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Bom dia, bem-vindos ao Gabinete de Guerra de domingo, 27 de setembro. Bem-vinda também, Liliana Reis, especialista em Relações Internacionais. Este plano para a reabertura do Estreito de Ormuz em sete dias terá sido rejeitado por Donald Trump, diz que não confia em Teerão para dar as garantias necessárias. Em que situação é que nos deixa esta nova tentativa de avanço que acabou por não se confirmar?
Bom dia. Os principais aspectos da proposta iraniana eram, na verdade, exigências. Nós não tínhamos aqui um acordo de paz, mas sim uma proposta iraniana de troca. Por um lado, reabrir o Estreito de Ormuz e retomar as negociações em torno do programa nuclear, mas teriam que ser feitas em troca de concessões imediatas. Repare que os principais aspectos da proposta iraniana eram, como eu já referi, reivindicações para os Estados Unidos. Por um lado, os Estados Unidos teriam que levantar o bloqueio naval aos portos iranianos. Depois, teriam que suspender as sanções às exportações do petróleo iraniano, que vigoram. Também teriam que libertar cerca de 12 mil milhões de dólares de ativos iranianos congelados e teria também que haver um cessar-fogo no Líbano e Israel. Em contrapartida, o plano iraniano comprometia-se, efetivamente, à reabertura do Estreito de Ormuz em seis dias, mas repare, esta reabertura do Estreito de Ormuz só seria retomada depois dos Estados Unidos anuírem com todos os pontos da proposta iraniana. Ora, o que parece é que, na verdade, isto vai contra a estratégia de Donald Trump, que nós temos vindo a observar, que é manter a economia do Irão sob a máxima pressão, por um lado, para obrigar Teerão a aceitar o acordo nuclear muito mais abrangente e, por outro lado, também pressionar o Irão, nomeadamente naquilo que nós sabemos que neste momento decorre no Estreito de Ormuz. Este plano que o Irão apresenta, pelo menos do meu ponto de vista, parece-me que o Irão iria receber benefícios econômicos imediatos, mas os Estados Unidos apenas poderiam receber uma promessa de negociação, sobretudo em relação ao acordo nuclear. E por isso os Estados Unidos poderão ter considerado esta proposta insuficiente. Aliás, Donald Trump, eu também já vi agora de manhã, disse que o Irão está a tentar chegar a um acordo porque está a perder alguma margem de manobra do ponto de vista negocial. Agora, há aqui também outra dimensão que me parece muito importante ser sublinhada, é que esta proposta não se limitava à relação entre os Estados Unidos e o Irão, mas implicava também Israel, no sul do Líbano, em relação ao Hezbollah, e a Arábia Saudita, em relação aos houthis, o que teria implicações, naturalmente, para todo o equilíbrio regional. Repare que a Arábia Saudita fez um apelo internacional a pedir a condenação dos houthis nas Nações Unidas e também já veio transmitir que as escolas de Riade vão funcionar à distância na próxima semana, por causa da nova onda de ataques dos houthis. A aceitação deste acordo por parte dos Estados Unidos também necessitaria da anuência por parte de Israel e por parte da Arábia Saudita, uma vez que tinha o Líbano e o Iêmen no seu acordo. Por isso, aquilo que me parece é que, neste momento, o objetivo do Irão também é ganhar tempo e aliviar a pressão. E, sobretudo, colocar os Estados Unidos na posição de quem tem que dizer não à diplomacia. E dividir, naturalmente, a posição internacional de apoio aos Estados Unidos.
De que forma é que as eleições intercalares nos Estados Unidos podem também influenciar esta fase até novembro, ou seja, de Donald Trump pretender também ganhar tempo ou pretender ser mais ofensivo só após as eleições, de que forma é que isso também vai influenciando?
