Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. É por aqui que analisamos tudo aquilo que acontece nos dois principais conflitos a nível mundial, não só na guerra na Ucrânia, mas também na Faixa de Gaza. Hoje, para isso, junta-se a nós Pedro Nascimento, investigador de História Militar. Está aqui conosco em estúdio. Pedro Nascimento, bem-vindo. Obrigado mais uma vez por estar conosco aqui no Gabinete de Guerra. Vamos começar com a guerra na Faixa de Gaza. O Conselho de Segurança da ONU vota esta quarta-feira a resolução que exige um cessar-fogo permanente. Pergunto se terá pernas para andar.
Boa tarde. Antes de mais, obrigado pelo convite. É sempre um gosto estar cá. Eu diria que, de uma forma muito simples, as resoluções do Conselho de Segurança da ONU não param tanques. Efetivamente, nós temos percebido isso essencialmente desde o início da invasão russa à Ucrânia, que as implicações que tem no terreno são muito poucas. Talvez haja um caso que nós podemos classificar como o melhor exemplo da insustentabilidade de um governo em manter um rumo, que foi na África do Sul com o apartheid. Aí a questão acabou por tornar a situação do governo da África do Sul insustentável e podemos dizer que sim, teve um efeito claro. Infelizmente, aquilo que nós temos reparado é que estas resoluções acabam por ser inócuas. Na verdade, pode ter um pequeno efeito, que é potenciar cada vez mais esse isolamento internacional de Israel, mas no terreno, e infelizmente, as repercussões são muito poucas. E depois nós temos aqui outra questão que não podemos olvidar: é que o secretário-geral da ONU, António Guterres, no início, a reação que teve perante a guerra em Gaza foi muito tendenciosa. Ele acabou por não cumprir o papel de imparcialidade que está inerente ao secretário-geral da ONU. E isso obviamente fez e faz com que Israel tenha sempre algo a que se agarrar para apontar a imparcialidade da ONU. Mas sem querer alongar ou estar a antecipar eventuais questões que poderá fazer, eu acho que é importante nós ressalvarmos aqui. Se por um lado temos esta questão de Guterres, por outro lado temos esta nova ofensiva, que certamente vamos falar, de Israel. E portanto, tudo isto faz com que as posições estejam completamente extremadas e depois não haja respeito de um lado e do outro pelas posições e infelizmente estamos a caminhar para um caminho que parece sem solução à vista.
Pedro Nascimento, precisamente Israel interrompeu, pelo menos do que nos chega da Faixa de Gaza, Israel terá interrompido a ajuda humanitária esta quarta-feira. Israel terá dito também aos palestinianos para evitarem estradas de acesso a centros de distribuição. Pergunto se isto significa que a estratégia de Israel de atacar a Faixa de Gaza é efetivamente para continuar.
Deixe-me só fazer aqui uma nota introdutória, porque eu não sou suspeito, porque ao longo das minhas intervenções, sempre fui um defensor do direito à defesa por parte de Israel. Mas a verdade é que neste momento, dizer aos palestinianos para evitar esses corredores ou acesso, é basicamente cortar uma ajuda humanitária sem o assumir. E a história diz-nos, efetivamente, que normalmente as fações, os países, as nações que tomam essa atitude acabam no fim por ser prejudicados. Basta ver o grande exemplo que foi dos britânicos na Índia colonial ou dos sérvios em Sarajevo. Ou seja, há uma perda de capital moral e um isolamento diplomático à conta destas ações, que acaba por prejudicar o país que as perpetra e neste caso é Israel. Se fizemos aqui uma comparação com uma figura do direito, por exemplo, que toda a gente perceberá, mesmo os leigos na matéria, a questão da legítima defesa. A legítima defesa é uma causa da exclusão de ilicitude de determinados comportamentos. A verdade é que quando essa legítima defesa é excessiva, a atenuante que se espera que haja no tribunal perante uma legítima defesa, deixa de existir. E deixa de ser considerado, noutras situações, mesmo legítima defesa. E é um pouco aquilo que