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Gabinete de Guerra, eu sou a Vanessa Cruz. Contamos hoje com a análise do major-general João Vieira Borges. Muito bem-vindo, senhor major-general.

Muito boa noite.

Esta semana fica marcada pelo périplo que Donald Trump está a fazer pela Ásia, com um encontro previsto para quinta-feira com o presidente da China, Xi Jinping, um aliado da Rússia, e Pequim tem sido, ao mesmo tempo, alvo de ameaças constantes de uma guerra comercial por parte dos Estados Unidos. Espera que este périplo resulte em algum tipo de aproximação que afugente essas ameaças?

Eu espero bem que sim, até porque já há sinais nesse sentido. Ou seja, paralelamente àquilo que se está a passar nesta visita de Trump, que começou na Malásia, mas sobretudo prevendo este encontro com Xi Jinping, como disseram aí bem, na quinta-feira, as autoridades chinesas e norte-americanas estão a trabalhar num acordo que obviamente vai travar aquelas sanções e tarifas relativamente à China. E, portanto, esse entendimento, na minha perspectiva, obviamente que reduz as tensões de guerra comercial entre o que são as duas maiores economias do mundo, depois a seguir virá a Alemanha, e aí também há tensões entre a Alemanha e a China ultimamente. Acho que é importante que estas tensões sejam atenuadas. Estamos a falar daquilo que é a relação entre as duas grandes potências, que está acima dos conflitos, designadamente na Ucrânia e em Gaza. E, portanto, é muito importante que haja, na sequência deste encontro, uma paz não só comercial, mas com consequências positivas depois para a paz noutras regiões.

Entretanto, e por falar numa dessas regiões em conflito, a Ucrânia, o presidente do país, Volodymyr Zelensky, revelou hoje que está a trabalhar de forma proativa com os aliados num novo plano de paz. Com três anos e meio de guerra e outros planos que se revelaram infrutíferos, tem alguma expectativa para o que aí vem?

Eu tenho sempre expectativa positiva, porque tenho a certeza que a guerra vai terminar e estamos mais próximos dela terminar em função daquilo que é a capacidade de adaptação das potências que têm que ceder, designadamente a Ucrânia, em função da situação militar no terreno. Independentemente de ser uma paz injusta, será sempre injusta. Tenho dúvidas que seja duradoura, mas ao fim de três anos e meio, como dizia bem a Vanessa, obviamente que estamos na altura em que quer a Ucrânia, quer a Rússia estão cansadas e a pressão dos Estados Unidos, mas uma pressão como foi esta última e não como tem sido, ou seja, com sanções económicas muito para além daquilo que são a dissuasão militar, acho que resulta. Nós vimos a reação da Rússia pela primeira vez, vimos a reação da Rússia em função daquilo que foram, neste caso, as sanções dos Estados Unidos, uma reação que inclusivamente levou a escalar para outras dimensões que não a dimensão económica, com a resposta desajustada àquilo que é a relação entre os Estados Unidos e a Rússia neste momento, em diálogo, que foi a apresentação de um novo míssil quando Putin apresentou sanções económicas. Portanto, não contribui nada para a paz. Eu penso que este foi um erro estratégico claro do Kremlin, quando estava muito bem nas suas afirmações anteriores do seu delegado de visita aos Estados Unidos da América. Isto mostra que a situação na Rússia, internamente, e sobretudo em termos económicos, poderá não ser a melhor, ou certamente não será a melhor.

E olhando para essa questão das sanções, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, vai encontrar-se com Donald Trump na próxima semana nos Estados Unidos para discutir precisamente sanções a Moscovo. Pode ser aqui um encontro importante para uma reviravolta nesses apoios à Rússia por parte da Hungria?

Pode ser, até porque há uma relação próxima entre Orbán e Trump. Ele tem dificuldade em ouvir algumas pessoas, mas neste caso vai ouvir. Só que Orbán, vamos ver, está ao serviço de Putin e mais uma vez poderá haver outra viragem. Já tivemos duas viragens de 180 graus no posicionamento de Trump. Às vezes é no próprio dia relativamente a determinadas questões. Temos que estar preparados, sobretudo, na minha perspectiva, neste caso, para mais um adiamento das sanções, o que libertará Trump para a continuidade da guerra. Eu espero que haja depois, porque a pressão foi para dia 21 de novembro, relativamente às sanções das duas empresas que constituem cerca de 50% do petróleo, mais de 250 mil milhões anuais de exportações da Rússia, espero que Orbán leve uma solução de conciliação entre as duas partes e de uma pressão sobre a paz, porque nesse sentido, o Orbán traz muitos problemas à Europa, mas nesse sentido ele também, obviamente, quer a paz, independentemente, como eu disse, nunca será uma paz justa nesta altura, mas é importante que haja primeiro a paz e depois os acertos nas negociações relativamente a todas as ações a desenvolver.

E se a guerra continuar a durar, não sabemos o que é que esse encontro e o tal plano de paz também que está a ser montado, em que é que se vão traduzir na prática. Mas olhando para a duração da guerra, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, disse hoje que a Ucrânia está pronta para combater mais três anos. Isto é uma previsão realista, senhor major-general?

Não é uma previsão realista. É importante dizer isso neste momento, independentemente de ter capacidade ou de não ter capacidade, é importante que a Ucrânia transmita essa mensagem que está pronta, pelo menos, para lutar mais três anos. Porque esses três anos têm implicações em termos da economia, em função das sanções que têm tido lugar, as 19 sanções europeias, mais a sanção dos Estados Unidos. Isto é mais uma pressão, independentemente da realidade, independentemente das grandes dificuldades no teatro de operações que a Ucrânia está a atravessar. É importante porque a pressão que vem de algumas alas do Kremlin é que a guerra está quase a terminar e que a Ucrânia não vai demorar mais seis meses. Portanto, esta foi uma resposta. Realista ou não, só mais tarde saberemos, mas certamente que tem a ver com este jogo de guerra de informação entre as partes.

