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Com a companhia de Jorge Rodrigues, professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, que semana após semana nos ajuda aqui a analisar e interpretar alguns dos factos mais recentes relacionados com os conflitos em curso. Boa tarde, professor. Bem-vindo mais uma vez. Vamos começar com o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump afirma que está a levar com calma este conflito com o Irão. O que isso representa na prática? Está apostado no campo negocial, nas negociações?
Boa tarde, Miguel. Naturalmente que há sempre espaço para a diplomacia. Já várias vezes fomos falando nisso. A diplomacia vai decorrendo paralelamente às ações militares, de forma direta ou indireta. Temos que acreditar que há sempre contatos e que de alguma forma se procura chegar a um compromisso. Por vezes, esse compromisso é obviamente com preocupação maximalista. Por outros momentos, há uma posição mais racional de tentar o equilíbrio e encontrar mesmo soluções. E mesmo Donald Trump tem essas preocupações, apesar de obviamente a sua retórica ser completamente diferente disso, mas naturalmente também percebe quando os momentos são demasiado complexos. Repare que há aqui uma calma que vem, de certo modo, da incapacidade. Fala-se muito dos interceptors e realmente também há uma referência de existirem agora 1000 Patriot e 200 THAAD, portanto, é diminuto e se tem pedido a utilização amiúde deste tipo de sistemas, inclusivamente o concentrar dos sistemas no teatro do Irão, mas há também noutro tipo de armamento mais custoso, em que realmente a indústria de defesa não estava preparada para uma utilização tão intensa. E obviamente os Estados Unidos também não se querem expor a um conflito a nível global e que não tenha depois o equipamento necessário. Para não entrar nessa limitação, é obviamente um fator. Mas também, na minha opinião, há outro tipo de questões aqui, que é, por um lado, a extraordinária resiliência do Irão e que leva a uma consciência de que a escalada poderá não implicar diretamente o sucesso. Já houve na primeira fase deste segundo conflito, realmente um sucesso militar extraordinário que decapitou as diversas hierarquias político-militares do Irão e o Irão não abanou e tinha um sistema bastante resiliente, seja pela descentralização de poder, do processo de decisão, seja por um esquema de retaliação tática extraordinária. E a verdade é que conseguiu. Com muito sucesso por parte dos Estados Unidos, ficou demonstrado que havia a capacidade do Irão de ir resistindo. Muito por uma sensação de ameaça existencial ao regime, portanto naturalmente motiva quem está na liderança para manter essa resistência. E segundo o próprio Trump, e não irei conseguir citar bem, naturalmente, mas a ideia é esta. Há três estratégias possíveis para os Estados Unidos. Uma é observar o desmoronar do regime por se encontrar muito fraco, o que não parece necessariamente a situação, ou atacar com força, e isso sim, em última análise, se os Estados Unidos atacarem com força, com decisão, acredito que consigam alterar a situação. Poderão também ter um conjunto de perdas, seja a nível de meios humanos e materiais, mas também como a reorientação estratégica, que não será a intenção de Trump, muito por pressão também político-económica. E a terceira opção, segundo o próprio, será a pressão económica, que é um cerco que estará a desenvolver, em que está incluído o cerco por Ormuz, mas também a norte no Cáspio, que é verdadeiramente o que está a fazer, mas que é algo que demora muito tempo e que o resultado pode não ser suficientemente rápido. Repare que nos parece que, isto até foi um artigo do Wall Street Journal, que uma narrativa de vitória poderá estar a surgir só baseada no sucesso de Ormuz. Trump já foi falando numa primeira fase, o sucesso de Ormuz e depois só numa segunda fase ser abordada a questão nuclear. Isso é extraordinário quando o grande objetivo inicial nem incluía Ormuz. Mas repare ainda que nem sequer Ormuz está assegurado, não está a conseguir assegurar o sucesso, mesmo que se possa caminhar a uma situação que teoricamente essa importagem está sempre em cima da mesa, pelo menos os chamados custos administrativos a dividir entre o Irão e Oman, que na verdade são portagens que podemos chamar outro nome. Portanto, a situação não está nada fácil para Donald Trump. Naturalmente, pode sempre evocar a força máxima, mas não sei se os Estados Unidos estão em condições para orientar para essa modalidade de ação neste momento.
Ainda muita indefinição no horizonte. Nestes últimos dias, têm-nos chegado informações contraditórias sobre o estado de saúde do líder supremo do Irão, Ali Khamenei, de situação de saúde terminal a líder ativo que até teve uma reunião de oito horas com o presidente. Afinal, qual é o estado de saúde do Aiatolá, se é possível determinar esse diagnóstico?
