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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os conflitos em curso, um na Ucrânia e outro no Médio Oriente. Eu sou o João Gama e hoje contamos com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. O Parlamento ucraniano aceitou hoje a demissão de Dmytro Kuleba. Andrii Sybiha é o sucessor, já foi embaixador da Ucrânia na Turquia até 2019. Em 2021, integrou a administração de Volodymyr Zelensky e ainda em abril deste ano foi transferido para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. O que nos diz esta mudança na pasta da diplomacia ucraniana?

Olá, boa tarde. Eu penso que mostra que há aqui uma linha nesta remodelação, que é realmente de colocar pessoas da máxima confiança do presidente e reforçar uma certa centralização do poder, uma certa concentração das decisões em Zelensky. Nós sabemos que Kuleba era um ministro bastante veterano, muito conhecido também no exterior e, portanto, por vezes, ocasionalmente, havia declarações que podiam não coincidir exatamente com aquilo que o presidente estava a dizer. Não em relação a nada de fundamental, mas isso acontecia ocasionalmente e, portanto, pode-se interpretar isto como uma tentativa de ter aqui um governo mais disciplinado e mesmo outras nomeações vão um pouco nesse sentido. Alguns dos ministros que saíram passaram para a administração presidencial, para o gabinete alargado do presidente, que faz a ligação com os diferentes ministérios e algumas figuras que estavam realmente nesta administração presidencial central passaram agora a chefiar ministérios e, portanto, parece-me que é um pouco essa a linha que podemos deduzir aqui desta remodelação. Isso pode ter uma vantagem, que é num contexto que se adivinha difícil, que o próprio presidente Zelensky diz que será difícil de chegada do inverno, uma pressão militar forte da Rússia no Leste, pressão eventual para negociar de alguns países europeus, por exemplo, da Alemanha, e a questão das eleições americanas, em que sobretudo se ganhar Trump, isso pode complicar muito a vida à Ucrânia. No fundo, a ideia é ter aqui um governo mais coeso, mais disciplinado, pode ser interessante. O risco é que se crie aqui uma certa dinâmica de ninguém questionar Zelensky, de haver um excesso de coesão à disciplina que leve que mesmo decisões mais questionáveis não sejam questionadas e isso pode ser eventualmente um risco ou um problema também em termos do nível de apoio que é importante conseguir na Ucrânia, ou seja, esta ideia de que é importante que o governo seja realmente o mais possível um governo de união nacional em um contexto de uma guerra de resistência nacional e que não seja visto como um governo muito acantonado apenas num partido político ou numa linha política. Portanto, há aqui esta opção, mas há também este risco.

Notas então uma deriva autoritária, como até já tem sido apontada a Volodymyr Zelensky, por causa desta remodelação?

Não, isso não me parece que se possa dizer. Desde logo, se quisermos falar em regime autoritário, aí temos o caso da Rússia, onde desde 2000 que o presidente é sempre o mesmo ou o chefe de governo é sempre o mesmo. Mudou de cargo, assumiu o primeiro-ministro, mas na prática continua a controlar o poder e onde as remodelações são raríssimas e são claramente decididas exclusivamente por um homem que é Putin. Na Ucrânia, apesar de tudo, o Parlamento tem aqui uma palavra a dizer, embora seja verdade que o partido do presidente tem maioria no Parlamento, mas até há essa figura, por exemplo, não existe em Portugal, que é embora o chefe do Executivo seja o presidente, no modelo ucraniano, que é mais presidencial, e não o primeiro-ministro propriamente, o Parlamento tem de confirmar, por um lado, a demissão, tem de aceitar a demissão e tem de confirmar o novo nome, portanto, há esses mecanismos de controle. Agora, é verdade que parece haver aqui uma intenção de maior concentração, maior disciplina, maior centralização, e isso tem merecido algumas críticas de alguns elementos da oposição. Eu penso que pode-se perceber isso no contexto de uma guerra, muitas vezes é realmente essa a tendência. Aconteceu em muitos outros casos. O primeiro-ministro, por uma questão de eficácia, concentra mais poder. Eu recordo, por exemplo, o Churchill na Segunda Guerra Mundial, inclusive acumulou as funções de primeiro-ministro e de ministro da Defesa, mas é importante ao mesmo tempo conseguir garantir que há aqui alguma diversidade de pontos de vista, que há alguma capacidade de figuras que fazem um pouco frente ao líder desse esforço de guerra, de continuarem a trabalhar e poderem expressar um pouco essas visões divergentes. Parece-me exagerado, sobretudo não se pode ignorar que realmente estamos num contexto de guerra e à partida os limites legais e constitucionais parecem estar a ser respeitados.

