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Com o historiador Bruno Cardoso Reis, horas depois do ataque russo a Kramatorsk, que fez pelo menos 34 mortos. O ataque, aparentemente a resposta da Ucrânia, atacou uma refinaria de petróleo russa a 1900 km da fronteira. Anunciaram também as Forças Armadas ucranianas que atingiram, durante a noite, instalações ligadas à produção de mísseis em território russo. Bruno Cardoso Reis, boa tarde, bem-vindo. Que eficácia tem esta resposta por parte da Ucrânia, esta retaliação por aquilo que tem sido crescente intervenção militar por parte da Rússia torna este conflito mais próximo da mesa das negociações ou, pelo contrário, promove uma escalada deste conflito? Há outra saída? Tem outra saída a Ucrânia que não esta resposta a estes ataques?
Realmente, a Ucrânia tem direito a defender-se e o que há aqui que sublinhar é que apesar de tudo, tem-se defendido sem cair no mesmo tipo de ataques que a Rússia tem feito, ou seja, ataques completamente indiscriminados e que em muitos casos nem é propriamente a questão de ataques indiscriminados, são ataques que deliberadamente e claramente visam atingir a população civil, por exemplo, uma paragem de autocarro. Com os meios de aquisição de alvos que existem atualmente, vigilância, etc, é cada vez mais difícil tentar justificar dizendo que há algum tipo de erro ou algo desse tipo. E, portanto, realmente a Ucrânia tem apostado em fazer ataques em profundidade no interior da Rússia, que também afetam a população russa, nomeadamente na questão dos combustíveis, mas que sobretudo afetam a máquina de guerra, ou seja, instalações da indústria de defesa e depois tudo o que tem a ver realmente com a indústria petrolífera, que além de alimentar literalmente a máquina de guerra, que precisa obviamente de combustível, também é crucial para alimentar os cofres do Estado.
E tem sido eficaz a Ucrânia nesse propósito?
Tem sido eficaz na medida em que consegue atingir alvos cada vez mais longe. Tem tido um impacto significativo, realmente, na capacidade de produção, de refinação, de exportação russa, ao ponto do próprio presidente Donald Trump, por exemplo, de vir tentar utilizar isso para justificar a atual crise dos combustíveis, mas obviamente a Rússia não é assim tão relevante em termos do mercado internacional, anda à volta dos 5%. Os países do Golfo são responsáveis por entre 20 e 25%, portanto, obviamente é uma escala completamente diferente. Mas a questão é: se isso resolve o conflito ou se leva à mesa das negociações, claramente não. Ou seja, não tem levado. A mim parece-me que no caso da Rússia, Putin está convencido que o tempo trabalha a seu favor, que os europeus vão acabar por cansar, dividir e cansar, que isso já trabalhou a seu favor na questão dos Estados Unidos com a eleição do Donald Trump, que claramente aposta muito mais em manter boas relações com ditadores, com homens fortes como Putin, do que propriamente com os aliados democráticos tradicionais e, portanto, basicamente já deixou de dar apoio militar à Ucrânia, vendo algum armamento, mas uma coisa muito mais limitada. E enquanto não houver uma pressão muito mais forte sobre a Rússia que leve Putin a repensar esses cálculos e a ponderar que talvez não valha realmente a pena continuar o conflito ou que ele até pode ter resultados negativos mais difíceis de ocultar para o regime russo, não me parece que haja razões para ser muito otimista. Não sabemos também exatamente as condições na Rússia, as pressões que existem no interior do regime. Há realmente especulação de que pode haver aqui a possibilidade de um regresso às negociações com mediação americana, mas eu acho que mesmo isso não pode ser dado por garantido, o que já é significativo, e mesmo que se retomem negociações, não quer dizer que se vá avançar. Pode ser simplesmente as partes a tentarem manter Trump contente, não lhe dizerem abertamente que não, mas sem alterar o fundamental das posições, também um acordo será muito difícil.
