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Começa aqui mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos analisar algumas das notícias que nos chegam da guerra da Ucrânia. Contamos para isso com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Junta-se ao Bruno o Viera Amaral, Judite França e ao Miguel Videira.
E vamos começar, Nelson, com a mais recente onda de ataques da Rússia. Um ataque esta madrugada em Uman', sul de Kiev, provocou pelo menos 10 mortos. Estão a intensificar-se os ataques das forças russas, ataques aéreos. Como devem ser interpretados, Bruno? Boa tarde, bem-vindo.
Boa tarde, obrigado. Eu acho que podem ser interpretados, por um lado, como parte de um padrão que já se verifica há muitos meses, pelo menos desde outubro do ano passado, da aposta da Rússia nestes ataques aéreos em profundidade, tirando alguma vantagem em termos, por exemplo, de mísseis que a Rússia tem. Apesar de tudo, nas últimas semanas, nos últimos dois meses, houve um certo atenuar da intensidade e da frequência desses ataques. Agora, parecemos estar a assistir novamente a um intensificar desses ataques e com intervalos mais curtos, resultando em mais mortes. Portanto, acho que isso pode refletir, sobretudo, uma tentativa russa de testar o estado das defesas antiaéreas ucranianas. Fomos percebendo por discussões públicas e aquela fuga de informação do Jacques Teixeira confirmou que havia problemas a esse nível das defesas antiaéreas ucranianas. Enfim, já se sabia, mas isso foi reforçar isso. Portanto, imagino que esse seja um dos fatores. O outro é que há a crescente expectativa de uma ofensiva iminente ucraniana e, portanto, tudo o que seja tentar criar dificuldades, tentar mostrar que a Rússia continua a ter alguma capacidade de resposta e retaliação, do ponto de vista da Rússia, tem utilidade neste contexto, neste momento. Tentar aqui um pouco perturbar quer a moral ucraniana, produzindo mortes civis, quer eventualmente até toda a logística, todo o apoio desta ofensiva ucraniana que se espera.
A Comissão Europeia, Bruno, fez uma advertência séria a Moscovo, disse que os bombardeamentos na Ucrânia, como os que foram perpetrados ontem pelas Forças Armadas, são crimes de guerra e não haverá impunidade para todos os envolvidos. Os alvos, garante a Comissão Europeia, eram civis que estavam a dormir. Estamos a falar de crimes de guerra da ordem de grandeza dos de Mariupol?
Teremos de ver em termos de investigação, mesmo investigação que não seja necessariamente um julgamento, que isso levará mais tempo.
Se calhar, ordem de grandeza não é bem a expressão, mas enfim, do mesmo calibre.
Sim, a questão aqui é que não há bons crimes de guerra. Portanto, obviamente, sendo crimes de guerra, são sempre graves. Aqui o grande fator diferenciador e que permite caracterizar estes ataques como crimes de guerra é haver indícios fortes e eventualmente haver provas, de que são ataques realmente tendo como objetivo alvos civis, porque é essa a grande diferenciação. Acontece, infelizmente, na guerra acontece muito, haver ataques a alvos militares e eles, mesmo atingindo esses alvos militares, acabarem por atingir também civis que vivem nas proximidades ou tendo por objetivo alvos militares, por alguma razão, falharem esse alvo e acabarem por atingir alvos civis. Agora, isso é possível apurar-se, minimamente, se há ali algum tipo de instalação militar próxima ou não, ou se todos os sinais são de que os alvos são civis. Há, desde o início, indícios que apontam que a Rússia, a parte de tentar atingir eventualmente alvos militares ou alvos económicos com relevância militar, por exemplo, vias de comunicação, fábricas, portanto, a indústria, tem procurado maximizar o impacto, inclusive no sentido de aterrorizar e causar morte entre a população civil. Ou seja, estamos a falar, por exemplo, de fazer ataques durante o dia e não durante a noite. Por exemplo, escolher as horas de ponta. Aquele exemplo talvez mais extremo e mais chocante, um ataque em Mariupol àquele teatro que estava assinalado como tendo civis e crianças e é completamente destruído por um ataque obviamente deliberado, até porque à volta não havia nada, era um edifício com um parque à volta. Tudo isso aponta para um padrão que permite dizer que parece haver, em muitos casos, intencionalidade russa no sentido de atingir alvos civis. Isso é realmente um crime de guerra e um crime de guerra muito grave e portanto, obviamente merece condenação.