E no terreno, o Volodymyr Zelensky ordenou esta segunda-feira a expansão dos ataques contra a Rússia. Que ponto de situação é que podemos fazer e que extensão é que podem ter estes ataques, das informações que tem?

O ponto importante, que isto tem sido a estratégia adotada pela Ucrânia nos últimos dois meses. Unilateralmente, tinha havido uma opção de não combater fontes energéticas na Rússia, depois de um primeiro acordo entre as partes, nesse sentido. A Rússia continuou a desenvolver esses ataques no interior do território ucraniano, a Ucrânia esperou dois meses, e obviamente que nos últimos dois meses, com mais de 35 ataques sobre centrais energéticas, que neste caso são refinarias de petróleo, tem tido consequências nefastas para a Rússia, perfeitamente visíveis. E portanto, o que ele faz é mais uma ameaça, porque também não tem outra. Não tem outras capacidades para resolver os problemas na linha da frente, está com grandes dificuldades, mas também a Rússia não os tem resolvido. E portanto, havendo esse impasse na linha da frente, aquilo que nós estamos a assistir de ambas as partes é a destruição das áreas de retaguarda, com mísseis com maior alcance, com maior capacidade, com maior furtividade, ou seja, com menos capacidade de detecção por parte da outra parte. E é isso que vamos assistindo, o que faz com que entremos numa guerra em que sofrem mais os civis do que sofrem os combatentes na linha da frente, porque obviamente, não é só a questão da destruição deste ou daquele, com três ou quatro mortos, quando nesse dia morreram 300 militares de cada lado, mas os militares não contam nas notícias. Mas vai ser o aumento da destruição e também de baixas de ambas as partes, em função desta opção estratégica. É uma opção que funciona como dissuasão da parte da Ucrânia, não só para quem toma decisões na Rússia, mas também para o povo, que vê assim a guerra chegar ao seu território, porque obviamente, para quem está em Moscou ou noutras partes do país maior do mundo, não sente a guerra. Portanto, isto é uma maneira de fazer também chegar a guerra aos russos, que poderão pressionar, apesar de não haver uma sociedade civil e não haver uma democracia, mas pouco a pouco, para além das mortes, que são muitas, e dos feridos, que são imensos, também a guerra chegar, obviamente, às portas da Rússia, o que tem consequências, nem que seja a médio prazo. É essa a intenção de Zelensky.

Vamos ainda, Major-General João Vieira Borges, ao outro conflito do Médio Oriente, também a propósito de um plano de paz, neste caso, proposto por Donald Trump. Israel diz agora que não vai deixar tropas da Turquia entrarem em Gaza. O plano do presidente norte-americano pode ficar comprometido?

Não. Já estávamos à espera. Eu tinha dito na passada segunda-feira. Quando isso foi anunciado, eu comuniquei que ia quase ser impossível que Israel autorizasse a Turquia pelas suas ligações a alguns movimentos islâmicos e pelo seu posicionamento relativamente a Israel ao longo da guerra. Independentemente de ser um país da NATO, independentemente de ser um país importantíssimo no acesso aos mares e no conflito, e tem a ver com o Mar Negro, no conflito com a Ucrânia e a Rússia, poderá daí ter um papel importante. Neste caso, foi importante para a paz, mas é muito difícil que venha a ter um papel nas forças de interposição. Não só a Turquia, mas outros países, porque Israel pede aos Estados Unidos que haja o direito de veto, mais ou menos, relativamente a forças que depois façam parte daquela força de interposição. Há uma certa lógica, na minha perspetiva, relativamente a esta questão, e não é isto que vai criar problemas. Os Estados Unidos estão a acompanhar e em alternativa à Turquia, hão de haver certamente outro tipo de forças que Israel vai aceitar, e isso é importante. Não é esta a questão que vai colocar em causa a paz na região.

Só para fecharmos, senhor Major-General, um ministro da extrema-direita israelita diz que a guerra ainda não acabou e, de resto, Israel cometeu aqui um novo ataque contra o Líbano, morreram duas pessoas. Qual é que é o ponto de situação que podemos fazer também aqui sobre estas frentes de batalha?

Sim, são situações pontuais. O posicionamento da extrema-direita varia, inclusivamente, em que a guerra só termina quando tiverem todos os mortos. Ainda faltam 13, julgo que logo à noite será entregue mais um, faltarão 12. Ou mesmo só terminará numa outra perspetiva, é o caso deste ministro, para ele só terminará quando o Hamas se render, ou seja, quando entregar todas as armas. Portanto, são perspetivas que Trump, no Kenneth, soube atenuar um pouco antes da assinatura do acordo, dizendo que era a seguir ao acordo de paz que terminava a guerra. Portanto, são interpretações que nós vamos assistindo, mas julgo que não será isso que vai pôr em causa este processo, tem duas semanas. Há outras questões muito importantes, a tal desmilitarização do Hamas, a constituição de uma governança. Aí vão chegando a acordo, inclusivamente os países árabes a pressionar, não só o Hamas, mas outras forças que estão no terreno em Gaza. E isso é que tem sido positivo, é um trabalho que, na minha perspetiva, só é visível quando nós tivermos as tais forças de interposição. Visível para todos nós, mas agora estes acontecimentos pontuais são perfeitamente normais em todos os processos de paz na região.

Muito obrigada, senhor Major-General João Vieira Borges, pela sua análise aqui no Gabinete de Guerra da Rádio Observador, que fica sempre disponível em podcast.