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Abertura do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que fazemos um ponto de situação dos conflitos na Ucrânia e também no Médio Oriente. Eu sou Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com o politólogo e especialista em movimentos extremistas, José Filipe Pinto. Vamos começar, professor, com a situação no Médio Oriente, porque há uma informação de última hora: três rockets disparados do Líbano contra Israel. Foram emitidos vários alertas em Israel, 240 alertas no centro do país. Isto está a ser partilhado nos últimos minutos. Há um alerta em Israel por causa deste ataque do Líbano. Como é que vê esta situação? Israel novamente em alerta, à espera deste ataque a partir do Líbano.

Muito boa tarde, Miguel. Boa tarde, senhores ouvintes. Este ataque mostra aquele que é um dos três elementos que, a meu ver, temos de analisar na questão da situação no Médio Oriente. Por quê? O fato do Hezbollah ter atacado a base militar que já estava a 60 km dentro de Israel e continuar a atacar, como acabamos de noticiar, prova que, apesar das baixas humanas e das perdas materiais, que são significativas, num caso e noutro, o grupo se prepara para resistir usando as populações como escudo humano, aproveitando a questão do terreno a sul do Líbano ser muito montanhoso, e do fato de o grupo dispor de algo que não tem sido valorizado, que é poder usar a Síria como santuário. Portanto, o Hezbollah de 2006 já não é o Hezbollah atual. Significou o quê? Hoje Israel tem muito mais dificuldade em lidar com o Hezbollah, que usou o conflito na Síria como campo de treino para poder erradicar o Hezbollah. Dito de uma forma muito mais simples, não acredito que o Hezbollah, como ideia e como grupo, desapareça. A juntar a tudo isto está o fato de Netanyahu estar a aproveitar o sucesso que decorre da eliminação das chefias do Hamas e do Hezbollah para aumentar a abrangência territorial da ação na tentativa de alterar o panorama regional de acordo com os interesses de Israel, aqueles que ele mostrou na reunião da Organização das Nações Unidas. Só que essa não é uma tarefa fácil, Miguel. E não é uma tarefa fácil precisamente por aquilo que eu disse, porque afinal de contas, para além de ser proxies do Irão, o Hezbollah tem a sua agenda própria e nós percebemos que uma ideia não morre e por isso está muito difícil para Israel impor a sua vontade.

Vamos, claro, tentar também perceber o que acontece com esta situação de ataque a Israel, sirenes em Tel Aviv e em muitas outras cidades, 240 alertas em Israel por causa de um ataque lançado a partir do Líbano.

Miguel.

Sim.

Este ataque tem a ver com uma coisa, repare: Joe Biden, o presidente norte-americano, acabou de enviar para Israel um sistema antimíssil, o THAAD, e enviou também 100 militares ou mais norte-americanos preparados para operacionalizarem o sistema. Isso prova-nos o quê? Que o Iron Dome, os Fundos de David, o sistema Arrow, não são suficientes para a intercepção dos drones e dos mísseis que o Irão continua a fornecer aos seus proxies. E é por isso que o Hezbollah já se reconhece a capacidade para poder atacar, inclusive uma base militar.

E, portanto, daí também as preocupações por parte de Israel. Sendo que há também ataques, continuam a ser relatados ataques de Israel a missões de paz da ONU. Já hoje, o ministro dos Açores Estrangeiros português, Paulo Rangel, condenou esses ataques. Josep Borrell tinha feito o mesmo e até disse que Israel deveria deixar de culpar Guterres para justificar a invasão do Líbano. Como é que vê este posicionamento europeu perante o que aconteceu, esses ataques israelitas a missões de paz da ONU?