Sublinhavas há instantes a importância do apoio à Ucrânia e que essa é uma responsabilidade que cai hoje essencialmente nos ombros da Europa. Continua a Europa a ter essa capacidade de manter o apoio no nível que é necessário a Kiev?
A Europa, sobretudo a Europa de Leste, Europa do Norte, os países mais próximos ou que fazem mesmo fronteira com a Rússia ou com a Ucrânia, têm um forte incentivo para evitar correrem o risco de que uma Rússia que tenha deixado de estar atolada no conflito na Ucrânia, com baixas de dezenas de milhares de soldados por dia, possa voltar para outros alvos. Portanto, estão a investir fortemente na sua própria segurança, em conter e em fazer pagar a uma Rússia predatória agressiva esta postura que de fato é muito ameaçadora para os seus vizinhos. A Europa mais afastada, a Europa, por exemplo, mais do Sul tem investido alguma coisa. Há um grande consenso no apoio à Ucrânia, mas obviamente não ao mesmo nível, porque não está tão diretamente ameaçada e, portanto, isso é a reação normal. Agora, há setores realmente em diversos países europeus importantes, em particular, estou a pensar, por exemplo, da França ou da Alemanha, que realmente são abertamente contrários à manutenção deste nível de apoio à Ucrânia. Por exemplo, o partido AfD, Alternative für Deutschland, aquele partido de direita radical que tem estado a subir nas sondagens e a ganhar ou a subir, pelo menos em eleições regionais na Alemanha, é muito claramente hostil a isso e muitos dos seus dirigentes são abertamente pró-Putin, pró-Rússia. A Marine Le Pen, o Rassemblement National mudou um pouco essa postura tão pró-russa, mas também deixa claro que não quer continuar a gastar tanto dinheiro na Ucrânia. Portanto, há realmente o risco de alguns países importantes, com grande peso, realmente poderem no próximo ano, nos próximos anos, de fato apoiarem menos a Ucrânia. Apesar de tudo, há um compromisso, por exemplo, ao nível da União Europeia, de vários milhares de milhões de euros Que já foi alcançado, que já está consagrado e há aí algumas garantias de alguma continuidade, mas realmente esse é um risco real. A mim parece-me que uma aposta importante de Putin já não é tanto enfraquecer a vontade de resistir dos ucranianos, porque isso claramente ele não está a ter grande sucesso, é sobretudo minar a vontade de apoiar dos aliados da Ucrânia. Ora, tendo em conta a enorme assimetria de poder, dimensões de fatores de poder entre a Ucrânia e a Rússia, a Ucrânia realmente precisa destes aliados para reequilibrar um pouco as coisas e conseguir resistir com o mínimo de eficácia a estes ataques russos.
Bruno, sugiro que viajássemos agora até ao Médio Oriente. Da última noite, a notícia de um ataque contra o aeroporto de Riade, na Arábia Saudita. Três mortos, vários feridos, um ataque com mísseis balísticos atribuído aos rebeldes xiitas houthis do Iémen. O que representa este ataque?
