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Está reunido o gabinete de guerra da tarde em direto com o Bruno Cardoso Reis. Ele que vai aqui com a ajuda da Judite França e também da Vanessa Cruz, olhar para esta ida do presidente da Ucrânia a Bruxelas e também para uma eventual ameaça a pairar sobre Portugal.
E já vamos a essa viagem de Zelensky. Mas Bruno, deixa-me começar por esta alegada ameaça. Um propagandista do Kremlin sugeriu na televisão estatal russa que quer libertar Lisboa. Isto deve preocupar-nos. Sabe-se que há um sonho antigo de Putin de ligar Lisboa a Vladivostok, mas de novo esta ameaça agora?
Sim, eu acho que não é para levar muito a sério. Eu vi o vídeo, portanto, pelo que eu percebo é até uma outra propagandista, não menos famosa, esta Margarita Simonyan, que sugere Lisboa, mas no fundo eles estão num diálogo a três. Há alguém que fala de ameaças aos países da NATO junto à fronteira da Ucrânia, à Polónia, e portanto este Solovyov diz: "Mas por que parar aí nas fronteiras da Ucrânia?" Depois falam: "Bem, se calhar vamos recuperar a vila que este propagandista de Putin tem na Itália", que é uma coisa também interessante, que é estes propagandistas passam o tempo a atacar o Ocidente, a falar da terrível decadência do Ocidente, dos pecados do Ocidente. Este Solovyov é dos tais que falam do satanismo no Ocidente e tudo isso, mas depois, aparentemente, quando se trata de comprar propriedades de luxo, não sei porquê, mas preferem, em vez da Crimeia ou algo assim, preferem ir para o Lago Como ou para outros sítios agradáveis nos países da Europa Ocidental. E depois é nesse contexto que então se fala em Lisboa. E por que Lisboa, perguntam. E ele diz: "Ah, é porque Lisboa, dizem os portugueses, de Lisboa vê-se, quando o tempo está bom, vê-se a estátua da Liberdade". Eu, francamente, não conhecia esse dizer, esse dito português. Isso mostra bem o nível de credibilidade deste tipo de declarações deste propagandista. Eu percebo que as pessoas achem que vale a pena colocar a questão, mas, por exemplo, ele ameaçou há uns meses a Noruega, ameaçou Londres com armas nucleares. Os noruegueses ainda agora anunciaram que vão dar mais de mil milhões de euros por ano à Ucrânia nos próximos cinco anos e é um país que tem quase 200 km de fronteira direta com a Rússia. Portanto, claramente eles não deram muito crédito a essas ameaças. Acho que isto é sobretudo propaganda para efeitos internos. Agora, não deixa de ser realmente algo grotesco que no principal canal da televisão russa, pessoas que são condecoradas pelo presidente russo, quer esta Margarita Simonyan, quer este senhor Solovyov, de facto tenham este tipo de discurso e avancem com este tipo de ameaças, mas acho que não é para levar muito a sério. São realmente narrativas para consumo interno, ou pelo menos vamos esperar que seja assim. Se não for, realmente é muito grave, mas a Rússia, apesar de tudo, está bastante ocupada com uma guerra que não está a correr exatamente de acordo com o plano na Ucrânia. Portanto, não me parece que faça nenhum sentido, a não ser que os líderes russos tivessem perdido completamente a cabeça e procurassem deliberadamente um confronto com o conjunto da NATO. E obviamente, antes de chegarem a Lisboa, teriam de enfrentar muitos aliados da NATO.
Eu imaginei que este dito até tivesse alguma coisa a ver com a viagem do cunhado da Rússia a Lisboa. Fazia mais sentido, não é? De Vladivostok a Lisboa, mas enfim. Deve ser outra coisa qualquer.
