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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é por aqui que todos os dias analisamos as principais novidades dos dois conflitos, tanto na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje, para nos ajudar, temos conosco o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo, boa tarde.

Olá, boa tarde, obrigado.

Vamos começar na guerra da Ucrânia, sendo que temos declarações de Volodymyr Zelensky. Diz o presidente ucraniano que a Ucrânia precisa usar armas de longo alcance dentro da Rússia e pede a Biden para acreditar mais na Ucrânia. Pergunto, Bruno, Biden deve fazê-lo e aceitar este pedido ou é arriscado fazer?

Eu acho que, em primeiro lugar, há que deixar aqui mais uma vez as coisas claras. Infelizmente, às vezes é preciso voltar a repetir o óbvio, que é mesmo o debate em Portugal, ouve-se falar muito em escalada. Escalada aqui é uma nova ofensiva russa contra a segunda maior cidade da Ucrânia, contra Kharkiv, tem mais de um milhão de habitantes, ataques indiscriminados contra alvos civis, como aquele que aconteceu ainda há poucos dias contra um centro comercial em Kharkiv. Isso é que é a escalada. A Ucrânia defender-se e exercer o seu direito à legítima defesa, inclusive atacando alvos militares no interior do território russo, é o normal numa guerra. O que não é normal numa guerra é o lado que está a invadir exigir que o lado que está a ser invadido não o ataque a ele, não o contra-ataque, respeite o seu território como uma espécie de santuário. Agora, isso significa que a Ucrânia pode usar de qualquer maneira as armas ocidentais? Não, desde logo não pode usar, por exemplo, contra alvos civis. Isso seria um crime de guerra e os países ocidentais têm leis que impedem continuar a fornecer armamento nesses casos. Além disso, a questão aqui é saber se faz sentido outras restrições. Do meu ponto de vista, podem fazer sentido algumas restrições. Há muito tempo que eu acho que as restrições são excessivas e, portanto, mesmo este alargamento é um passo muito importante e eu diria indispensável neste momento, permitir ataques contra concentrações de tropas, artilharia, etc, que estejam no interior do território russo para atacar, por exemplo, a zona de Kharkiv, mas não me parece que isso se justifique apenas em relação à zona de Kharkiv, devia ser em toda a linha da frente, e genericamente contra alvos militares, pelo menos que estejam envolvidos no ataque à Ucrânia. E, portanto, não atacar alvos que tenham a ver, por exemplo, com o arsenal nuclear russo. Isso já poderia ser uma linha vermelha que faria sentido. Em todo caso, acho que aquilo que Zelensky está a dizer, no fundo, é que nós não temos dado nenhuma razão para os aliados ocidentais pensarem que estamos a abusar na utilização dos sistemas de armamento que nos são dados. Os ataques no interior do território russo feito com armamento ucraniano e com algum armamento ocidental de países que já o autorizam, foram sempre contra alvos militares. E portanto, no fundo, é nesse sentido que eu entendo aqui este apelo de Zelensky. Agora, é verdade também que é legítimo que um país que fornece armamento imponha alguns limites à sua utilização. O que me parece que é discutível é se isso corresponde realmente aos verdadeiros interesses e valores dos Estados Unidos, se é necessário para evitar uma escalada perigosa. E portanto, do meu ponto de vista, a resposta, em grande parte, é não, tirando nestes casos que eu referi.

E Bruno, ainda relativamente à guerra na Ucrânia, entretanto, Moscovo avisa que o uso de armas dos Estados Unidos para atacar território russo pode dar início a uma guerra na NATO. A Rússia e Putin têm razão aqui neste aviso ou o fato de se utilizarem as armas acaba por não vincular diretamente a NATO?

