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É o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Vamos fazer nos próximos minutos um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e também no Médio Oriente. Hoje é nosso convidado o major-general João Vieira Borges. Major-general, muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador. Já começou em Abu Dhabi a reunião que junta as delegações russas, ucraniana e também norte-americana. Sentou-se à mesa, do que podemos ver das fotografias, Steve Witkoff e também Jared Kushner, e também os negociadores dos dois países que estão em guerra. O Kremlin já assegurou que vai continuar a atacar a Ucrânia até Kiev tomar decisões que possam contribuir pro fim da guerra. E por isso, major-general, o que pergunto é se é isso que falta pro fim da guerra, uma decisão de Kiev.
Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. O que falta é a Rússia parar a guerra, independentemente das posições de Kiev. Quem invadiu foi a Rússia. Estamos sistematicamente, mesmo nós comentadores, a criar pressão sobre a própria Ucrânia, quando devíamos criar pressão sobre a Rússia. A Rússia é que invade, a Rússia é que destrói, a Rússia é que está a pôr em causa o Estado de Direito. A Rússia é que está a pôr em causa o direito internacional e, portanto, a comunidade internacional não reage. A Rússia diz o que quer, quando quer, faz o que quer e a comunidade internacional está adormecida e os Estados Unidos estão ao lado de Moscovo, claramente, já percebemos todos há muito tempo. De mediador não tem nada. E o que assistimos é algo que, obviamente, nos dias de hoje, passa a ser claro com esta nova ordem das grandes potências. É que o poder de quem tem capacidade militar ou quem tem capacidade económica sobrepõe-se a tudo e qualquer regra. Isto é muito interessante, porque esta equipa de negociação mudou, agora tem militares, tem dois grupos, tem um grupo político e um grupo militar, mas os políticos desapareceram. E aquilo que está a acontecer é que são pessoas mais pragmáticas, que discutem sem grandes considerações geopolíticas e tentam alcançar objetivos, mas as orientações são políticas e da parte da Rússia não há cedência absolutamente nenhuma, desde o primeiro dia. Quando nós estamos em reuniões deste cariz, normalmente há cedências de ambas as partes. Já percebemos que a Rússia não faz qualquer cedência e sistematicamente vem aumentando as suas exigências. Por outro lado, imediatamente antes daquilo que são as negociações ou durante as mesmas, desenvolve ataques que vão ao encontro daquilo que é crimes contra a humanidade, como foi agora do dia dois pra três, exatamente sobre alvos de cariz civil. É este o mundo que temos, os Estados Unidos não criticam, os Estados Unidos exigem cada vez mais da Ucrânia e infelizmente, a União Europeia continua com palavras e Zelensky continua sem mísseis pra defender o seu povo, pra defender as instalações críticas na Ucrânia. E continuamos a ver isto, infelizmente, dia a dia. Nós que andamos nisto há quatro anos, desde o primeiro dia, realmente é chocante aquilo que vamos assistir, mas chocante, sobretudo, pela falta de um posicionamento da parte dos Estados Unidos, que devia ir ao encontro daquilo que são os seus valores da sua Constituição. Mas temos uma administração americana que realmente, já vimos, inclusivamente relativamente a questões que têm a ver com aliados, que está ao lado, claramente, de Moscovo. Trump ao lado, claramente, de Putin, e por isso até tem fotografias no gabinete. E é este o mundo que temos que enfrentar, infelizmente.
Olhando, major-general, pra o lado militar destes recentes ataques que a Rússia tem levado a cabo contra a Ucrânia, bombardeamentos em Kiev de ontem. Esta estratégia militar vai fazer com que a Ucrânia se afaste ainda mais da via de diálogo e que responda na mesma moeda, ou pode ter como objetivo e como caminho um obrigar a Ucrânia a sentar-se à mesa das negociações, por até algum desgaste popular, por causa desta guerra que já dura praticamente há quatro anos?