Naturalmente, as eleições intercalares têm aqui uma grande influência. Nós começamos a perceber que os norte-americanos estão mais preocupados com questões domésticas, nomeadamente com o impacto desta crise ao nível da economia norte-americana, que também está a ressentir-se, não é exclusivo da Europa. Nós temos vindo a alertar e a sentir, mais do que alertar, temos vindo a sentir no nosso bolso as implicações do conflito no Médio Oriente. Mas os norte-americanos também. E naturalmente que Donald Trump, neste momento, tem que ter muitas pinças para lidar com a questão iraniana, nomeadamente na possibilidade de erosão do próprio capital político, não apenas dele, mas sobretudo do Partido Republicano, que começa, em várias sondagens, a revelar alguma possibilidade de decréscimo nas midterm elections, nas eleições intercalares.
Numa fase em que os dois países não se entendem, quem é que pode assumir aqui também um papel de moderação e de tentar desbloquear esta situação? Quem é que está em melhores condições para isso?
Pelo menos Donald Trump, na última semana, encetou todos os esforços para que a China exercesse esse papel, eu não diria tanto de mediação entre os dois lados, mas sobretudo de pressão sobre o Irão. Parece que foi um dos pontos que foi falado entre Donald Trump e Xi Jinping ou, pelo menos, por parte de Donald Trump pediu a Xi Jinping para encetar esses esforços no sentido de uma maior pressão, porque esta crise também está a afetar a China, não apenas do ponto de vista energético, mas das próprias rotas comerciais Ainda assim, a posição que está a ser transmitida por parte da China é que a China não vai assumir esse papel de pressão em relação ao Irão, até porque também tem outro tipo de interesses na região e pretende também salvaguardá-los. Repare que nós neste momento estamos também a falar de uma guerra que está a expor a procura, por parte das grandes potências ou daquelas que têm algum poder hegemônico, exercer influência, ou seja, criar esferas de influência em vários pontos do globo. E naturalmente que a China tem interesses também muito contundentes nesta região. Agora, há aqui um conjunto de atores, aliás, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, o Araghchi, já veio apontar que o Paquistão pode assumir esse papel de mediação. Mas há algo que nós estamos a nos esquecer. Repare que nós já tivemos um acordo de cessar-fogo em abril de 2026, em junho e agosto também. Aliás, os 60 dias, estou-me a recordar este último, que nós tivemos a oportunidade até de comentar aqui no Gabinete de Guerra, com também muita prudência, daquilo que poderia sair efetivamente deste cessar-fogo dos 60 dias. E o que é certo é que mesmo os possíveis mediadores começam a ter muitas dificuldades em levar qualquer uma das partes a recuar nas suas pretensões. E naturalmente, quanto mais se prolongar, mais cada uma das partes, quer o Irão, quer os Estados Unidos, irão ganhar tempo para se posicionar de uma forma diferente nessa mesa negocial. Repare que nós também não sabemos os resultados das eleições intercalares. Ainda há pouco estávamos a falar sobre esse impacto do ponto de vista doméstico. Isto pode levar Donald Trump, naturalmente, se houver uma vitória por parte dos democratas, poderá condicionar a política externa norte-americana em relação ao Irão nos próximos meses. Ainda assim, vejo com alguma dificuldade que os Estados Unidos aceitem, sobretudo, a libertação dos 12 mil milhões de dólares, porque isso significaria recursos financeiros para o desenvolvimento do programa nuclear iraniano.
E até porque há também uma informação recente do secretário de Estado do Tesouro norte-americano de uma tentativa de lançar um movimento diplomático para tentar isolar ainda mais Teerão do ponto de vista económico. E, portanto, há também essa preocupação agora dos Estados Unidos.