Vladimir Putin deu esta manhã uma conferência de imprensa, assegura, Bruno, que nunca recusou negociações com a Ucrânia e recorda as negociações discutidas em Istambul para um cessar-fogo já em março de 2022. Pergunto como uma provocação: a guerra continua por culpa da Ucrânia, pelo menos na visão do Kremlin?

Sim, na visão do Kremlin, por lá nem há guerra. Supostamente é uma operação militar especial. Depois, a culpa da guerra é de toda a gente, menos da Rússia, menos do país que invadiu com quase 200 mil soldados, um país vizinho cujas fronteiras tinha garantido em troca de receber as suas armas nucleares. Realmente é essa a narrativa russa. Depois aí temos várias variantes. Uma delas é esta conversa das conversações em Istambul, em que supostamente o acordo estava fechado. Seria a primeira vez na história que um acordo de paz Era fechado por negociadores de segunda ou terceira linha, sem que houvesse uma decisão, uma palavra última dos líderes máximos dos respectivos países beligerantes. E mesmo no próprio Parlamento, o próprio presidente Zelenskyy disse sempre que uma decisão dessas até teria de ser submetida a um referendo. Portanto, nada disso tem nenhuma credibilidade para quem sabe o mínimo de história diplomática ou de história militar. Mas realmente são essas as narrativas russas. Agora, é verdade que a posição negocial, as condições para uma negociação por parte da Ucrânia e por parte da Rússia são completamente incompatíveis e é por isso também que, por exemplo, toda essa conversa sobre Istambul não tem grande credibilidade. A Ucrânia insiste que a única forma de levar a sério uma negociação e da Rússia mostrar que desta vez está de boa fé, e não ao contrário das várias outras vezes em que assinou acordos a dar garantias de segurança, de fronteiras, etc., a Ucrânia depois os violou, é realmente a Rússia aceitar aquilo que é o princípio básico da lei internacional desde 1945. Não há guerras de conquista, portanto, estas anexações são ilegais. A esmagadora maioria dos países das Nações Unidas também já declarou isso por duas vezes, em duas resoluções na Assembleia Geral e, portanto, a Rússia tem de retirar desses territórios ilegalmente ocupados. E a Rússia o que diz é que a condição para a paz, no fundo, é a Ucrânia aceitar perder estes territórios, até aqueles que a Rússia ainda não conseguiu ocupar completamente militarmente, e de caminho ainda vai fazendo exigências sobre mudanças de governo, etc. Portanto, no fundo, transformar a Ucrânia numa espécie de satélite, mesmo que formalmente independente, na prática subordinada a Moscou. E portanto, realmente essas condições são completamente incompatíveis umas com as outras e torna-se muito difícil quando as pessoas dizem que é muito difícil ver um caminho para uma vitória militar. É verdade, mas a minha resposta é também é muito difícil ver um caminho fácil e evidente para uma saída negociada, para uma verdadeira paz negociada, porque as posições das partes são realmente completamente incompatíveis.

Nesta conferência de imprensa, Bruno, e acredito que não estou irônico, estou aqui escorrendo da citação da Ria Novosti, o presidente da Rússia disse que iria seguir o conselho do atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e apoiar a candidatura de Kamala Harris à Casa Branca por causa do seu riso contagiante. Que mensagem é esta e isto rouba votos à candidata democrata?

Eu estou um pouco de acordo com o que diz, ou seja, acho que neste caso, Putin se queria ser levado a sério, não conseguiu disfarçar muito. Portanto, o tom em que são feitas essas declarações realmente torna-as muito pouco críveis. Isso não quer dizer que Trump não aproveite isto para dizer: "Bem, o próprio Putin diz que quem ele apoia é a Kamala Harris". Aliás, já fez isso mais que uma vez, portanto no fundo ser aqui uma espécie de ativo propagador destas estratégias de informação russa. Mas a verdade é que as provas vão todas no sentido oposto e até, às vezes, declarações dos próprios responsáveis russos. Portanto, nós temos provas. Houve todo um processo judicial feito pelo FBI de envolvimento direto, por exemplo, das informações militares de uma unidade encarregue destas estratégias de desinformação da GRU, dos serviços de informações militares russos em 2016, e obviamente apoiaram Trump abertamente contra Hillary Clinton. Ora, a única coisa que mudou desde então é que começou uma guerra na Ucrânia e sabemos que Donald Trump, um dos candidatos, diz que quer acabar com ela o mais depressa possível e acabar com o apoio militar à Ucrânia e outra, a atual vice-presidente, quer continuar, no fundo, a política de apoio à Ucrânia. Portanto, é bastante evidente de que lado é que está o interesse do atual regime russo, que fez desta campanha, desta invasão da Ucrânia, uma prioridade e em que é evidente que o apoio militar americano tem criado enormes dificuldades, tem tornado a resistência ucraniana muito mais eficaz. Portanto, realmente acho que isso não merece nenhuma credibilidade. Pode ser vista como uma manifestação de ironia e também dar uma ajuda indireta a estes esforços da campanha Trump, sempre a utilizar este tipo de declarações para criar uma certa confusão sobre onde é que estão realmente os interesses russos e parece-me bastante evidente, neste caso, estão numa vitória de Donald Trump em novembro.

