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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. É o programa em que analisamos nos próximos minutos os principais conflitos que marcam a atualidade. Hoje recebemos Rui Vilar, especialista em defesa. Muito boa noite, seja bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Moscovo ameaça com contramedidas, incluindo militares, caso os Estados Unidos reforcem o contingente, também ele militar, na Gronelândia. Rui Vilar, eu gostaria que nos explicasse por que os Estados Unidos e a Rússia se sentem em liberdade para se apropriarem do discurso sobre a Gronelândia e que consequências é que pode ter esta ameaça da Rússia. É que a Gronelândia não é terra de ninguém.

Boa noite, Diana. Boa noite a todos os que nos ouvem. Para introduzir este tema de uma forma mais simples para as pessoas perceberem, quando a Rússia fala em manobras, incluindo militares, as tais contramedidas que Lavrov falou para responder a esta crescente militarização que os Estados Unidos têm previsto para a Gronelândia, estamos a falar de manobras de natureza técnico-militar. Isto é, o que a Rússia está a dizer é que se os Estados Unidos, aproveitando também o fim do Tratado New START e deste interesse crescente em militarizar a Gronelândia, vai também reforçar as suas bases que tem, e que são várias, no Ártico. E eu acho que é isso que a Rússia quer dizer, porque a Rússia sente-se sempre muito cercada pelos Estados Unidos e pela NATO, e uma militarização da Gronelândia, de certa forma, aperta o cerco estratégico da Rússia. E eu acho que é o que a Rússia está a tentar sinalizar. Quanto à propriedade do Ártico ou da Gronelândia, no caso concreto, quer o lado americano, como vimos de uma forma bastante simplista, que me foi explicado por Donald Trump há cerca de um mês, mas também do lado russo, é uma terra reclamada pelos dois países, sendo que uns invocam raízes históricas com umas datas, os Estados Unidos com outras, e não há ali um certo acordo. Mas o que é certo é que são dois países que têm uma presença muito forte nessa zona e, no fundo, a Rússia está a dizer aos Estados Unidos: se vocês militarizarem mais, e eu prevejo que os Estados Unidos queiram também reforçar o seu escudo antimíssil, a Rússia também vai reagir com algumas manobras técnico-militares, se calhar, reforçar o seu contingente nas bases que tem no Ártico. Mas isto também está sempre dependente do que poderá acontecer na Ucrânia, porque a Rússia, como vimos até na questão da Síria há uns meses, isto é como um cobertor, tapa a cabeça e destapa os pés. E a Rússia, enquanto estiver com uma presença grande na guerra que tem na Ucrânia, também terá sempre dificuldade em lidar com outro tipo de ameaças noutras zonas do globo. Mas é a Rússia, não é? A sua visão imperialista e a defesa do seu território. Portanto, eu acho que é normal esta resposta e estas mensagens, e acho que também não é de nos assustarmos muito.

Até porque é preciso perceber também que a Gronelândia é um território que, por excelência, é muito importante na defesa da região do Ártico. Como é que nos pode explicar qual é a importância desta terra, de que nós agora ouvimos falar tanto e que antigamente não ouvíamos, numa questão de estratégia em larga escala?

Enfim, nós também estamos a ouvir muito falar neste crescente militar nos últimos tempos, também por causa do fim do Tratado New START, que no fundo previa uma desmilitarização e não o aumento dos arsenais dos países. Depois, os Estados Unidos, nos últimos tempos, olham para a Gronelândia e eu acho que é precisamente aquilo que referi há pouco, no aumento da sua capacidade do escudo antimíssil. Aliás, Donald Trump tem sido bastante claro em relação a isso, dizendo que é uma zona essencial para a segurança e para a defesa dos Estados Unidos. A Rússia conta aqui com um aliado europeu. Os países europeus responderam de uma forma bastante dura à pretensão de Donald Trump fazer, de certa forma, uma invasão ao território da Gronelândia, mas depois daquela encenação toda e daquela espera pelo discurso de Davos, percebemos depois naquele dia que os Estados Unidos querem controlar aquela zona e até, de certa forma, comprar a sua presença naquele território. Mas é como eu digo, eu acho que é importante, sem dúvida, essa zona. Nunca perdeu importância. Se calhar, nós é que com os conflitos noutras zonas do globo, deixamos de olhar um pouco para aquela zona, mas continua a ser uma zona essencial, inclusive para o comércio, para o tráfico de navios. Portanto, vai ser sempre uma zona bastante disputada e a Rússia, como também tem presença, quer mostrar que também está lá e que ainda está lá. No fundo, também dar um sinal ao mundo e aos Estados Unidos que também tem presença no Ártico e que quer continuar a tê-la e, quem sabe, aumentá-la.