Temos aqui as duas vertentes da saúde física, que não sabemos bem, apesar de terem surgido algum tipo de imagens, não temos absoluta certeza o que elas representam, mas há saúde de projeção de poder, que eu julgo que será ainda mais determinante. Há aqui uma definição extraordinária de competição de poder interno no Irão. Temos os pragmáticos, muito liderados pelo presidente Ebrahim Raisi, naturalmente, que procura maximizar as negociações, mas sem sucesso, até porque tem consciência que mesmo a China, um grande apoiante internacional e vital neste processo, poderá não aguentar muito tempo esse apoio caso Hormuz continue fechado. Depois temos extremistas radicais, muito apoiados na guarda revolucionária, que querem maximizar o sucesso e de alguma forma sentem uma ameaça existencial sobre o regime. E depois parece surgir, como já dissemos na semana passada, o Aiatolá com um objetivo, pelo menos os seus apoiantes, com as dúvidas que temos em relação à saúde física, em que parece ter algum tipo de equilíbrio que vai pendendo de acordo com os que lhe parece poder ter mais sucesso e que resultou agora, inclusivamente, não só nessas reuniões de oito horas com Raisi, em que vai dando algum tipo de ordens a miúdo, mas que está a projetar aqui um conjunto de medidas, essas sim muito relevantes, que seja a reorganização das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária Islâmica, o Artesh e o Koas, supostamente para evitar redundâncias, supostamente para agilizar o comando e controle, mas na prática acaba por trazer um comando coordenado entre as duas forças que está a ser pedido a Abdollahi, que foi nomeado recentemente com origem na Guarda Revolucionária Islâmica e que poderá indicar que há aqui uma certa vantagem da Guarda Revolucionária neste momento. Outra nomeação muito recente para o Conselho de Segurança Nacional de Razei, também com origem na Guarda Revolucionária, parece vir a confirmar, apesar de obviamente haver também algumas nomeações do inner circle do Aiatolá que de alguma ordem equilibram. Há aqui um objetivo de controlar o poder, em que há dúvidas sobre endurecimento ou se há aqui uma certa pressão a nível internacional no sentido de se não querem negociar com os moderados, vão ter que se haver com os radicais, em que vão resistir, e já Vaidi chegou a referir isso, resistir até ao final do mandato do Trump e procurar novas condições no final desse mandato com um novo interlocutor. Demonstra aqui um certo esforço de unidade interna, apesar das lutas de poder, mas realmente demonstra que há, de facto, uma unidade face ao adversário externo e que de alguma forma será determinante à resiliência do Irão.
Professor, ainda temos aqui mais um minuto e meio. Tínhamos aqui mais dois tópicos. Avançávamos com a Ucrânia, temos assistido a uma escalada no conflito, a paz já pareceu mais perto. Tendo em conta esta escalada dos ataques mútuos, não devemos esperar avanços nas negociações de paz a curto prazo, professor?
Dificilmente. Ainda não há um equilíbrio estratégico, já vínhamos falando nisso. Há aqui um conflito da ação-resposta muito imediata. Lembro-me de um oficial ucraniano me ter dito uma vez que a Ucrânia era um laboratório para a Rússia, ou seja, ele desenvolvia nomeadamente os drones e outro equipamento de ponta, e a Rússia depois massificava esse equipamento. E é o que estamos a sentir quando a Ucrânia consegue ter algum tipo de sucesso, nomeadamente através da estratégia de longo alcance sobre a logística e infraestrutura da retaguarda da Rússia, a Rússia responde com a massificação. Repare que agora com os drones Geranio 4 e 5, que são mais rápidos, mais difíceis de interceptar, massifica com uma produção de 11 mil drones só para agosto. É obviamente uma capacidade extraordinária que coloca em dificuldades as defesas da Ucrânia, principalmente pela ausência de interceptores para os mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro que os sistemas de longo alcance conseguem produzir. Isso cria dificuldades não só no terreno tático, que os avanços têm sido poucos, mas têm sido, como também nos ataques que têm desenvolvido à base industrial de defesa da Ucrânia e também sobre as cidades. Isso com o objetivo máximo de equilibrar até o inverno, de manter a pressão até o inverno e de retirar a vontade de combater, seja aos ucranianos, seja à vontade de apoiar por parte do Ocidente. Putin sob uma ameaça existencial acha viável ter sucesso nos seus objetivos maximalistas. Há uma escalada, embora relativa, mas merece muita atenção do Ocidente, que continua a estar um pouco distraído, e nomeadamente agora apenas com a questão do Irão. O futuro não é muito brilhante.
E de resto há hoje uma informação que deve inspirar seguramente preocupação à população ucraniana e avançada pelo jornal Politico e dá conta que com o fornecimento de mísseis Patriot limitado, a Europa está a ficar sem recursos para auxiliar a Ucrânia com este material essencial para garantir defesa antiaérea. Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado mais uma vez pela sua presença neste Gabinete de Guerra, professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School.