Decorre da normalidade. Aliás, já 40 dos 50 países que pertencem à UNIFIL ou que têm forças na UNIFIL manifestaram o apoio ao secretário-geral das Nações Unidas e simultaneamente condenaram a agressão por parte de Israel. Israel, a verdade é que fez da ONU e sobretudo do seu secretário-geral, o português António Guterres, um inimigo. E depois de ter denunciado primeiro a infiltração do Hamas na Organização de Apoio aos Refugiados Palestinianos, dos palestinianos em Gaza, diga-se com alguma verdade, agora ousou atacar as instalações da UNIFIL no Líbano. Senão nós temos de perceber, quando Netanyahu disse a António Guterres para, e eu digo "disse" e não digo "ordenou", mas a palavra é mais ordenou do que disse, para retirar as tropas da UNIFIL para lugar seguro, isso mostra que Netanyahu desconhece que esta função não está cometida ao secretário-geral da ONU. A resolução para a presença destas forças no terreno decorre de uma resolução do Conselho de Segurança.

Precisamente, Borrell disse precisamente isso esta manhã.

Sim, o Conselho de Segurança é que pode decidir retirar as tropas do terreno. E repare, elas estão lá ao abrigo do artigo sexto do Conselho de Segurança das Nações Unidas. E o que acontece é que é para manter a paz. Dizer que estas forças da UNIFIL fracassaram em parte corresponde à verdade. E por quê? Porque não conseguiram impedir que o Hezbollah se tivesse entrincheirado no Líbano, servindo-se das populações como escudos humanos e simultaneamente cavando túneis onde se guarda parte do seu armamento. Isso é um facto Mas também temos de perceber aquela que é a precariedade do exército do Líbano. Estas forças eram para fazer uma vigilância em conjunto com o exército libanês. E o que acontece é que a grande maioria das operações decorrem por iniciativa apenas da UNIFIL, porque o exército libanês verdadeiramente não consegue, de maneira nenhuma, articular-se com esta força e não tem autoridade na região. Eu costumo dizer que o poder impõe-se, a autoridade é reconhecida. E o que acontece é que o exército libanês não tem o reconhecimento de uma autoridade por parte da população. Numa situação destas, Miguel, o que é que acontece? As Nações Unidas estão num fogo cruzado, porque tem Israel que passa o tempo, e essa é que é a grande verdade, a desvalorizar a ação das Nações Unidas, a considerar que as Nações Unidas acabam por ser não parte da solução, mas do problema. E esta é uma leitura também muito unilateral da situação. Dito de uma forma mais simples, aquela que devia ser a casa da humanidade, no sentido de Israel, está completamente a ser desvalorizada.

Sendo que há hoje também uma notícia que aponta para as fragilidades de segurança de Israel. Uma situação já resolvida, sim, mas que mostra esse crescimento por parte da influência do Irão. Dois israelitas foram detidos por levarem a cabo atos de sabotagem encomendados pelo Irão. Foram detidos em Israel, estavam a preparar atos de sabotagem encomendados pelo Irão, por conspirarem também para matar uma alta figura de Israel. Isto foi anunciado pela polícia israelita e pelos serviços secretos internos. Como é que vê esta situação? O Irão, de facto, ter influência dentro do território israelita, com espionagem a avançar também neste conflito.