E há pouco falava Rui Vilar da guerra na Ucrânia. Zelensky pode vir a anunciar um calendário de eleições e um referendo ao acordo de paz no próximo dia 24, é o dia em que faz quatro anos de guerra. Sendo que vou já aqui fazer uma pequena correção, não a esta informação, mas entretanto Zelensky foi confrontado com esta informação adiantada pelo Financial Times e afirmou que só vai convocar eleições quando houver condições de segurança para isso. No entanto, aquilo que eu lhe ia perguntar era se este é um dia muito importante, faz quatro anos de guerra, a Ucrânia está em alerta máximo nesse dia. O que é que podemos esperar? É que temos visto todos os anos movimentações de forma mais intensificada, principalmente do lado da Rússia, é de ter mais cautela neste dia ou o facto de haver negociações neste momento pode ser um sinal de que vai ser diferente este ano?

Eu acho que o facto de haver negociações E temos visto nos últimos dias que não têm abrandado a força e a brutalidade dos ataques russos e também ucranianos, que a Ucrânia ainda hoje atacou uma central em Volgogrado. Agora, quanto às eleições, confesso que soube também há pouco, numa notícia vossa, do "O Observador", que Zelensky já tinha negado, face aos rumores que começaram a circular em meios bastante credíveis esta manhã. Parece-me, e eu até já disse isto noutro programa aqui há umas semanas, que Donald Trump aposta tudo nas eleições na Ucrânia, porque ele próprio já demonstrou várias vezes estar farto, quer de Zelensky, quer de Putin. Trump percebe que Putin não conseguirá afastar do Kremlin e está a tentar afastar Zelensky, porque tem sido um bocado inegociável com a Rússia nas negociações. Parece-me que Trump definiu o calendário, ou a administração americana, ontem, que Putin e Zelensky tinham que se entender até junho. Portanto, isso poderá nos indicar que, para já, não haverá anúncios de eleições. Agora, que Donald Trump tem pressionado Zelensky bastante para este convocar eleições, tem feito. E aliás, já em dezembro, Zelensky admitiu que as faria e disse inclusive que iria solicitar as alterações legislativas para que elas pudessem acontecer. Aliás, até disse que em 90 dias iria ter uma resposta para isso. Portanto, ainda pode existir essa convocação de eleições por parte de Zelensky. Agora, vivemos num cenário muito difícil, com vários calendários. Como disse, há negociações a decorrer. Vão decorrer agora nos Estados Unidos mais negociações. Parece que há ali um impasse no Donbass. Trump pressiona Zelensky a fazer eleições, porque eu acho que Trump poderá jogar como um ator político forte a tentar a derrota de Zelensky. Agora, quem é que será o candidato contra Zelensky? As duas escolhas mais populares, que por acaso derivam todas da guerra. O antigo chefe das Forças Armadas e o atual chefe do Serviço de Informações Ucraniano são aqueles que estão, em termos de popularidade, nas poucas sondagens que há, mais próximos de disputarem umas eleições com Zelensky, mas, principalmente, Valery Zaluzhnyy, que é o antigo chefe das Forças Armadas Ucranianas, que está agora em Londres, já disse que é completamente contra eleições durante o tempo de guerra e que quem quer que ponha o seu nome a circular é falso, porque ele não quer disputar eleições. E Zelensky continua, apesar de ter descido bastante face ao resultado que teve nas eleições que o elegeram, com sondagens, umas que dão 50%, outras dão 60%, outras que dão menos, cerca de 20%, mas em todas elas, Zelensky está em primeiro. E o próprio Zelensky também já disse que quando a guerra acabar, ele não se recandidata. Portanto, ele não quer ser mais presidente da Ucrânia, o desígnio dele agora é acabar com a guerra. Portanto, eu confesso a minha dificuldade face a tanta informação lançada por parte americana.

Admite que os Estados Unidos e a Rússia possam escolher um ou alguns candidatos para concorrer a estas eleições?

