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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do major-general João Vieira Borges. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Major-general João Vieira Borges, vamos começar com a crise política em Inglaterra. Keir Starmer apresentou a demissão. Há já pedidos de eleições no horizonte. O que é que podemos esperar nos próximos tempos na esfera política britânica, major-general?

Muito boa tarde. Muito obrigado pelo convite. O que podemos esperar é a continuidade de um processo que já vem de vários anos. Infelizmente, o Reino Unido tem tido sucessivos primeiros-ministros. Este trabalhista que venceu umas eleições com uma maioria confortável indiciava alguma estabilidade no Reino Unido. Infelizmente, para o Reino Unido, certamente, e para a Europa em geral, não fazendo parte da União Europeia, obviamente que está uma ligação privilegiada e sendo um país importantíssimo no âmbito da NATO, obviamente que a estabilidade política numa situação de guerra com a Ucrânia e também numa situação complicada ainda no Irão, obviamente que é uma situação muito delicada, mas os problemas internos e a democracia são mais importantes. A democracia é isto. As sociedades europeias convivem com isto muito bem e certamente que o caminho será um caminho escolhido ou em linha com as escolhas do povo britânico. O que não acontece noutros países, como sabemos, o caso da Rússia, o caso da China, o caso do Irão. Temos que conviver com estas alternâncias políticas, até dentro dos próprios partidos, não é a primeira vez que isso acontece. Em termos de política externa, e penso que isso é que é importante para responder à sua questão, não haverá alterações. Haverá em termos de liderança, e eu penso que os conflitos que já tinha Starmer com Trump também contribuíram para esta situação, não só a questão do embaixador nos Estados Unidos, mas também outras questões de política interna e até as questões de relacionamento, que para Trump são sempre importantíssimas. Porventura, a situação será até mais benéfica. Em termos de política externa, a linha é a mesma. Já vimos, independentemente dos partidos, independentemente dos líderes de cada partido, a posição nos últimos quatro anos e meio da parte do Reino Unido é a mesma, de apoio claro à Ucrânia, de constituir o estandarte do lado da oposição à Rússia. Isso mantém-se. Eu não vejo grandes alterações em termos de política externa, vejo mais questões de política interna, questões econômicas, de alguma fragilidade pelo fato do Brexit estar-se a sentir, sobretudo na conjuntura atual.

Major-general, vamos avançar, deixar para trás a questão no Reino Unido e falar sobre a situação no Médio Oriente, até porque o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, anunciou que foram feitos progressos significativos nas negociações de paz com o Irão. J.D. Vance falou esta manhã com os jornalistas, diz que o Irão concordou em deixar entrar no país a Agência Internacional de Energia Atômica, mas admite que ainda há muito por fazer. O que é que há, no seu entender, ainda por fazer e quais é que são os maiores desafios?