É essa expressão que tem a ver com esta ideia da Europa unida, de Vladivostok a Lisboa. É uma expressão que o próprio De Gaulle também utilizou, que depois, de facto, em vários momentos, quer a União Soviética, quer a Rússia pós-soviética utilizaram, no fundo para tentar passar esta ideia que o que era importante era acabar com as barreiras, mas também nesta ideia de que o que era importante era acabar com a NATO. Qual é que é o grande problema? É quando se tem este tipo de discurso, de um nível de agressividade, de ameaça completamente grotesco, quando se ameaça bombardear com armas nucleares as capitais europeias, disso em dia não. Porque os países europeus estão a ajudar um país que a Rússia decidiu invadir a defender-se. De facto, é evidente que o que se está a fazer é dar mais importância, dar mais valor à garantia de segurança que a NATO representa. A grande razão pela qual a NATO se continuou a alargar, pela qual países como a Polónia tanto insistiram aos países bálticos em fazer parte da NATO, pela qual a Ucrânia continuou, apesar do enorme risco que isso representava de guerra com a Rússia a procurar ser membro da NATO, é precisamente porque tem um enorme receio do passado e do presente, da agressividade imperialista da parte da Rússia.
Ora, depois da cimeira em Kiev, Bruno, Zelensky vai então agora, ele próprio, a Bruxelas esta semana, já na quinta-feira. A ideia é participar ou vai participar no Conselho Europeu extraordinário. Já não chega de simbolismo, isto é um pouco mais do que isso?
É importante neste sentido, que de facto seria a única viagem presidencial de Zelensky desde o início da guerra, com exceção da primeira viagem, que foi aos Estados Unidos, que foi à capital americana. Obviamente, os Estados Unidos são o principal apoiante, sobretudo em termos militares. A Europa é o principal apoiante, sobretudo em termos económicos e financeiros, e também logo a seguir aos Estados Unidos em termos militares. E portanto, seria uma forma de algum reconhecimento. E de facto, desde essa altura, desde a ida a Washington, que no fundo a União Europeia ou o Conselho Europeu fez um convite aberto para Zelensky vir quando entendesse. Ele próprio deu a entender que há aqui sempre questões de segurança e imagino também de gestão da própria guerra. Esta não é uma altura realmente propriamente de pausa nas hostilidades e, portanto, isso pode condicionar as coisas, mas teria aqui esse valor simbólico de ser uma demonstração também de agradecimento De Zelensky, a par dos Estados Unidos à Europa, pelo apoio indispensável que a Europa tem dado à resistência ucraniana.
Bruno, só mais um ponto aqui na nossa ordem de trabalhos de hoje, olhar para a Polónia, que está a pressionar os aliados para oficializar uma decisão sobre o envio de caças para a Ucrânia, isto na Conferência de Munique. A Alemanha já disse que isso é ir longe demais. Esta pressão pode ou não resultar?
A Conferência de Munique, onde eu já tive a oportunidade de estar, é de facto um sítio muito interessante. Estão os principais líderes ocidentais, estão muitos dos principais responsáveis na área da segurança, da defesa, dos serviços de informações dos países ocidentais e países parceiros, aliados. O próprio Zelensky esteve lá há um ano, portanto, pouco antes do início da invasão e, a par da conferência pública e das declarações públicas, aliás, o próprio Putin também aproveitou em 2007 para fazer uma declaração de hostilidade ao Ocidente nessa conferência, que foi um marco importante na viragem da política externa russa. Mas há muitos encontros, de facto discretos, bilaterais, como está basicamente toda a gente lá, é possível fazer muitas negociações informais, sem precisar de haver uma grande cimeira muito pública com declarações. Portanto, imagino que seja um tema que seja discutido. Não sei se o calendário é muito realista, porque realmente há uma resistência que tem a ver com o custo, tem a ver com a quantidade de tempo de treino que é preciso, com a própria segurança dos aviões, uma vez que fossem para a Ucrânia, exatamente em que base é que estariam, como é que se faria para evitar ataques russos a esses aviões. Mas acho que nada é de excluir e temos visto um pouco este padrão. Primeiro diz-se que não, depois começa-se a falar do assunto e depois acaba por se dizer que sim, mesmo em relação ao armamento mais sofisticado, tem sido esse o padrão.
Vai havendo sempre avanços e recuos. Bruno Cardoso Reis, obrigada pela tua análise. Há mais "Gabinete de Guerra" nas manhãs 360 e também, claro, na tarde em direto amanhã.