Escolher, entre aspas, mas que podem, de certa forma, usar canais de desinformação. E mesmo Trump, de forma frontal e aberta, ser capaz de fazer afirmações indicando que para ele qual seria o presidente ideal. Eu não tenho dúvidas que Trump é capaz de fazer isso, porque ele quer alguém que seja quase um fantoche nas negociações para dizer depois que acabou com a guerra e quer acabar com aquele conflito. Eu acho que é isso que Trump irá fazer, irá de forma declarada dizer, caso existam eleições, quem é que será o candidato que ele acha que é o melhor para o futuro da Ucrânia. E depois vivemos em tempos de guerra. É muito complicado, há milhares de mortes, há situações muito desesperantes por parte da população e nós não sabemos como é que uma população reage a isto. É muito estranho estarmos a falar em eleições com ataques diários da Rússia a território ucraniano, onde morrem muitas pessoas, onde outras pessoas têm muitas dificuldades face aos ataques às centrais elétricas e em pleno inverno. É difícil perceber como é que uma população vai reagir a eleições. É muito complicado. Acho que manda a prudência, que, como é óbvio, se chega a um acordo, que haja um cessar-fogo, que haja um acordo de paz e que depois, sim, naturalmente, o país se reerga e se comece a reorganizar e aí depois fará eleições com toda a calma e serenidade. Mas vamos esperar para ver, porque o que me parece, eu não estou a dizer que concordo, aliás, percebeu-se que não, mas o que me parece é que Donald Trump não está muito preocupado com isso e quer afastar Zelensky a todo o custo.

Falamos ainda nestes minutos que nos restam do outro conflito, Irão e Estados Unidos. Ainda não é um conflito armado, mas pode caminhar para lá. Teerão considera inegociável o seu programa de mísseis. Diz que é uma linha vermelha numa altura em que têm estado também a decorrer negociações com os Estados Unidos. Que impacto é que esta afirmação do Irão pode ter no decurso destas negociações, Rui Vilar?

A minha opinião e a minha leitura é que essa afirmação ou essa informação demonstra claramente que os Estados Unidos estão mais uma vez a negociar nesta nova era de negociação ao estilo de Donald Trump. Ou seja, atiram longe para depois conseguirem um benefício que não é tanto aquele com que pedem. E quando vemos o Irão a dizer que já tem abertura para discutir o programa nuclear e para isso estar em cima da mesa É o que os Estados Unidos e Israel querem. É esse o grande objetivo dos americanos e de Israel no Irão: o programa nuclear e que ele não exista. O facto de agora estarmos a dizer que o Irão já aceita negociar o programa nuclear, mas não aceita o programa de mísseis balísticos, já é um avanço para os Estados Unidos e para Israel. Ou seja, já há ali um objetivo conseguido. Depois temos que pensar também na gestão interna por parte da administração iraniana, que está muito acossada, como nós sabemos, está com fortes protestos nas ruas, está sob a ameaça americana. Já demonstrou no verão passado que não está assim tão pronta para a sua defesa, como vimos com o ataque israelita, e já agora também não está assim tão pronta para atacar, como vimos aqueles ataques que tentou fazer contra Israel que foram facilmente aniquilados. Ou seja, o programa de mísseis, até por esse episódio que tivemos no verão, não deve ser uma questão muito preocupante para os americanos e para os israelitas, até porque já perceberam que está frágil. O objetivo ali sempre foi, há muitos anos, o programa nuclear e acabarem com ele. E esse objetivo, o facto do Irão já assumir que esse discute e que fala com os americanos é o objetivo principal. Depois terá que gerir internamente, como eu dizia, perante a população não pode sair como um derrotado nas negociações. Pode usar até esta saída de não negociar nem discutir o programa de mísseis como uma forma de dizer à própria população que também ganhou a negociação. Porque nós também temos sempre estes dois lados, sempre que há as negociações entre as potências, que há o lado externo, a mensagem que querem passar para fora, mas depois também há o lado interno. Mas na minha opinião, parece-me claramente que o principal objetivo americano já foi conseguido e isto é quase uma saída que o Irão arranjou para mostrar também alguma força na mesa das negociações.

Rui Vilar, agradeço a sua presença neste Gabinete de Guerra, agradeço a sua análise. Nós voltamos amanhã para mais um Gabinete de Guerra.