O que representa realmente é uma tendência muito preocupante de desestabilização desta região, de pôr em questão tudo o que são infraestruturas civis e de comunicação, transporte. E isso realmente é algo que é muito fácil de fazer. Ou seja, estes movimentos, o Irão podem estar a sofrer grandes perdas em termos de equipamento militar, de baixas, etc. Mas a verdade é que para este tipo de coisas, os houthis só precisam de acertar uma vez, os sauditas têm de acertar 100% das vezes. E obviamente, o resultado é muito para além do impacto físico do ataque. Porque o resultado é que muitas companhias aéreas já anunciaram que vão deixar de voar durante os próximos dias para a Arábia Saudita por questões evidentes de segurança. Portanto, isto é uma violação também grosseira das leis da guerra, se quisermos, um crime de guerra, não se pode atingir deliberadamente alvos civis. Isso é uma regra universal, aplica-se a Estados, aplica-se a não Estados, a forças armadas, a grupos de guerrilha ou o que for, porque obviamente tem como objetivo proteger a vida de civis que estão desarmados e são vítimas indefesas. Mas realmente estes movimentos não ligam para isso. Enfim, passam o tempo também a falar da lei internacional e de como os Estados as têm de respeitar, mas depois não fazem e realmente conseguem ter aqui um impacto desproporcional, como eu dizia, em relação ao efeito cinético, ao efeito direto do ataque. E portanto, é exatamente essa a aposta dos houthis. Agora, vamos ver qual é a reação também saudita. Por um lado, se conseguem melhorar as suas defesas antiaéreas, porque de facto a Arábia Saudita é o país do Médio Oriente que mais investe em defesa, de longe, portanto, teria dinheiro para isso, se conseguem ser mais eficazes e eventualmente, se como resultado disso, ou tentam chegar a um compromisso quase a qualquer preço e portanto reduzem o seu apoio ou cortam o seu apoio aos grupos que no Iémen combatem os houthis, que é claramente o objetivo deste grupo, ou se, pelo contrário, no fundo, isto ainda incentiva mais os setores na Arábia Saudita que dizem que isto não pode continuar assim e que há que reforçar os ataques contra os houthis em aliança com as forças que no Iémen, o governo internacionalmente reconhecido, desde logo, mas uma série de forças que no Iémen realmente também se opõem aos houthis e que têm estado a intensificar os seus ataques nas últimas semanas.
Sendo que há dias foi notícia um avanço do governo do Iémen que teria controlado Mocha e Bab el-Mandeb aos houthis, esta cidade portuária de Mocha, estratégica no controle do mar Vermelho. A verdade é que, aparentemente, a capacidade militar do movimento xiita não foi abalada a ponto de ficar incapacitado de lançar este tipo de ataques.
Sim, o ponto aqui é que temos sempre de ter algum cuidado, mas há realmente vários órgãos de comunicação com fontes e temos vídeos também que estão geolocalizados, que parecem realmente mostrar uma contraofensiva com algum sucesso nessa zona costeira, que por um lado não é uma zona tradicional de apoio dos houthis, que se concentram mais na zona do norte mais montanhoso e interior, e por outro lado, como é uma zona mais plana, costeira, é muito mais vulnerável a ataques aéreos, à utilização de meios mais convencionais. Agora, o fato de os houthis aí estarem a recuar não quer dizer que estão a recuar por todo o Iémen. Há também informações de que, por exemplo, poderão estar a avançar na zona Taiz, que é a antiga capital do reino de Sabá e é uma cidade muito importante no nodo de comunicações no interior norte que ainda é controlado pelas forças que se opõem aos houthis, pelo governo internacionalmente reconhecido, porque aí realmente é uma zona que à partida é mais propícia ao tipo de combate, meios de táticas que os houthis utilizam. E depois, sobretudo também não quer dizer que eles não continuem a ter esta capacidade de retaliação assimétrica, de lançarem uns quantos mísseis e enfim, basta que um deles não seja interceptado ou uns quantos drones, basta que um deles não seja interceptado e depois atingem infraestruturas civis de aeroportos ou poços de petróleo, ou o que seja, na Arábia Saudita e portanto, para isso não é preciso meios muito sofisticados ou muito numerosos. E portanto, todas estas coisas podem estar a acontecer ao mesmo tempo. É isto que torna a análise dos conflitos armados uma coisa interessante, mas também complicada. Não quer dizer que em todas as frentes esteja a acontecer no mesmo sentido, vá no mesmo sentido. Podemos ter recuos num lado, avanços no outro, dificuldades num combate mais convencional, mas depois sucessos na utilização destes meios menos convencionais.
E é o que mantém vivo também este programa da Rádio Observador, Gabinete de Guerra, onde procuramos analisar algumas das notícias relacionadas com os conflitos em curso, em particular, e neste caso, no Médio Oriente e na Ucrânia. Contou com a presença habitual aqui na antena do Observador, do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, até breve.
Obrigado.