se está a passar aqui em Israel, porque nós temos uma operação, e isto também é interessante nós apontarmos, que é a Chariots of Gideon. Isto tem um valor simbólico, porque Gideon é uma personagem cuja história é contada no Livro dos Juízes, Antigo Testamento da Bíblia, e Gideon terá comandado 300 soldados contra os midianitas, que eram muitos mais. Isso não é a história dos 300 de Esparta, é outra questão. E venceu, porque houve uma estratégia cirúrgica e minuciosa por parte desta personagem, e os israelitas ao escolherem este nome, parece que estão a dar a entender que vai ser, ou pelo menos desenrolar-se-ia daqui para a frente, de umas semanas atrás, daqui pra frente, uma estratégia minuciosa e cirúrgica para acabar com o Hamas. Não é isso que nós temos visto E eu faço aqui uma comparação, por exemplo, com a astúcia dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi a Batalha das Ardenas, já no inverno de 1944, 1945, que deram o nome de Wacht am Rhein, que era a vigília sobre o Reno. Este nome dá a entender a um adversário, neste caso aos aliados, que estariam dispostos a defender o território alemão, ou seja, vigia sobre o Reno para ver se eventualmente poderia haver ataques. Mas neste caso aqui de Israel, quando dão este nome, podem tentar efetivamente enganar um adversário ou enganar mesmo a comunidade internacional. Mas basta percebermos pelas imagens que nos chegam, que efetivamente não está a ser uma intervenção cirúrgica, está a ser uma guerra total e Israel não está a admiti-la. Ora bem, o que é que pode resultar daqui? Um isolamento cada vez maior. Só que também há um ponto que nós devemos referir. Quando falamos de Israel, neste caso, estamos a falar deste governo de Israel, Netanyahu. É importante nós referirmos isso, porque há uma grande diferença entre o governo de Israel e a comunidade israelita.
Mas sobre isso podemos então passar aqui ao próximo tema, Pedro Nascimento, que é o fato de a oposição israelita pedir na próxima semana a dissolução do Parlamento, que é uma medida que vai forçar eleições antecipadas. Que impacto é que estas eleições antecipadas podem ter na guerra?
Nós temos que perceber que intenção é que está subjacente, quais são as razões que levam a oposição israelita a pedir esta dissolução. Efetivamente, as informações que nos chegam é que o que está em causa é a isenção do serviço militar a determinados grupos, nomeadamente aqueles que estudam em escolas religiosas, e esta isenção já é proveniente dos anos da fundação de Israel. Portanto, aqueles partidos que estão mais nos extremos estão descontentes com o fato de essa isenção não operar na sua plenitude e, portanto, estão cada vez mais contra a posição de Netanyahu. Ou seja, esta discórdia não é por causa da guerra em si, é pelo álibi político que Netanyahu tem feito da guerra. Nós também tivemos outras situações em Israel, noutras guerras, em que houve uma mudança de governo, mas os confrontos continuaram. Ou seja, se nós formos muito claros a fazer uma questão, se Netanyahu cair, a guerra vai acabar? Claro que há um conjunto de circunstâncias que influem as situações que nós não podemos dizer e ter a certeza do que vai acontecer, mas é muito pouco provável. Os termos da guerra poderão ser diferentes. Agora, este problema é um problema secular e, portanto, não vai acabar se eventualmente Netanyahu desaparecer do sistema. Mas aqui, como eu disse, a discórdia é essencialmente pelo álibi político que Netanyahu criou com a guerra e não a própria guerra em si.
Pedro Nascimento, temos de acelerar. Vamos à guerra na Ucrânia. Vamos olhar para uma entrevista à Fox News de Kit Kellogg, enviado especial do presidente norte-americano pra Ucrânia. Considera que o risco de uma escalada aumentou depois da operação Spider Web. Isto porque a Rússia viu-se fragilizada a nível internacional face a outras potências no que toca ao seu armamento nuclear. Estes ataques ucranianos podem ser, no fundo, um gatilho para uma resposta mais robusta da Rússia?