O maior desafio neste momento, e que já percebemos que é claramente um desafio com responsabilidade, quer dos Estados Unidos, quer também do Irão, tem a ver exatamente com a questão do Líbano. Esse é o maior desafio. Neste momento, a estabilidade na região, o cessar-fogo, não só com o Estado do Líbano, mas sobretudo a relação com o Hezbollah, de responsabilidade do Irão, e a relação com Israel, por responsabilidade dos Estados Unidos, não é fácil de gerir. Não foi, não tem sido e certamente não será, em função da situação interna em que está envolvido Netanyahu. Mas também numa postura de afastamento da parte dos Estados Unidos de Israel, o que faz com que, de vez em quando, como hoje, mais uma vez, Netanyahu diga que tem toda a independência para responder aos ataques do Hezbollah e para colocar em causa o memorando de entendimento ou o memorando dos entendimentos. Essa é a grande questão neste momento em que estamos a trabalhar as questões técnicas. Ao fim de 18 horas das tais reuniões, passou-se às negociações técnicas, saíram os líderes, que foram importantíssimos este domingo, porque a situação estava muito complicada em função da situação do Líbano e depois também de declarações de Trump e da ala mais extremista da parte do Irão, designadamente a Guarda Revolucionária Islâmica. E foi importantíssimo a reunião que teve lugar, e Vance aí ganhou pontos, também certamente para política interna, não só política externa. A sua postura de defesa da paz desde o primeiro dia, de alguma oposição aos ataques, fez com que ele seja aceito pela outra parte com mais confiança do que Trump, e também a nível interno com ganhos, certamente. Agora a questão é a resposta à pergunta para além da questão do Líbano, que no fundo é a chave da guerra, em qualquer momento pode parar todas as negociações. Em termos técnicos, como disse, Vance vem bem, a grande questão é a questão nuclear A questão nuclear, mas também associada, porque tudo uma questão de negociação, tem a ver com o alívio das sanções. E nós já vimos hoje que a questão das sanções foi debatida até nesta reunião, e Vance quis marcar na sua intervenção que o alívio é para depois adquirir produtos norte-americanos. É algo de novo, nós não tínhamos isso em termos de informação. Não sei se é pra pressionar o próprio Irã, mas percebemos perfeitamente pelas declarações do presidente do Parlamento que a questão econômica relacionada com as sanções era importantíssima. Tudo, no fundo, também está ligado à questão do Estreito de Ormuz, que vai estar aberto, já começaram os navios, mas é uma arma, é uma carta, como diz Trump, que em qualquer momento é jogada pelo Irã. Os 60 dias de passagem aberta ou semiaberta, vamos ver, porque há um organismo criado pelo Irã que, pelos vistos, vai controlando a passagem dos navios. Depois, se haverá taxas ou outro nome que lhe deem, também vai ser uma questão certamente em debate. Questão nuclear, questão das sanções, questão do estreito, são aquelas mais visíveis. Há outras questões que certamente vão ser debatidas, já percebemos, mas são aquelas que eu julgo que são as mais críticas para serem trabalhadas, como já estão pelos grupos técnicos ou grupos de especialistas. O que eu vi é também uma questão muito importante, se me permite, a questão dos grupos de acompanhamento. Há um esforço muito grande, quer da parte paquistanesa, quer da parte do Qatar, de fazer o acompanhamento, ou seja, a supervisão da implementação do memorando. Estão a monitorizar o progresso.

E agora também da Suíça, ou não?

Exatamente, já percebemos que também. E é importante, se houver mais um ou outro país que não esteja diretamente empenhado, e a Suíça nesse aspecto já deu esses contributos, e sendo reconhecido pelos outros pares de acompanhamento. Acho que é muito importante. E também é importante, independentemente das especificidades geopolíticas da Suíça, para a própria Europa ter um papel também neste processo.

Major-general, já abordou várias questões relacionadas com o estreito de Ormuz. Há uma que ganha hoje preponderância, que é a questão das minas junto ao estreito de Ormuz. Há uma exigência por parte dos Estados Unidos para que sejam retiradas. Contudo, retirar minas não é propriamente um processo simples. Este vai ser um problema de anos no estreito de Ormuz?

Julgo que não. Isto é uma opinião meramente pessoal. As minas foram colocadas pelo Irã como proteção para qualquer invasão dos seus portos da parte dos Estados Unidos. Nunca as minas condicionavam aquilo que é fundamental, aquilo que é o coração da economia iraniana, que seria a exportação e a importação. Julgo que, e como já vimos também no terreno, se olharmos para os mapas da passagem dos navios, dá pra perceber que há canais que podem levar aos 125, 150 navios diários, que era mais ou menos a média do que nós tínhamos antes da guerra. Ou seja, menos próximo da fronteira com o Irã, mais de Oman. Há ali outros canais que certamente não vão condicionar e, portanto, a desminagem é um processo que demora sempre algum tempo, mas que não vai condicionar este processo de normalização da passagem do estreito de Ormuz. Poderá demorar mais que os 60 dias, isso pode vir a acontecer. Aliás, também não acredito que os 60 dias sejam suficientes para todo este processo, designadamente as questões nucleares, que como sabemos, no caso do Obama, aquela negociação das 159 páginas levou 597 dias, se não me engano, pra resolver. Eu não acredito que em 60 dias haja um acordo que vá às Nações Unidas, muito menos também acredito que haja uma desminagem somente nestes 60 dias. Mas não é isso que é impeditivo. Pode é ser uma valorização do papel dos países europeus, e será certamente, designadamente através do Reino Unido e da França, eventualmente outros países que irão desempenhar um papel importante também ali na região, na desminagem.

