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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que analisamos as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, historiador. Bruno, boa tarde. Vamos começar pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia e sobre uma polémica que surgiu esta semana. França, Macron disse que não tinha dúvidas que os Jogos Olímpicos iriam ser um alvo para a Rússia, Jogos Olímpicos que acontecem este ano, entre julho e agosto, em Paris. Ora, o Kremlin já reagiu pelo porta-voz Dmitry Peskov fala em acusações absolutamente infundadas. Como é que vês esta polémica, estas declarações de Macron e também esta resposta por parte do Kremlin?

Boa tarde, Miguel. Boa tarde a todos. Eu acho que se calhar foi esse o objetivo de Macron, foi um pouco pressionar a Rússia. Aliás, já falámos aqui um pouco sobre isso e portanto, no fundo, levar a Rússia a um desmentido previsível e que não tem necessariamente grande credibilidade, porque sabemos que, infelizmente, a Rússia, por exemplo, 24 horas antes da invasão da Ucrânia, estava a dizer que não havia invasão nenhuma e que as tropas que estavam em exercício até iam voltar a casa, etc. Hoje em dia, o que diz a Rússia tem muito pouco crédito e por razões que se percebem. Apesar de tudo, a verdade é que isto condiciona um pouco a ação da Rússia e se no futuro a França vier a apresentar provas de que houve ataques deste tipo, ciberataques, operações de informação, que foi essencialmente o tipo de ataques para os quais Macron apontou, no fundo, a França tem aqui argumentos adicionais para dizer: "Nós avisámos que isto podia acontecer, estão aqui as provas e isto só mostra que a Rússia não é um ator credível." Acho que neste jogo, com uma eficácia que é sempre difícil de avaliar, imagino que Macron e os Estados Unidos também em várias alturas, por exemplo, fizeram isso em relação a operações de falsa bandeira, no fundo, anunciar que a Rússia pretendia acusar a Ucrânia de fazer esta ação ou aquela. O objetivo é sempre procurar condicionar a eficácia dessas operações de informação russa e condicionar um pouco a ação da Rússia, mas vamos ver com que eficácia.

Sim. Entretanto, há uma situação do conflito em destaque hoje, um ataque ucraniano, uma base aérea russa que destruiu, ao que tudo indica, seis caças e terá danificado outros oito. A Ucrânia, de facto, tem feito vários ataques nas últimas semanas e este acaba por ser um dos mais importantes. Mas gostaria de perceber que importância ao certo tem este tipo de situações da Ucrânia, este tipo de ataques da Ucrânia. Neste caso, acaba por confirmar-se este valor, danificar oito caças e destruir seis, é um ataque importante por parte das forças ucranianas.

Sim, estamos a falar, por um lado, de uma base aérea, à partida de um sítio mais protegido que propriamente outro tipo de infraestruturas, por exemplo, a questão das refinarias, toda a estrutura ligada à produção, à refinação, à exportação de petróleo, que também tem estado a ser muito atacada e que, sendo estruturas civis, à partida estarão menos protegidas. As bases aéreas é suposto, à partida, até na ausência de uma guerra, terem mecanismos de defesa, defesa nomeadamente antiaérea, mostra que eles não são eficazes, por um lado. Por outro, estamos a falar, obviamente, de equipamento bastante dispendioso. As estimativas para este tipo de aviões, os Sukhoi 34 ou 27, uns são caças bombardeiros, outros são simplesmente caças, anda à volta de 35 milhões de dólares cada um. Temos aqui um somatório de custos bastante pesado. Além disso, é difícil substituir estes aviões. Obviamente, isto não é uma coisa que se vá buscar ali à loja da esquina, como um automóvel novo. Reduz a capacidade que a Rússia tem de fazer ataques aéreos, seja sobre a linha da frente, seja em relação a alvos na própria Ucrânia. Sobretudo, eu diria que corresponde a uma estratégia ucraniana, que parece estar a ser bem-sucedida, de aposta crescente nos drones de fabrico próprio, nos drones com mais autonomia e mais capacidade, que se traduziu em algo que nós chamámos aqui a atenção, que é a criação, a elevação do comando responsável pelos drones a um ramo que está a par do exército ou da marinha ou da força aérea. Isso não parece ter sido simplesmente uma coisa formal, mas realmente a uma aposta maior da Ucrânia e aparentemente com sucesso, de facto, neste novo meio, nesta nova capacidade.

Gostaria de perceber como é que achas que está o conflito nesta altura. Recordo que há um ano falava-se muito de uma contraofensiva de verão. Isto não se tem falado tanto este ano, sendo que a Ucrânia tem avançado vários ataques destes à distância, com drones, também com alguns mísseis sobre território russo e também sobre posições russas. A Rússia vai anunciando que captura uma e outra povoação na Ucrânia. Em que ponto do conflito estamos neste momento?

Continuamos numa fase predominantemente defensiva, predominantemente de trincheiras, em que as ofensivas são muito custosas e mesmo quando têm algum sucesso, é um sucesso muito limitado, de conquista de poucos quilómetros. No essencial, a iniciativa está do lado russo, são ofensivas russas. Aparentemente, a Rússia tentou, na zona de Avdiivka, onde fez alguns avanços, mudar um pouco de tática e apostar em operações mais combinadas com a utilização, uma assistência de blindados, em vez destas vagas de infantaria e de artilharia, com ataques também de artilharia muito pesados, e teve um mau resultado. Ou seja, essas forças de manobra acabaram por ser facilmente eliminadas pelas tropas ucranianas Mas eu considero que, à partida, haver uma ofensiva nesta primavera-verão será da Rússia. Não é crível que a Ucrânia tenha capacidade para fazer isso, ou que deva fazer isso, ou que queira fazer isso, porque está com este estrangulamento, com esta incerteza sobre o nível de abastecimento em termos de equipamento militar e, sobretudo, munições dos países ocidentais, especialmente e em particular dos Estados Unidos. Esse bloqueio político mantém-se e não sabemos quando é que se poderá resolver. Pode ser uma questão de dias, pode ser uma questão de semanas, pode se arrastar durante meses. E se isso acontecer, e se acontecer num contexto em que este estrangulamento se mantém, se houver uma ofensiva russa mais ambiciosa neste contexto, realmente pode acontecer haver alguma rutura da frente ucraniana e uma perda mais significativa de território por parte da Ucrânia. Portanto, eu diria que à partida, neste momento, a vantagem parece estar um pouco do lado da Rússia, mas com este aspecto, que é, por exemplo, nesta dimensão de guerra aérea, de guerra naval, isso é bastante menos evidente. A Rússia conseguiu, mudando táticas e utilizando uma combinação de meios, também voltar a conseguir fazer ataques com alguma eficácia, por exemplo, contra as infraestruturas críticas ucranianas, mas ainda assim, muito menos do que foi o caso há um ano atrás. E, por outro lado, a Ucrânia está a conseguir, quer na dimensão naval, em termos de ataques à frota do Mar Negro, quer nesta dimensão mais aérea, está a conseguir também resultados interessantes e que não tinha conseguido até aqui. As coisas estão aí mais dinâmicas do que se poderia pensar e isto só nos chama a atenção para como é difícil também e complexo fazer a análise de um conflito, porque ele é multidimensional, porque é dinâmico e porque o inimigo tem um voto e vai mudando também as suas posturas, as suas capacidades, as suas táticas.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois das notícias das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.