O Irão tende a completar o seu processo nuclear para ter aquilo a que se chama a bomba atómica e simultaneamente tende a liderar a ordem islâmica ou muçulmana. E a grande verdade é que ele pretende aniquilar todos aqueles que se possam opor a essa pretensão. E por isso mesmo, o que acontece é que os serviços secretos, desde antes do início do conflito, e volto a repetir, antes do início do conflito, que estavam no terreno. Por isso mesmo nós percebemos que alguns ataques são mesmo cirúrgicos. Uma questão que se coloca é como é que verdadeiramente Israel não se apercebeu do ataque de 7 de outubro, porque o resto é tudo fácil de explicar. E por quê? São os serviços de informações que obtêm precisamente essas informações. Portanto, os ataques podem ser cirúrgicos. O que não é normal é que os serviços secretos de Israel, que são considerados os mais perfeitos do mundo, não tenham conseguido interceptar, evitar o 7 de outubro. Mas eu penso que isso é possível porque estavam demasiado concentrados no Hezbollah, que de facto é uma força muito superior ao Hamas. Agora, a espionagem vai continuar, os agentes infiltrados vão continuar. Aquela que foi, por exemplo, a morte de Nasrallah, mas também aquela que foi a morte do líder do Hamas, mostram o quê? Que verdadeiramente estes serviços trabalham a médio prazo. Significa que uma bomba pode ser detonada vários meses depois de ser colocada. E isto implica, portanto, um grande grupo de infiltrados. Repare, nós ainda hoje nos perguntamos como é que Saddam Hussein desapareceu. Desapareceu precisamente por causa destes serviços secretos que estavam no terreno. Evidentemente, há uma corrupção, há sempre um tráfico de influências e evidentemente acaba por haver denúncias. E repare, quando os Estados Unidos oferecem 5 milhões de euros por um dos líderes, não é por um dos líderes, é por informações para poderem capturar um dos líderes. Quando oferecem 7 milhões de euros por outro líder do movimento terrorista, é porque são considerados inimigos dos Estados Unidos. E o que acontece é que num mundo de múltiplas ordens, Miguel, o que acontece é que nós falamos do Hamas, do Hezbollah, mas verdadeiramente devíamos estar a falar do Irão. E falamos, por exemplo, de Israel, mas devíamos estar a falar dos Estados Unidos, porque quem lidera as ordens é que efetivamente dispõe de uma enorme capacidade de operacionalizar no terreno, não à luz dos holofotes, mas naquilo a que eu chamo a escuridão. E não é por acaso que os túneis servem de refúgio aos grupos terroristas.

E entretanto, também uma atualização, a embaixada dos Estados Unidos da América no Líbano diz aos cidadãos norte-americanos para abandonarem o país, aviso feito esta tarde por causa de estarem a ser intensificados os ataques israelitas no país, neste caso no Líbano.

Consequência lógica tudo o que dissemos, Miguel. Consequência lógica e, mais do que isso, lógica e esperada. O que pode demorar é a portardia, o que significa que os Estados Unidos, precisamente por estarem envolvidos numa campanha eleitoral, estão a dar menos atenção a esta zona. E esta zona é focal para os Estados Unidos. Neste momento, Netanyahu transformou-se num pesadelo para os Estados Unidos, mas por outro lado, o Irão nunca deixou de ser esse mesmo pesadelo.

José Filipe Pinto, falemos um pouco da situação na Ucrânia, até porque o dia de hoje fica marcado com várias ameaças a edifícios governamentais na Ucrânia, escolas, tribunais, edifícios do governo. O mesmo aconteceu com embaixadas pela Europa, caso na Áustria e caso em Portugal, em Lisboa, uma ameaça de bomba feita por e-mail à embaixada da Ucrânia em Lisboa. Situação já resolvida, a PSP esteve no local, não encontrou explosivos, tudo voltou à normalidade, mas que leitura podemos fazer desta situação e desta sequência de ameaças?