Deixa-me aproveitar também as declarações de Vladimir Putin para fazer o ponto para o Médio Oriente, até porque o presidente russo disse que vai fazer tudo o que for possível para resolver o conflito no Médio Oriente. Qual é o interesse de Moscou de ser um player nesta região?

Bem, o principal é exatamente isso. A União Soviética teve sempre muitas dificuldades em entrar no Médio Oriente. Teve alguns fracassos importantes. Por exemplo, chegou a conseguir, no fundo, uma espécie de aliança com o Egito, mas acabou por haver uma reversão dessa aliança. O Egito voltou a aproximar-se dos Estados Unidos. A Síria foi o seu principal ponto de apoio. Isso voltou a acontecer agora. Putin conseguiu também por uma série de erros também de estratégia dos países ocidentais e, em particular, dos Estados Unidos, ganhou margem de manobra para intervir na guerra civil síria ao lado do regime de Assad e acabou por terem um papel muito importante. Isso também levou a uma aproximação com o Irão. As relações com o Irão foram sempre bastante complexas há muitos séculos entre a Rússia e o Irão, e mesmo no período mais recente, nas últimas décadas da Segunda Guerra Mundial, mas tem havido aqui uma convergência grande. E isso realmente permitiu à Rússia voltar a ter um papel muito mais ativo na região, geralmente em sentido extremamente negativo. Por exemplo, no caso da Síria, é preciso recordar que a Rússia bombardeou zonas civis, hospitais, ajudou o regime sírio a utilizar armas químicas, etc. Mas a verdade é que isso teve um custo terrível para os civis sírios, mas foi eficaz do ponto de vista da Rússia voltar a ganhar algum protagonismo, alguma influência. Agora, esta ideia de que a estratégia russa no Médio Oriente é uma estratégia de paz, isso realmente, mais uma vez, é completamente risível e incrível, não tem nenhuma credibilidade. A Rússia tem sido um grande promotor de conflitos Na região, tem sido muitas vezes até um participante ativo nesses conflitos e, portanto, isso não é crível. Pelo contrário, no contexto atual ainda mais interessa à Rússia que estes conflitos se mantenham ativos, porque isso desvia atenções, desvia críticas da Rússia para as focar nestes conflitos no Médio Oriente, obriga os próprios países ocidentais e os próprios Estados Unidos também a desviar esforços e multiplicar esforços. Portanto, tudo isso é útil do ponto de vista da estratégia diplomática e política e até militar da Rússia.

Bruno, uma última pergunta, estamos a chegar perto das 16h30. Ainda hoje, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, veio dizer numa entrevista à Fox News que um acordo de cessar-fogo não está próximo e culpou a intransigência do Hamas para estas negociações. Vamos ver um cessar-fogo no Médio Oriente em curto tempo?

Eu tenho sido sempre muito cético e infelizmente tenho acertado nesse ceticismo. O que explica esse ceticismo é o peso que tem, e o peso aliás crescente, nomeadamente confirmado com a nomeação do novo líder Sinwar, o homem mais duro da ala dura do Hamas como líder do conjunto Hamas. Explica-se pelo peso da linha dura no Hamas e também pelo peso da linha dura em Israel, a saída dos últimos moderados do governo, do general Gantz, isso tornou Netanyahu ainda mais dependente dos partidos de extrema-direita, que são completamente hostis às negociações. Eu diria que a única coisa positiva nessas declarações é que, apesar de tudo, Netanyahu não cedeu completamente à pressão dos partidos de extrema-direita, que era para acabarem as negociações para algum eventual cessar-fogo e portanto continua a jogar aqui num certo equilibrismo, dizer que se não há acordo é por causa do Hamas. Na verdade, parece-me evidente que é porque as duas partes, de facto nunca conseguiram chegar a um compromisso e não parece haver grande interesse da parte da liderança de um lado e do outro em chegar a esse compromisso.

Agradeço. Bruno Cardoso Reis, historiador, esteve conosco no "Gabinete de Guerra" a analisar os dois conflitos em curso, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. Boa tarde.

Obrigado.

Quanto ao "Gabinete de Guerra", está de regresso já amanhã.