Major General, vamos continuar a abordar a questão no Médio Oriente, até porque ainda hoje também recebemos a notícia de que Marco Rubio vai regressar ao Médio Oriente, uma situação que não acontece desde a assinatura do memorando com Teerão. O que é que nos diz esta viagem por parte do secretário de Estado norte-americano? Há aqui uma prioridade maior dada por Donald Trump a este caso?

Sim, é interessante a sua questão, se me permite, porque grande parte das pessoas se interrogava por que J.D. Vance deveria ter sido o secretário de Estado, em parceria com aquilo que foi a delegação iraniana. Era um risco muito grande o vice-presidente dos Estados Unidos avançar para o processo negocial na Suíça, e toda gente perguntava por que o secretário de Estado não estava presente. Ou seja, subiu o nível os Estados Unidos, foi um risco grande, as coisas resultaram positivamente para J.D. Vance, mas podiam ser muito nocivas para os Estados Unidos e, sobretudo, para o J.D. Vance na sua campanha prevista para substituição de Trump. Veremos. Mas o voltar é dar, como disse e bem, é dar o devido peso Mas não só o devido peso mais adequado, mas é também para reforçar certamente ligações, nós vamos ver, mas eu admito, para a questão da arquitetura geopolítica na região. A região, neste momento, está o caos em termos daquilo que é o relacionamento entre os países do Golfo e o Irão e entre os próprios países do Golfo. A imagem não passa para o exterior, mas é muito complexa depois destes ataques do Irão, a todos eles. A relação deles com os Estados Unidos é uma relação que tem que ser agora trabalhada. A par do memorando, certamente que tem que haver um esforço muito grande do secretário de Estado e, no fundo, desta administração norte-americana com estes países. E certamente que não é através de Trump, que não tem credibilidade em termos de linguajar, em termos de narrativa. É bom que avance o secretário de Estado, Mark Rubio, que tem uma linguagem e que tem um prestígio maior do que o próprio Trump na região. Portanto, eu julgo que será esse trabalho importante, não tanto relacionado com o memorando, mas também de estabilização geopolítica a favor dos Estados Unidos, porque têm que dar garantias de segurança àqueles países, porque têm que dar garantias econômicas e financeiras àqueles países e porque têm que cobrir um vazio que será sempre ocupado. Não há vazios de poder na região. A China está atenta. Nós vemos que a China, ao contrário de outras regiões, designadamente ao contrário do que se passou com a Ucrânia, todas as semanas emite comunicados, como emitiu hoje novamente, em prol da paz na região, em prol do apoio ao Irão neste processo, em prol do aviso aos Estados Unidos. Portanto, é bom que não haja vazios de poder, porque eles são sempre ocupados, e neste caso, pela China, que era algo que veio na National Security Strategy dos Estados Unidos, que era quarta prioridade, mas se a região fosse ameaçada por interesses da China, naturalmente que os Estados Unidos iriam intervir. Não foi só por essa razão, mas foi também por essa razão.

Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra de hoje, com a análise do major-general João Vieira Borges, a quem agradeço de novo ter aceitado este nosso convite. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã e fica, como sempre, disponível em podcast.