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Este é o Gabinete Guerra das manhãs 360, hoje com análise do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Começamos pelo Irão. O Wall Street Journal diz que um ataque americano não está iminente, que primeiro é preciso que os Estados Unidos reforcem as defesas aéreas dos aliados no Médio Oriente. Miguel, há também quem diga que Trump já não tem como recuar depois das várias ameaças e de reforçar a frota naquela região. Por seu lado, o Irão garante uma resposta esmagadora, mas andamos nesta narrativa há vários dias. Isto pode ser sinal de que ainda há espaço para negociações?
Essa é uma pergunta interessante, até porque há muita gente que tem feito um paralelo com a Venezuela. Ou seja, foi buscar a imagem que nós temos da Venezuela, daquilo que foi um bloqueio naval muito grande, como já não se via há muito tempo. E repare-se que neste momento, inclusive, aquilo que é o bloqueio naval, chamemos assim, no Golfo Pérsico, já é muito maior daquilo que esteve na antecâmara do ataque à Venezuela. Agora, tem aqui um paralelo que também é importante olhar, é que o Irão não é a Venezuela. Enquanto a Venezuela, de alguma forma, tem duas premissas que me parece a mim que foram importantes pro ataque, que foi primeiro a questão de corrupção do próprio regime, que em parte do próprio regime cooperou com os Estados Unidos e, efetivamente, a incapacidade militar que teria para responder. O mesmo não se passa com o Irão. Ou seja, primeiro, não há uma possibilidade de haver um ato corruptor que permitisse, dentro do regime, haver alguma evolução e estar envolvido com qualquer tentativa de derrube do regime. E depois, o Irão tem capacidade militar para responder, não só a uma ofensiva americana, que nunca será terrestre, pelo menos a primeira será sempre com ataque de mísseis e efetivamente com a utilização de aviões, mas depois tem uma capacidade militar para atacar, não só esse ataque, mas para fazer uma retaliação aos parceiros do Médio Oriente, nomeadamente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, mas acima de tudo, Israel.
Israel, claro.
E esse é sempre um grande problema. E as monarquias do Golfo, nomeadamente, lá está, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar, pediram sempre aos Estados Unidos que conseguisse, de alguma forma, ter paz na região, mas nunca haverá paz na região enquanto a questão do Irão não estiver resolvida. Cabe lembrar que nós vamos ter aqui também uma situação no Iraque em que vamos voltar a ter um primeiro-ministro que é um primeiro-ministro que não tem uma visão pró-ocidental, que não tem uma visão próxima dos Estados Unidos e que, curiosamente, até fala em possível cooperação e entendimento com o Irão, o que seria também algo inédito. Portanto, o que os Estados Unidos, a mim me parece, é que estão a reforçar, exatamente como o Wall Street Journal diz, a reforçar a questão militar, mas acima de tudo, a tentar encontrar aqui uma tentativa de cooperação. Ou seja, isto muito rapidamente. Os Estados Unidos não estão muito preocupados, e isto é importante também dizê-lo, com a questão da democracia. Obviamente, o que nós assistimos é uma matança generalizada da população. Nós estamos a falar-
Toda aquela repressão, sim.
Exatamente, segundo algumas organizações não governamentais, acima dos 40 mil. E obviamente que Donald Trump sobre isso falou. Mas a mim não me parece, como estou dizendo da Venezuela.
A preocupação é o nuclear.