Está complicada a situação, por quê? Zelensky está a ver esmoronar-se aquela que era a sua narrativa, que diga-se, era uma falácia de que a Ucrânia estava a lutar pela defesa da democracia contra uma ditadura. Nesta falácia só há um elemento verdadeiro: a Rússia, de facto, é uma ditadura. E aquilo que se chama o plano Vitória está a levantar os naturais anticorpos E por isso mesmo, quando Zelenskyy fala no plano Vitória, é uma tentativa apenas de reforçar a moral das suas tropas e da população ucraniana. Mas, de facto, a Rússia tem uma enorme máquina de sharp power. Essa máquina de sharp power, que muitos confundem com uma máquina de desinformação. A desinformação é apenas um dos elementos do sharp power. Essa máquina de sharp power é evidente que está activa e com o aproximar das eleições norte-americanas e simultaneamente com a indecisão que está a grassar no Ocidente sobre o apoio à Ucrânia, é evidente que esta máquina de sharp power tende a estar cada vez mais activa. Mas Miguel, neste mundo de múltiplas ordens, há dois factos que conviria chamar à colação, porque a meu ver têm muito a ver com a questão ucraniana. Por um lado, o primeiro prende-se com a vontade de Pequim anexar Taiwan. Parecem coisas desligadas, mas não são, porque o ministro da Defesa russo está em Pequim. Na sequência, dos exercícios conjuntos que estão a ser feitos no noroeste do Pacífico. Há dois anos que aqui na Rádio Observador eu defendi que a invasão da Rússia da Ucrânia iria servir como tudo ensaio para a anexação chinesa de Taiwan. Não é por acaso que Pequim afirma que a independência de Taiwan é incompatível com o quê, Miguel? Com a paz. E este mundo de múltiplas ordens está a ditar a sua lei, como se dizia em Roma, "vae victis", ou seja, ai dos vencidos. O segundo caso tem a ver com a reunião que houve na sexta-feira passada do grupo Med9, no Chipre. Os países mediterrânicos da União Europeia reuniram-se no Chipre. E por que é que têm a ver? Porque temos de perceber, Miguel, que o Chipre, que é um membro da União Europeia desde 2004, tem mais de um terço do território ocupado pela Turquia. A situação na Ucrânia não vai passar por algo muito diferente. Por quê? Porque Zelenskyy fala na integridade territorial de que a Ucrânia precisa e que decorre do direito internacional. E este direito internacional, de facto, reconhece o direito à integridade territorial. Só que isso acaba por conviver com situações que a contradizem e são os factos a desautorizar os normativos. O que quer dizer que há mais mundo para além da lei, por muito que isso nos preocupe a nós ocidentais, porque fomos nós que fomos os grandes executores, executores não, os grandes elaboradores da lei.

Um minuto ainda para falarmos de tudo o que se liga. Joe Biden diz que os Estados Unidos da América estão prontos para negociar com a Rússia, com a China e Coreia do Norte, com o objetivo de reduzir a ameaça nuclear. É mais uma reunião ou mais uma intenção em cima do período eleitoral norte-americano?

Claro, porque Joe Biden mostrou a disponibilidade norte-americana para conversar e repare com quem: com a Rússia, com a China e com a Coreia do Norte, para reduzir a ameaça nuclear, como disse e muito bem. Mas no mesmo dia, que é precisamente hoje, a NATO iniciou o seu exercício nuclear anual envolvendo 60 aviões e 2000 soldados, mas sem recurso a armamento real. Eu acho que não se trata de uma exibição da força aliada. É um exercício que deve ser visto à luz da estratégia de dissuasão, ou seja, o equilíbrio do terror não pode ser quebrado, mas a redução dos arsenais nucleares é mais um wishful thinking de Biden, que está a terminar o seu legado, do que uma realidade a curto prazo. Repare, qual foi a reação, Miguel, de Moscovo? Moscovo recusou liminarmente estabelecer quaisquer conversas sobre o assunto. E por quê? Porque o argumento russo vai no sentido de que as potências nucleares ocidentais estão direta ou indiretamente envolvidas no conflito da Rússia contra a Ucrânia e do lado da Ucrânia. Esta é a habitual estratégia de Putin de se vitimizar e colocar sempre o ônus da responsabilidade nos Estados Unidos e no Ocidente. Afinal de contas, Miguel, o eixo do mal depende de quem o identifica. E é evidente que nós, para a Rússia, somos o eixo do mal. Para nós ocidentais, para a ordem liberal, é precisamente a China, a Rússia, a Coreia do Norte e o Irão que representam esse mesmo eixo do mal.

Duas ideias distintas de ordem mundial em conflito, não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Ponto de situação feito aqui no Gabinete de Guerra com José Filipe Pinto, politólogo e especialista em movimentos extremistas. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.