Por aquilo que nós temos visto, sim, mas eu acho que aqui nós devemos vincar que temos aqui bem presente um brotar daquilo que se chama brinkmanship, ou seja, uma estratégia de levar um perigo que é real até o limite com o intuito de fazer o adversário ceder. Vimos isso, por exemplo, na crise de mísseis de Cuba, entre Kennedy e Khrushchev, que basicamente estavam os dois sempre a levar ao limite essa potenciação do perigo e acabaram depois por ceder ambos. E, por exemplo, Trump e a Coreia do Norte no seu primeiro mandato. Ou seja, efetivamente, esta estratégia de brinkmanship pode evitar uma escalada, mas a verdade é que também a pode potenciar. E nós já estamos habituados a ouvir, principalmente aqueles que gostam de ser mais expansivos, por exemplo, Medvedev, falar sempre da capacidade nuclear que a Rússia tem. É verdade que esta operação cirúrgica da Ucrânia acabou por criar uma vergonha e um embaraço na Rússia, com o qual não contavam, principalmente junto de parceiros, como por exemplo, a China e o Irã, e eventualmente a Índia, porque ficaram numa posição de fragilidade e vulnerabilidade. E isto vai acabar por ter um marco na forma como se constrói e como se desenvolve a própria guerra. Porque a verdade é que a Rússia ficou numa situação que estava completamente à vontade e do nada viu as suas bases militares atacadas com total surpresa. E isto pode dar outro arcavoz à Ucrânia para eventuais negociações, mas a verdade é que também pode potenciar um perigo que eu penso que vai acabar sempre por existir.
Olhando por outro lado, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, propôs um cessar-fogo até à realização de uma reunião entre ele e o presidente russo, Vladimir Putin. Já do lado da Rússia, Sergey Lavrov, ministro russo dos Negócios Estrangeiros, diz que Zelensky recusou a proposta russa de um cessar-fogo de dois dias para recolher corpos de soldados. Putin afastou a ideia de um cessar-fogo e de uma cimeira com a Ucrânia face aos ataques mais recentes de Kiev, como a operação Spider Web, que falamos, ou a explosão da ponte que liga a Crimeia ao território continental russo. Perguntando em conta tudo isto, Pedro Nascimento, estamos cada vez mais distantes de um cessar-fogo, na sua opinião?
Eu creio que sim. Mas essa proposta que Zelensky fez hoje evidentemente que traria um grande sinal para a Rússia. É que depois destes ataques sírios sobre os quais nos debruçamos há pouco, se neste momento a Rússia aceitasse esta proposta de cessar-fogo, isto iria vincar e consolidar ainda mais a resiliência da Ucrânia. Isto iria ser um resultado objetivamente positivo para a Ucrânia. E a verdade é que a Rússia, neste momento, não pode fazer isso, porque estar em vésperas de negociações e ceder a estas pretensões ucranianas, evidentemente que a Rússia não faria isso, porque senão iria colocar-se numa posição cada vez mais difícil. Agora, a verdade é que andamos aqui sempre nos mesmos caminhos e sem chegar a um fim, porque quando o Lavrov diz: "A Ucrânia rejeitou um cessar-fogo de dois dias". Aquilo que nós observamos, nomeadamente de informações que nos vão chegando, é que sempre que há um cessar-fogo ou houve, por exemplo, um cessar-fogo imposto unilateralmente pela Rússia, quando foi, por exemplo, para a celebração do Dia da Vitória, os confrontos continuaram no terreno. Portanto, infelizmente, acabamos sempre por repetir isso, mas estamos num caminho sem saída.
Pedro Nascimento, hoje ainda o secretário do Conselho de Segurança Russo, Sergei Shoigu, chegou a Pyongyang para se encontrar com o líder norte-coreano Kim Jong-un, para discutirem a parceria entre os dois países. Isto obviamente reforçada no contexto da ofensiva russa na Ucrânia. Qual é que é o impacto desta possível aliança entre Rússia e a Coreia do Norte?
