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Abrimos agora o gabinete de guerra, como sempre nesta hora da tarde, em direto com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. E Vanessa, vamos em direto até Kiev, a capital ucraniana.

Porque é lá que está Pavel, um ucraniano nascido em Kiev e que por lá continua. Prefere não dizer o apelido por questões de segurança. Obrigada por estar com a Rádio Observador. Pavel, o Ministério da Defesa russo avisou esta tarde que ia bombardear alvos específicos em Kiev e, entretanto, a torre de uma televisão ucraniana foi atingida. Conseguiu ouvir esta explosão?

Não. Mas preciso dizer que cada noite temos ataques do exército russo. Tem muitas crianças mortas, tem muita gente idosa morta, mulheres grávidas mortas. Nas televisões russas, cada dia é mostrado que ucranianos estão felizes que russos tenham chegado para liberar a Ucrânia. Isso é besteira. Eles matam crianças, eles matam pessoas idosas deliberadamente. Eles querem fazer a maior brutalidade para que a gente pare a resistência, mas nós os odiamos.

Tem percebido que há explosões em zonas residenciais? Há zonas residenciais que são atacadas?

A partir de cada noite.

O Pavel tem se abrigado nessas alturas?

Não entendi.

Se o Pavel tem fugido para abrigos nessas alturas em que as sirenes tocam.

Eu fico no apartamento meu, mas tem pessoas que precisam se esconder ali. Mas a maioria das pessoas, especialmente pessoas idosas que têm problemas com saúde, não podem escapar. Eles ficam nas casas e russos matam a gente deliberadamente.

Pavel, depois desta explosão que aconteceu há pouco, este alvo da televisão ucraniana que foi atingida, consegue descrever-nos como é que a cidade está neste momento?

Eu?

Sim, consegue descrever-nos-

Na capital, Kiev.

Sim, na capital. Como é que a cidade está neste momento?

Pode repetir?

Estava a perguntar se consegue explicar-nos, não sei se tem uma janela, se consegue olhar lá para fora, para ver se há pessoas na rua, como é que está a cidade neste momento.

Um momento.

Pavel, perguntava-

Quase não tem gente e é proibido para nós sair de casa depois de 20h. E a maioria das pessoas estão escondidas nas casas durante o dia e à tarde. Agora não tem quase ninguém, não vejo ninguém.

E não ouviu mais explosões, entretanto?

Eu ouço explosões cada dia, durante o dia e noite, várias vezes. Eu ouço isso a cada hora.

Mas as explosões têm acontecido mais durante a noite?

Sim, eles fazem isso deliberadamente quando pessoas dormem, para matar a maior quantidade de pessoas possível, civis. Eles deliberadamente matam atacando residências, áreas residenciais.

E tem sido possível assistir medicamente estas pessoas?

Sim.

E já agora, Pavel, os supermercados, os transportes, enfim, continuam a funcionar minimamente ou neste momento há mesmo um estado de sítio?

Pode repetir, por favor?

Estava a perguntar-lhe se os transportes estão a funcionar, se pode ir às compras, se pode ir ao supermercado.

Não, a maioria de lojas estão fechadas, supermercados, a maioria estão fechadas. Até lugares onde dá para comprar medicina, estão em sua maioria fechadas.

Então nos últimos dois dias ou de ontem para hoje, mudou muito o panorama em Kiev com estes ataques?

A gente está assustada e a vida fica mais e mais difícil, isso que eu posso dizer.

Pavel nunca ponderou, nunca pensou sair da cidade?

Agora é impossível, porque moro do lado esquerdo do rio e a estação de onde os trens podem funcionar é lado direito do rio, mas agora vou ficar aqui.

E como é que tem feito para obter alimentos, para obter os bens essenciais?

Eu tenho um pouco de comida para três ou quatro dias e um pouco de medicina. Eu tenho hipertensão, por isso preciso de medicinas e tem pessoas que sofrem mais e não sei o que vai acontecer. Os russos fazem tudo para matar a gente.

Pavel, o seu testemunho é importante para nós. Tendo em conta tudo aquilo que está a dizer, acredita nas negociações para um cessar-fogo? Devem ser retomadas amanhã essas negociações.

Pode repetir?

Estava a perguntar-lhe se acredita que a Rússia e a Ucrânia podem chegar a um acordo para parar esta guerra. Amanhã deve haver um novo encontro.

Eu posso dizer o seguinte, que o nosso presidente faz tudo para nos proteger. Ele fica em Kiev, ele é líder verdadeiro, e o Putin vai jogar os jogos sozinho Não acho que eles queiram parar essa loucura, esse horror. O nosso presidente quer, mas não acho que os russos vão fazer isso. Eles não querem acordo, eles querem ocupar o nosso país.

E o Pavel acredita que é possível à Ucrânia resistir ao ataque russo?

Resistimos, mas precisamos da ajuda da Europa, porque nós lutamos, mas a guerra é muito dura. Precisamos de ajuda da Europa.

Por quanto mais tempo acha que vão ter a capacidade para resistir, Pavel?

Não tenho ideia nenhuma, sinceramente.

E agora vai continuar em casa.

Sim. A gente precisa ficar em casa desde 22h até 7h.

Mas se pudesse, gostava de poder sair. Disse-nos há pouco aqui que-

Posso sair, mas é perigoso, porque agora você entende o que acontece nas ruas e não sei o que acontece lá fora, porque tem muitas pessoas que estão tratando de atacar lojas. Por isso as pessoas têm medo de bandidos nas ruas, você entende o que acontece.

Tem havido pilhagens das lojas por parte de cidadãos ucranianos?

Acontece às vezes, sim.

Como o Pavel tem tido acesso à informação? Continua a ter internet com facilidade?

Temos internet agora.

Mas tem havido falhas ou falhas de energia.

Preciso dizer que há dois dias os russos tentaram de tudo para eliminar as comunicações eléctricas num dos bairros da cidade. Agora funciona, mas eles tentaram muito para eliminar esse lugar. Mas graças a Deus, agora ainda temos eletricidade e calor nos apartamentos.

Pavel, há mais gente no seu prédio, onde mora?

Não entendi.

Se há mais gente morando no seu prédio. Há outras casas ocupadas.

Muita gente escapou. Agora tem mais pessoas aqui, mas muita gente escapou.

Pavel, começamos esta conversa com esse ataque a uma torre de uma televisão aí na Ucrânia, em Kiev. Consegue ver televisão neste momento, está a funcionar?

Não entendi.

Não sei se tem televisão em casa.

Minha o quê?

Tem televisão em casa para ver as notícias?

Se eu vejo notícias? Não entendi.

Sim, se vê as notícias através da televisão.

Minha visão sobre o que acontece e o que vai acontecer para mim?

Se tem TV.

Sim.

Tem TV. E está funcionando mesmo depois deste ataque.

É a internet, sim.

Sim, tem comunicações no fundo. Pavel, agradeço o seu testemunho. É um ucraniano que vive em Kiev. Por lá continua e tem mantimentos para os próximos três, quatro dias. O Pavel está bastante pessimista quanto ao desfecho deste conflito e também quanto às negociações para um eventual cessar-fogo. Rádio Observador