Agora os Estados Unidos, aquilo que procuram é conseguir arregimentar aliados para os perigos que o Irão representa, não apenas para os interesses norte-americanos, mas também para várias democracias, nomeadamente para as democracias europeias. Ainda que, em relação à Europa, neste momento, haja um completo foco, aliás, o discurso de Ursula von der Leyen, da União, também na semana passada, veio destapar que a preocupação europeia é muito mais com a ameaça russa do que propriamente com as ameaças que possam vir do Médio Oriente. Eu falo aqui em ameaças, plural, no Médio Oriente, porque há efetivamente ameaças muito mais alargadas que não se esgotam no Irão. Mas nesta semana, o "El Mundo" também veio alertar que serviços de informações revelaram algumas possibilidades para que a Rússia venha a alargar algum tipo de ataques híbridos, nomeadamente através de drones, no Mediterrâneo, nomeadamente em Espanha, França e Itália. Ora, nós não sabemos se há efetivamente algum tipo de concertação também entre a Rússia e o Irão. Como nós sabemos, são aliados e parceiros, até do ponto de vista militar. O Irão tem fornecido capacidades militares, não exclusivamente drones, também à Rússia durante estes anos da agressão à Ucrânia.
A Assembleia Geral das Nações Unidas consegue dar-nos algum sinal positivo ou otimista nos dois grandes conflitos dos últimos anos, o do Médio Oriente e também o da Ucrânia, o da Rússia, ou não podemos sair com nenhum sorriso na cara, com a expectativa de algum cenário mais positivo?
A pergunta que me coloca é efetivamente muito pertinente, e para mim, que sou uma otimista por natureza, custa-me, se calhar, traçar uma direção não tão otimista, mas eu não estou efetivamente com grandes expectativas em relação à capacidade das Nações Unidas, e os discursos de vários protagonistas destaparam, em relação à sua capacidade de resolução, quer de um conflito, quer de outro. Repare que um dos conflitos, e nós temos dito isto muito poucas vezes, é levado a cabo por um membro permanente do Conselho de Segurança contra um Estado soberano. É a Rússia que ataca, efetivamente, um dos Estados, também das Nações Unidas, a Ucrânia E é muito difícil, até pela sua capacidade de veto no Conselho de Segurança, sofrer algum tipo de pressão sobre si. Este é o primeiro elemento em relação à Guerra da Ucrânia. Depois, em relação ao Médio Oriente, aquilo que nós começamos também a perceber é que, ao contrário do que é destapado, sobretudo pela opinião pública ocidental, quer na Europa, quer nos Estados Unidos, que muitas vezes tendem a considerar o Médio Oriente um bloco uníssono, ou seja, que todos os Estados do Médio Oriente estão com o Irão, isso não é verdade. Ainda há pouco eu falava da Arábia Saudita e nós vemos aqui uma situação da Arábia Saudita muito desconfortável com aquilo que tem sido o patrocínio do Irão em relação a vários grupos terroristas e que atuam como proxies do Irão em vários territórios. Não é só o Hamas em Gaza, mas também o Hezbollah no sul do Líbano e, sobretudo, para a Arábia Saudita, que preocupa muito mais, porque tem sofrido ataques a várias infraestruturas energéticas, e que têm também condicionado o Estreito de Bab-el-Mandeb, que condiciona, naturalmente, uma das rotas mais importantes do ponto de vista comercial. E, por isso, em relação ao conflito do Médio Oriente, nós não podemos dizer: "Não, os Estados árabes estão com o Irão" e depois os Estados Unidos contam efetivamente com algumas democracias, até porque algumas democracias também começam a recuar. Aquilo que nós observamos é que, efetivamente, também há Estados árabes que querem que os Estados Unidos saiam vencedores no Médio Oriente para garantir a estabilidade, que lhes garantiu também alguma prosperidade e crescimento económico nos últimos anos. E, por isso, o Irão, também mesmo no quadro das Nações Unidas e do reforço do sul global, que tendencialmente é mais favorável ao Irão, ainda assim não conseguem agregar todo o apoio deste quadro e o multilateralismo. Aquilo que nós vimos é que está a passar por tempos muito sombrios, em que cada Estado procura maximizar os seus interesses, e não consegue perceber as vantagens da cooperação num quadro multilateral.
Liliana Reis, muito obrigado por se ter juntado a nós neste Gabinete de Guerra na Rádio Observador.
Um bom domingo.