Tivemos ameaças até do presidente Putin gravíssimas contra os pequenos países da NATO que se atrevem a ajudar um país a defender-se. Portanto, no fundo, a ameaçar com ações armadas. Não sabemos, provavelmente não diretamente da Rússia, porque a Rússia não parece ter condições para isso. A guerra na Ucrânia não está propriamente a correr-lhe bem. Não me parece que esteja interessado realmente em iniciar abertamente um conflito contra países da NATO que estão muito mais bem armados, que fazem parte de uma aliança que é a mais robusta em termos militares da história, mas sabemos que temos tido muitas notícias credíveis de que a Rússia está a aliar-se com gangues, com criminosos, com a criminalidade organizada em vários países da Europa para tentar fazer ações de sabotagem. Portanto, algum risco desse tipo poderá existir, mas a verdade é que esse tipo de ações de sabotagem, de ataques, assassinatos de dissidentes russos, mesmo pondo em risco a população civil de países europeus, já estavam a acontecer antes sequer da invasão da Ucrânia de fevereiro de 2022. Agora, se isso é legítimo? Não, não tem nenhuma legitimidade na lei internacional. A única coisa legítima é a legítima defesa e a legítima defesa do país que está a ser atacado e o direito e até dever dos outros países de o ajudarem nessa legítima defesa. Portanto, em termos da lei internacional, não há nenhuma legitimidade para isso. Em termos de precedentes históricos, também seria uma escalada sem precedentes, ou seja, ainda mais se estivermos a falar de coisas como utilizar armamento nuclear. Eu pergunto, alguma vez os Estados Unidos, quando estavam a combater grupos armados com armamento fornecido pela União Soviética, usaram armamento nuclear tático contra esses países, contra o Vietname, contra o Afeganistão ou os Talibã agora, contra o Paquistão, que estava a apoiar os Talibãs no Afeganistão? A própria União Soviética alguma vez fez isso quando foi derrotada, por exemplo, na sua guerra também no Afeganistão. Os Estados Unidos não fizeram isso quando os soviéticos estavam a fornecer não só aviões, mas aviões com pilotos russos, com mísseis russos, com as cores da Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia entre 1950 e 53, em que, aliás, o arsenal nuclear americano era muitíssimo superior ao soviético e não utilizaram armamento nuclear nesse contexto. Portanto, não há nenhum precedente, nenhuma razão, nenhuma justificação para isso acontecer.

Bruno, vamos ainda falar sobre a guerra no Médio Oriente e hoje tivemos a notícia de que as tropas israelitas afirmam que o combate a norte de Gaza acabou. Este pode ser um primeiro passo para um cessar-fogo?

Não sei, por um lado, se é muito rigoroso. Israel já foi obrigado a regressar a zonas do norte de Gaza que tinha declarado como estando limpas de grupos armados do Hamas. Esperemos que sim, seria uma boa notícia desde logo pra população civil e provavelmente facilitaria avançasse para um acordo. Também tivemos declarações de responsáveis israelitas a dizer "não assinaremos um acordo de cessar-fogo prolongado ou até definitivo sem a libertação de todos os reféns", mas isso já é mais próximo daquilo que o Hamas também tem estado a reclamar, que é no fundo exatamente um compromisso do fim da guerra. Talvez mais importante do que isso são estas operações na zona de fronteira de Rafah, este corredor ao longo da fronteira com o Egito, que Israel diz que já controla. Isso realmente poderá ser fundamental para os israelitas conseguirem eliminar os túneis que permitem o contrabando de armas a partir do Egito e portanto terem aqui condições para poderem declarar uma certa vitória, para poderem dizer que o Hamas não se poderá reconstituir em termos de capacidades militares, pelo menos não com a facilidade que teve no passado. Portanto, pode ser que sejam realmente passos militares, mas que acabem por ter algum efeito positivo no processo negocial e eventualmente no cessar-fogo.

Bruno, ainda na guerra no Médio Oriente, temos os ataques dos Estados Unidos e do Reino Unido no Iémen contra a ação dos houthis. São ataques que provocaram 16 mortos. Qual é o significado também destes ataques no dia de hoje?

E entretanto soubemos que os houthis já terão retaliado tentando atacar o principal porta-aviões, o Eisenhower, dos Estados Unidos nesta região, sem resultado, porque obviamente é um navio muito bem defendido. Mas isto mostra uma escalada novamente nesta região. Houve uma certa acalmia depois daquela escalada entre o Irão e Israel. Houve sinais de que o Irão teria dado indicações para os grupos armados que apoia, que patrocina, que financia, que arma na região para reduzirem um pouco as ações armadas, mas isso terá acabado. E portanto, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha consideraram necessário fazer ataques contra as bases dos houthis depois de uma escalada nesses ataques contra a navegação civil no Mar Vermelho e houve aqui uma retaliação. À partida, isto mostra que o problema não está resolvido, que o risco permanece e que as ações militares dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha podem ajudar um pouco a conter o risco, mas estão longe de o conseguir eliminar.

Bruno Cardoso Reis, ficamos por aqui por hoje no Gabinete de Guerra. Vai regressar na próxima segunda-feira, sempre à hora habitual, depois das 16h10, depois do jornal das 16h. Obrigado, Bruno. Até amanhã com os Cinco Continentes. O Gabinete de Guerra regressa na próxima segunda-feira. Obrigado.

Até amanhã.