Sim, eu compreendo que, em função daquilo que eu disse, a resposta à sua pergunta é de que a Rússia tem todo o tempo do mundo e toda a capacidade militar para pressionar através do seu instrumento militar usado contra o povo ucraniano. Essa pressão vai surtindo efeito no povo ucraniano. Aquilo que pretendem com isto é a revolta do povo ucraniano. Nós vamos vendo todas as sondagens que vão aparecendo, neste caso, todos os inquéritos, nem sempre são muito credíveis, mas que aparecem com a população ucraniana farta da guerra e desejando ceder já territórios, já são 40%, em troca da paz. É isto que pretenda a Rússia, que tem poder e que não vê ninguém opor-se, não vê os Estados Unidos opor-se, não vê o Conselho de Segurança opor-se, não vê a comunidade internacional opor-se. E vai continuando o seu jogo. Zelensky está numa situação muito crítica e obviamente, a única solução que eu vejo, se isto continua mais um ano, das duas uma: é também aquilo que está a acontecer à própria Rússia em termos económicos, e hoje vieram indicadores muito importantes relativamente a uma situação Muito crítica para a Rússia e continuar a haver pressões ainda mais duras em termos económicos e a Ucrânia continuar a sofrer, até também haver, da parte da Rússia, uma situação crítica. Da parte da Ucrânia, já sabemos que existe. E aqueles dados que nós obtivemos nestes últimos dias são indicadores que eu transmito objectivamente: passou-se do crescimento de 4,3% para 1%. Putin disse que foi intencionalmente provocada para reduzir a inflação, mas a inflação aumentou consideravelmente agora em janeiro para valores até de 10%, 12% em determinadas regiões da Rússia, o que também, a par daquilo que é uma crise bancária sistémica, está a pôr pressão sobre Putin para resolver esta situação o mais rápido possível, porque já se começa a sentir efeitos das sanções ao fim de quatro anos, e sobretudo desta última situação com a Índia, de importações mais reduzidas de petróleo, também de gás. Há aqui situações que também temos que colocar em cima da mesa. Há uma pressão muito grande da Rússia em função da sua situação económica, que depois se transforma numa situação social. E em qualquer momento, uma faísca poderá dar origem a determinado tipo de movimentos. Mas isso certamente ainda estará longe na minha perspectiva, mas mais seis meses, mais um ano, se esta situação continuar e a Ucrânia conseguir ter mísseis Patriot para proteger o seu povo, em vez de ter palavras e discursos muito bonitos dos europeus, obviamente que será um tabuleiro geopolítico diferente daqui a um ano.
Major-General, perdemos a ligação durante um segundo.
Sim.
Major-General, eu queria só aproveitar para lhe fazer outra pergunta. Falávamos há pouco de Donald Trump e do facto de estar mais alinhado com o Kremlin, com Moscovo, do que propriamente com a Ucrânia ou até com a União Europeia. Donald Trump confirmou esta tarde ter tido uma excelente chamada com Xi Jinping, o presidente chinês, e um dos tópicos discutidos terá sido acordos de comércio entre os dois países e também a guerra na Ucrânia. Vemos Donald Trump a abandonar, de alguma forma, a tradição norte-americana de estar mais alinhado com o mundo ocidental para procurar outros novos aliados, como o caso aqui, principalmente, não só de Vladimir Putin, mas também de Xi Jinping?
Não, esta é uma perspectiva diferente. A grande ameaça, quer no conceito estratégico, quer na realidade, continua a ser a China. A China é ameaça em termos económicos, é ameaça também em termos daquilo que é a liderança do novo mundo das grandes potências. Mas para Trump, os negócios estão sempre em primeiro lugar. Nesse aspecto, ele negociou certamente prioritariamente do que propriamente relativamente à guerra na Ucrânia ou à situação do Médio Oriente com a China. Inclusive, hoje há uma reunião importante nos Estados Unidos, só para referir como é importante esta questão da China, uma reunião em que julgo que estará também o secretário de Estado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Marco Rubio, numa ronda com 50 países relativamente aos metais críticos ou metais raros, para fazer face à China, que dispõe de mais de 60%, e daqueles mais críticos ainda cerca de 90%, o que é condicionante e enorme para os Estados Unidos, não só na indústria automóvel, não só na indústria de armamento, mas em tudo o que tem a ver com a indústria. É um jogo em que ele sabe perfeitamente que tem grande pendência da China e em termos diplomáticos, que convinha no conceito estratégico de 2025, é importante negociar com a China, manter equilíbrio e não entrar nas questões de conflito económico ou questões de conflito militar. Isto faz parte do processo das grandes potências, de um bom relacionamento entre as grandes potências, no sentido de não haver conflito e de elas depois poderem ter liberdade de ação para intervir militarmente ou noutras dimensões. É o tal entendimento que eu referia, no fundo, entre grandes potências para dominarem o mundo em que os Estados Unidos assumidamente perdem a hegemonia nesse aspecto.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Estivemos a analisar a relação dos Estados Unidos com a China e também as negociações tripartidas entre representantes russos, ucranianos e norte-americanos, que está a acontecer em Abu Dhabi. João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador.
Com todo o gosto.
O Gabinete de Guerra está de regresso mais logo.