também determinante para a forma como se condicionará a política externa americana numa altura em que o Senado parece querer novamente chamar o presidente americano à colação e voltar a exercer o seu poder de controlo, sobretudo na parte da política externa sobre Donald Trump.
E mesmo da parte dos republicanos no Senado, tem estado a haver essa tentativa de condicionar um pouco Donald Trump em relação à ofensiva no Irão.
Exatamente. E de certa maneira, fruto daquilo que se percebeu ter sido uma operação desastrosa, julgo eu, mesmo que não seja assumido publicamente ou pelo menos visto como dito publicamente pela parte da base de apoio de Donald Trump, não há muitas dúvidas de que se o acordo que vier a ser alcançado for aquele de que se tem falado, ele traduzir-se-á em muito poucos ganhos substantivos para os Estados Unidos e não passará mais do que um regresso ao status quo que existia antes do início do conflito. E portanto, há de facto uma necessidade ou um sentimento de uma necessidade da parte do Senado de voltar a tomar as rédeas da política externa americana e exercer aquilo que é efetivamente o seu mandato constitucional para que o presidente americano tenha que consultar o Congresso sempre que toma decisões de política externa, em particular que envolvam ações militares externas.
Há também aqui outra questão em relação ao cenário que tínhamos antes da intervenção norte-americana e o cenário que temos agora e poderemos ter no futuro. Marco Rubio avisou o Irão que não pode cobrar portagem no Estreito Ormuz. Esta zona continua a ser um dos grandes bezilhes destas negociações. Diz o secretário de Estado norte-americano que Teerão poderá ser condenado internacionalmente e garante que os Estados Unidos vão continuar a zelar pela segurança dos aliados no Golfo. A reabertura do estreito continua a ser um equilíbrio muito frágil nesta altura.
Sem dúvida. Eu acho que o António há pouco colocou muito bem a questão. Neste momento, os principais entraves a que haja um acordo, e mais até do que o acordo, uma perspetiva de futuro para a região que Que seja de paz, que seja pacífica e que permita pelo menos uma convivência salutar entre os diferentes países, é precisamente a questão do Líbano. E no Líbano, eu há pouco não disse, mas gostava de referir agora, Israel assumiu claramente uma postura de mover a linha vermelha para dentro da fronteira do Líbano, para o sul do Líbano, envolvendo ou passando a envolver parte do território do Líbano como sendo essenciais para a segurança israelita e com isso considerar a legítima ocupação militar desse território como forma de garantia da sua própria defesa. E depois é obviamente a questão do Estreito de Ormuz e a forma como o Irão fará a gestão do tráfico marítimo, garantindo que não há cobrança de qualquer tipo de portagens, para pôr de uma forma muito simplista, sobre a navegação marítima nos Estreitos. Isso, obviamente, é completamente atentatório daquilo que são as normas do direito internacional sobre a navegação marítima. Agora, aquilo que é também evidente é que o Irão percebeu que é ali que tem o seu ponto de estrangulamento e de certa maneira até a sua sobrevivência. Quando confrontado com um poderio militar superior, consegue, através do estrangulamento do Estreito de Ormuz, levar a sua avante. E até como o próprio Donald Trump referiu entretanto, de uma forma bastante sábia, o Irão nunca ganhou uma guerra, mas também nunca perdeu uma negociação e parece mais uma vez que é isso que está a acontecer aqui neste caso.
João, e a terminar com uma questão sobre outro conflito, o conflito na Ucrânia, ataques de Kiev na Rússia têm estado a forçar Moscovo a reposicionar os seus meios na zona da capital e também na zona da Crimeia. Também esta semana há a notícia da destruição de uma importante ponte ferroviária sobre o canal da Crimeia do Norte, uma ponte que é estratégica para os russos. Perguntava qual é nesta altura o papel que a Crimeia continua a desempenhar neste conflito?
Será sempre o ponto mais difícil, seja qual for o desfecho do conflito. De certa maneira, o ponto que estava mais preestabelecido, ou seja, mesmo antes do início da invasão há quatro anos, a Rússia já tinha dado início à anexação da Crimeia e, portanto, já considerava essa anexação 10 anos antes, quase praticamente, como sendo uma anexação de fato. E a Rússia tentará, não tenho grandes dúvidas em relação a isto, tentará sempre que, independentemente de qual for o resultado do conflito e das negociações que daí se seguirem, tentará sempre preservar algum tipo de controle sobre a Crimeia, se não for mesmo a anexação, encontrar uma outra formulação. E eu acho que eventualmente até será necessário trabalhar-se sobre essa solução, que é obviamente, pelo menos por enquanto, inaceitável para os ucranianos, não é preciso mesmo frisar isto, mas estou convencido que será necessário tentar trabalhar uma solução que permita qualquer tipo de concessão à Rússia nessa matéria, como forma de eventualmente procurar um fim para esta invasão. Não sei se isso será possível, porque obviamente compreendo perfeitamente a legítima posição da Ucrânia de não aceitar esta concessão. Também não consigo vislumbrar de que forma é que a Rússia aceitará qualquer tipo de fim deste conflito se não envolver esta questão. E, portanto, será essencial para que pelo menos as duas partes consigam chegar a algum entendimento.
Ficamos então por aqui hoje. João, muito obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador. Fica aqui então esta análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.