Bruno, e numa altura em que a China teve uma aproximação à Ucrânia e se fala deste reforço do eventual papel de mediação de paz por parte da China, esta intensificação dos ataques por parte da Rússia também é uma mensagem para o mundo e em particular para a China? Diz-nos que a China não tem esse ascendente que muitos de nós provavelmente julgamos que terá em relação à Rússia de Putin.
Eu acho que este é um ponto interessante e mais geral, que é: eu sou muito cético, acho que a história não aponta nada nesse sentido e nem sequer estamos a falar no passado de casos como é o caso da Rússia, de um país que se vê como uma grande potência e que é uma potência nuclear. Mas esta ideia de que as grandes potências impõem a paz a outros Estados que estão a combater quando eles não querem, é algo que a história nos mostra que tende sempre a falhar. Até pode acontecer formalmente eles assinarem um acordo de paz, mas depois, na prática, não respeitam esses acordos, a violência continua, o conflito é retomado passado pouco tempo. Portanto, eu sou muito cético em relação a essa tese Acho que não há razões para acreditar que aqui será diferente. Isso não quer dizer que não seja importante a pressão de potências importantes e, em particular, da China, que se tornou muito importante, por exemplo, economicamente e em termos de tecnologia de investimento para a Rússia, mas realmente não faz milagres. Quanto ao segundo aspecto da questão, acho que genericamente sim, ou seja, estes ataques também tendem a aparecer para tentar marcar um pouco a agenda midiática, na sequência de sucessos políticos e diplomáticos ucranianos. Tivemos aquele caso logo no início, por exemplo, quando Guterres visitou Kiev pela primeira vez, nesse próprio dia a capital ucraniana foi atacada. Portanto, há também esse padrão realmente nos ataques russos deste tipo, de procurar ser uma demonstração de força e um condicionamento da agenda midiática depois de haver algum tipo de acontecimento que pode ser apresentado como uma vitória da Ucrânia. E eu acho que, sem achar que isso vai completamente mudar a posição da China ou que signifique que a China agora passe a apoiar a Ucrânia, acho que objetivamente esta chamada entre o presidente chinês e o presidente da Ucrânia foi uma vitória política e diplomática da Ucrânia. Portanto, acho que sim, é crível que esse também tenha sido um fator que ajuda a explicar este ataque talvez um pouco mais intenso na sequência disso.
Bruno, estamos quase a fechar este Gabinete de Guerra. Num minuto, hoje é também notícia o facto de Putin ter mandado criar museus sobre a operação militar especial até ao final do ano. Isto é uma forma de doutrinação?
Sim, costumava ser no período da Guerra Fria que na Rússia o futuro era certo, porque obviamente ia ser um futuro radioso na Rússia, na União Soviética. O passado é que era incerto, porque estava sempre a ser alterado, nunca se sabia quem é que ia ser apagado da fotografia, porque tinha passado a ser um opositor do regime ou visto como um opositor do líder do momento. Portanto, acho que há uma longa tradição, infelizmente, de manipulação autoritária do passado, de imposição de uma certa leitura do passado, para legitimar o presente. E acho que no caso de Putin, a única coisa que se pode estranhar é que ele esteja com tanta pressa de marcar esse passado. Portanto, parece-me que é apesar de tudo um sinal de que ele reconhece que tem tido algumas dificuldades e portanto, é muito importante criar uma máquina de propaganda tão visível quanto possível para tentar disfarçar essas dificuldades e esses falhanços nesta dita operação militar especial na Ucrânia.
Assim, pelos olhos de Bruno Cardoso Reis, historiador, esta intenção de Vladimir Putin de criar museus sobre a operação militar especial até ao final do ano, numa altura em que passam sensivelmente 400 dias desde o início da ofensiva russa em território ucraniano. Foi mais um Gabinete de Guerra.