É interessante, nós reparamos aqui em duas coisas. Primeiro, no discurso propagandístico da Rússia, que faz sempre menção à sua brilhante capacidade militar, às diferenças que há entre o armamento militar que dispõe e aquele que os ucranianos dispõem, aos recursos humanos e tudo mais, mas depois tem necessidade de fazer este tipo de parcerias para sustentar o seu esforço de guerra. Por outro lado, de uma forma mais holística, mais geral, estas alianças são interessantes. Interessantes do ponto de vista teórico, de estudo. Por quê? Porque por um lado são taticamente úteis, mas por outro lado, são estrategicamente muito instáveis. E por quê? Isto em 30 segundos facilmente percebemos. Esta aliança entre a Rússia e a Coreia do Norte é taticamente útil porque, por um lado, a Rússia está completamente isolada do Ocidente e vai buscar o apoio no fornecimento de materiais a outros países, nomeadamente aqui à Coreia do Norte. E a Coreia do Norte fica com maior peso geopolítico na Ásia, precisamente por ter estas negociações com um país como a Rússia. Mas, por outro lado, é estrategicamente muito instável. E por quê? Porque são potências completamente assimétricas. Nós temos um gigante de um lado e temos do outro um regime isolado e imprevisível. Ou seja, este tipo de negociações, essencialmente, serve para um futuro a médio e longo prazo. Mas quando nós temos regimes desta natureza, principalmente quando estamos a falar de países como a Coreia do Norte, sabemos que temos uma imprevisibilidade e um futuro que está ligado à vontade de um líder. E, portanto, temos aqui estas duas nuances. Vamos ver o que traz o futuro. Esperemos que possa trazer a paz, mas está cada vez mais difícil.
Claro. Para fechar, Pedro Nascimento, a Comissão Europeia autorizou esta quarta-feira Portugal a investir mais em defesa, mas sem correr o risco de ter procedimento por déficit excessivo. Deu aval à ativação da cláusula de escape nacional ao abrigo das regras orçamentais da União Europeia. Esta estratégia dos 27 de maior investimento em defesa e de forma mais permissiva para os Estados gastarem neste setor é, na sua opinião, a adequada para contrariar este contexto atual?
É assim, eu tenho que confessar que sem conhecer termos específicos, é muito difícil estar a pronunciar-nos sobre isso. Agora, há uma coisa que eu sei e que tenho vindo a defender nos últimos tempos. Nós, e eu peço desculpa por dizer isto desta forma, não podemos resolver os problemas a atirar dinheiro para cima dos problemas. E acho que de uma vez por todas os Estados devem chamar as pessoas que estudam a matéria, que estão no terreno, ou seja, pessoas ligadas à defesa, pessoas ligadas aos exércitos, à marinha, à Força Aérea, para conseguirem tomar decisões e essas decisões devem ser tomadas a partir do início. Porque se a Comissão Europeia insistir em alocar determinadas verbas para defesa, sem percebermos exatamente aquilo onde devemos insistir e como devemos investir, vai acabar por estarmos sempre no mesmo problema. Isso nada vai resolver. Ou seja, eu acho que a estratégia tem que passar por perceber junto das pessoas e dos ramos das Forças Armadas aquilo em que é preciso investir. Depois de percebermos naquilo que precisamos investir, vamos ter que perceber quanto é que devemos investir. O caminho não deve ser o contrário. Não deve ser pegar nas verbas e dizer: "A partir de agora está aqui e gaste-se na defesa". Não, devemos partir do contrário, devemos quanto é que é preciso e no que é que é preciso investir. A partir daí, nós temos que perceber também que estamos já numa grande desvantagem, porque temos outros blocos, nomeadamente a Rússia e a Coreia do Norte, que já têm uma economia a trabalhar para a guerra. Nós estamos muito longe disso. Portanto, é preciso unir esforços e se calhar começarmos a ter uma preocupação cada vez mais acrescida com a matéria.
Pedro Nascimento, obrigado por ter estado conosco mais uma vez aqui na Rádio Observador. Pedro Nascimento, que esteve conosco em mais uma edição do Gabinete de Guerra, investigador de História Militar. Até uma próxima oportunidade, Pedro.
Um abraço.