Não é o nuclear, Maria João. A preocupação ali é a China. Ou seja, nós estamos a ver estes pontos no globo essenciais: tentativa de trazer a Rússia pra órbita de influência dos Estados Unidos, afastando-a da China, a tentativa de trazer a Venezuela pra órbita dos Estados Unidos, afastando-a da China, os ataques na Nigéria, dizendo à Nigéria para se afastar da venda dos hidrocarbonetos também à China, e agora a questão do Irão. Na tentativa de quê? Na tentativa de forçar o entendimento com este regime para que ele siga, de alguma forma, a política norte-americana, afastando-se assim da China. Agora, temos aqui uma questão: é que efetivamente o Irão é uma teocracia muito complicada, em que existe uma repressão sobre a sua população massiva e brutal, e portanto, não é a Venezuela. A mim parece-me é que os Estados Unidos estão à espera de conseguir das duas uma: ou que o regime aceite, de alguma forma, afastar-se da China e cooperar com os Estados Unidos, o que eu acho difícil que o faça, e se isto não conseguir, se efetivamente o governo americano não conseguir isto, então temos aqui um ataque, mas vai ser um ataque massificado. Ou seja, eu termino dizendo isto: são cerca de 120 mil pessoas espalhadas por todas as províncias do Irão, da Guarda Revolucionária, mais tudo aquilo que é a estrutura de regime em termos administrativos, de organização política e depois a questão religiosa. Portanto, não basta cortar uma ou duas pessoas do regime para que o regime caia. Depois tem outro ponto que é os curdos ao norte, com quem os Estados Unidos supostamente já teria tido uma conversa semana passada no Iraque. Estão armados e, portanto, há que também acautelar para não provocar uma guerra civil. Depois há aqui um eixo importante que é atacar como, quando e como é que será o day after. Ou seja, porque as lições que os Estados Unidos aprendeu ou deveria ter aprendido Quer no Afeganistão, quer na Líbia, quer na Síria, também têm que ser levadas em conta. Porque criar uma instabilidade no Irão-
O problema é para quem lá fica, não é?
Exatamente.
Certo. Miguel, falavas há pouco da Venezuela. Olhemos agora para Cuba, porque Trump diz que quer depor o regime de Havana até o fim deste ano. Mas Miguel, o regime cubano é conhecido por ser coeso e leal. Isto pode significar que a missão dos Estados Unidos não será tão fácil como foi em Caracas?
Eu acho que o regime cubano viveu durante muito tempo também numa ideia quase cinematográfica de resistência aos Estados Unidos. Nunca houve realmente uma grande tentativa de derrubar. Existe, sim, um bloqueio naval há muito tempo e um bloqueio econômico, mas que historicamente, inclusive, era derrubado por uma quantidade de países, nomeadamente também Portugal. E as pessoas vão pra Cuba de férias e, portanto, têm uma relação com Cuba muito diferente. Agora, o contexto geopolítico e o contexto de determinação por parte do presidente dos Estados Unidos mudou completamente. Segundo informações que temos, nós estamos a duas semanas do combustível terminar em Cuba, o que significa que combustível terminando em Cuba, uma vez que Cuba não é produtor de combustível, terá a dificuldade de, por exemplo, ter as centrais elétricas a funcionar, de ter combustível para tudo aquilo que é a necessidade dentro da economia da utilização de combustível. Até porque Marco Rubio tem a sua ligação familiar a Cuba, a ideia é terminar com este regime cubano, este regime comunista, e que de alguma forma permita trazer aquilo que a comunidade cubana nos Estados Unidos, nomeadamente em Miami, que é uma comunidade muito importante e muito ligada ao Partido Republicano, curiosamente, tem vindo a exigir aos Estados Unidos que tenham uma posição de força. Eu não descarto que possa haver algumas iniciativas militares em Cuba. Muito específicas e de alguma forma muito tidas dentro daquilo que poderá ser este projeto de garrote comercial também e econômico. E vemos, por exemplo, no ataque que aconteceu na Venezuela a Maduro, os únicos que foram mortos foram os militares cubanos. E, portanto, existe esta ideia de tentar mudar o regime, mas também, historicamente, nós sabemos que Cuba resistiu sempre às pressões econômicas e diplomáticas americanas, e que uma tentativa direta de mudança de regime também é difícil e poderá ser dispendiosa, porque também existe, e nós sabemos, uma capacidade militar em Cuba de resistência, por mais fraca que seja, mas toda gente se lembra do que é que aconteceu nos anos 60 com o chamado Baía dos Porcos.
Sim.
Portanto, a tentativa será sempre criar condições para que o regime caia de dentro para fora. Parece-me a mim. Agora, acho que o regime cubano tem os dias contados, parece-me a mim que tem os dias contados e que Donald Trump, nesta sua cavalgada para a paz, como ele chama, vai acabar por levar, permita-me a expressão, Maria João, vai acabar por levar tudo isto à frente. Ele quer ser conhecido como o presidente da paz e, portanto, a paz para ele não é negociada, é sim imposta.
Imposta. E já que falas em paz, terminamos com a guerra na Ucrânia. Afinal, não houve segunda roda de negociações entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, como estava previsto. Zelensky diz que o encontro vai acontecer esta quarta e quinta-feira. Não se sabe a razão do adiamento e nem Moscovo, nem Washington confirmaram estas novas datas. Miguel, o certo é que a Rússia continuou a atacar a Ucrânia ao longo de todo o processo de negociação. Conseguimos fazer um ponto de situação do que se passa no terreno e se há avanços das tropas russas que este fim de semana, por exemplo, mataram mais de uma dezena de pessoas?
Sim, existe uma coisa que efetivamente nós temos que reconhecer, que é: neste momento, as tropas russas avançam no terreno. Obviamente que o avanço não é um avanço como se poderia esperar. Ou seja, não é um avanço de quilômetros por dia, não é um avanço de conquista de território a cada mês. Não. Existe um avanço, é um avanço pequeno, muitas vezes se é meia dúzia de quilômetros por semana, mas esse avanço está a acontecer. Ou seja, não só o exército ucraniano, neste momento, tem efetivamente dificuldades de conter esse avanço, que é um avanço lento, mesmo no pico do inverno, no momento em que nós temos temperaturas a rondar os -25°, -30°. Isso acontece. E o exército ucraniano tem duas dificuldades: primeiro, neste momento tem pouco material para se defender dos ataques de drones, que neste momento tem sido a base dos ataques que a Rússia está a fazer, e depois não tem capacidade, porque nunca teve, e este é que é o grande problema, de fazer um ataque em profundidade. Ou seja, não consegue atacar a Rússia na retaguarda, não conseguindo atacar a Rússia na retaguarda, não a consegue conter.
Claro, sim.
O que nós estamos a negociar, e a própria administração ucraniana já reconheceu que o maior obstáculo é a questão territorial, é que Donald Trump Faz depender de dar as garantias de segurança na questão do Donbass. Ou seja, estas reuniões vão avançando, têm sido reuniões mais técnicas do que políticas, sempre na questão do seguinte: os Estados Unidos dão estas garantias de segurança, que a Rússia supostamente não se opõe, desde que os territórios, nomeadamente, criar um estatuto especial pro Donbass, seja reconhecido por parte da Ucrânia. E este é o nó górdio que existe nestas negociações. Andamos aqui a discutir negociações que não são negociações nem de paz, nem de cessar-fogo, Maria João. E esse é que é o ponto. Se tu te lembrares bem, quando foi a última reunião em Mar-a-Lago entre Donald Trump e Zelensky, Zelensky saiu de lá a dizer que existia já 90% das negociações entre os Estados Unidos e a Ucrânia relativamente às garantias de segurança. Estava praticamente garantidas e que depois faltava cerca de outros 90% a discutir com a Europa. A Europa não é tida nem achada. Curiosamente, foi dito por Marco Rubio e por Steve Witkoff, na semana passada, que um dos pontos a ser discutido nestas medidas de segurança era a entrada da Europa com forças militares no terreno da França e do Reino Unido. Mas fica esta questão, mesmo pra terminar, que é: em que condições é que isso vai acontecer? Sabendo nós, e Dmitrieva aí dizê-lo, de que nunca aceitaria tropas da NATO no terreno. Portanto, e mesmo pra terminar, a mim o que me parece é que neste ziguezague que Donald Trump faz a caminho da saída desta guerra, ele procura encontrar um responsável pelo seu cansaço e pela sua desistência desta guerra. A Europa, durante muito tempo, tentou que não fosse considerada a culpada pela saída de Donald Trump.
Depois foi Zelensky também, não é?
Depois foi Zelensky e a Rússia faz sempre este papel, que é quando a coisa mais ou menos aperta, Vladimir Putin deverá pegar no telefone e ligar ao Trump e dizer: "Não, eu estou disponível pra paz. Organize lá mais uma reunião que a gente vai se sentar". Mas a paz para Moscovo não é, neste momento, o grande objetivo. Parece-me a mim que a Rússia não está interessada em assinatura, nem de processo de paz, muito menos de um cessar-fogo, porque sabe que neste momento, e voltando ao princípio da tua pergunta, está a avançar no terreno, mesmo que seja de forma devagar, ligeira, mas avança. Se vê a Ucrânia, neste momento, sem dinheiro, porque os 90 mil milhões ainda não chegaram à Ucrânia, nós estamos a ver a Ucrânia sem dinheiro, com dificuldade também de se defender. E, portanto, os Estados Unidos acabam por ajudar a Rússia neste papel de negociações que não avançam e que não se chega a conclusão nenhuma, a fazer o seu papel, que é aos poucos irem conquistando o território ucraniano.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Boa semana, Miguel. Obrigada.
Igualmente. Obrigado.