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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis, em dia de encontro do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, com o Papa Leão XIV, depois da troca de palavras menos simpática entre o líder da Santa Sé e Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. Bruno, boa tarde, bem-vindo. O que é que resultou deste encontro? Um apaziguamento das relações entre o Vaticano e a Casa Branca?

Sim, a descrição oficial é amigável e produtiva. Realmente, o Marco Rubio encarna aqui esta figura do adulto na sala que ainda resta naquela administração. Ele próprio, em termos pessoais, é católico ou identifica-se como tal, mas isso não impede o J.D. Vance, que também se identifica como católico, de entrar às vezes em choque com o Papa em questões de teologia. Mas realmente o Marco Rubio tem uma postura um pouquinho mais moderada, se quisermos tradicional, diplomática, e claramente fez questão, sobretudo, de sublinhar a importância que os Estados Unidos atribuem ao Vaticano. Apontou para algumas áreas de cooperação, por exemplo, em Cuba, de facto, um país em relação ao qual há muitos anos, desde já da época de João Paulo II, que os Estados Unidos têm procurado muitas vezes envolver o Vaticano como mediador, como facilitador, também como canal para fazer chegar alguma ajuda humanitária que não seja através do Estado cubano, etc. Parece-me que no essencial aqui o objetivo de Rubio foi realmente voltar a normalizar as coisas, tentar atenuar este mau clima, que além do mais, até em termos de política interna americana, não será talvez a melhor opção. Os católicos são volta de 20% dos eleitores, são o maior bloco, porque obviamente os protestantes são mais, mas estão divididos em múltiplas igrejas, e ainda são dos poucos grupos que oscilam entre um partido e outro. Ou seja, geralmente quando um presidente ou um partido ganha, tem a maioria do voto católico, não por muito, mas é de facto um grupo religioso importante que ainda vai oscilando, enquanto, por exemplo, os evangélicos mais conservadores tendem a votar muito no Partido Republicano, as igrejas protestantes tradicionais, mas que se tornaram muito progressistas, os luteranos, os quakers, etc, tendem a votar muito no Partido Democrático e realmente são aqui um grupo importante. Agora vamos ver se isso é possível com Donald Trump.

Sendo que Donald Trump, antes deste encontro de Marco Rubio com o Papa Leão XIV, fez uma declaração na Casa Branca, questionado pelos jornalistas, em que disse: "No que diz respeito ao Papa, é muito simples, quer ele goste ou não, o Irão não pode possuir uma arma nuclear. Ele pareceu sugerir que pode, e eu digo que não pode, porque se isso acontecesse, o mundo inteiro seria feito refém e não vamos permitir que isso aconteça." Parece uma declaração pouco diplomática antes do encontro que pretendia precisamente apaziguar estas relações.

A minha interpretação é que as pessoas que ainda vão restando à administração, Marco Rubio ou, por exemplo, a Susie Wiles, que é a chefe de gabinete e que procura pôr alguma ordem naquele caos, provavelmente vão aconselhando Trump a não atacar o Papa, a não fazer declarações, mas ele não resiste, sobretudo se lhe é perguntado por um jornalista, ele dificilmente se contém ou tem aqui algum tipo de autodisciplina. E ele continua a insistir nesse argumento. Obviamente, aquilo que o Papa diz, o Papa não se pronunciou, nem falou, nem obviamente defendeu de maneira nenhuma que o Irão devia ter armas nucleares. O que o Papa costuma dizer é que era bom que no mundo houvesse menos armas, inclusive menos armas nucleares. No fundo, aquilo que ele procurou aqui fazer foi deixar claro que não ia permitir que o cristianismo fosse usado como uma espécie de arma de guerra, de arma de arremesso contra o Irão. Que este discurso, por exemplo, que sobretudo o Pete Hegseth, o secretário da Guerra, que vem de uma corrente religiosa que defende a teocracia nos Estados Unidos. Que está contra a teocracia no Irão, mas aparentemente quer estabelecer uma teocracia nos Estados Unidos. Tem uma linguagem, no fundo, uma espécie de cruzada contra o Irão. Isso realmente choca com aquilo que tem sido a postura da Igreja Católica, sobretudo nos últimos 100 anos, independentemente de os papas serem vistos como mais conservadores ou não. Por exemplo, João Paulo II não foi menos crítico da guerra no Iraque do que agora é o Papa Leão em relação à guerra no Irão, inclusive também com esta preocupação que é: isto coloca em risco muitos cristãos no Médio Oriente, que infelizmente já estão bastante em risco, isso é um problema real. Também é algo que o Marco Rubio disse que gostaria de falar com o Papa, mas uma das questões é que, de forma completamente injusta, mas a verdade é que muitas vezes estas comunidades, que são muito mais antigas até do que a presença do Islão nesta região, são das comunidades cristãs mais antigas, em muitos casos são depois perseguidas, são alvos de violência também no contexto destes conflitos, porque são vistos como uma espécie de aliados automáticos do Ocidente.

Donald Trump vai encontrar-se com o presidente do Brasil, Lula da Silva, vai ser recebido na Casa Branca. Como é que perspetivas este encontro?

Eu acho que vai ser um teste interessante. Estará supostamente agora a começar. Vamos ver se há aquele espetáculo de conferência de imprensa com os jornalistas todos a fazerem perguntas e se aí não haverá o risco de, por exemplo, o Lula ser mais crítico do conflito no Irão ou algo desse tipo, e se as coisas não se descontrolam, vamos dizer assim, publicamente. Eu acho que é interessante haver este encontro, inclusive numa altura em que o presidente americano tem outras preocupações, irá daqui a poucas semanas à China, tem a guerra no Irão. Isto acho que mostra, de par com o facto de os Estados Unidos terem recuado nesta guerra comercial com o BrasilQue no caso do Brasil não tinha a ver com déficit comercial, pelo contrário, os Estados Unidos têm um superávit, mas tinha a ver com a simpatia de Donald Trump por Jair Bolsonaro e, portanto, o facto dele não gostar de Bolsonaro, do seu aliado ter sido condenado por ter uma tentativa de golpe. É interessante que ele tenha recuado e que tenha recuado ao ponto de convidar Lula para ir à Casa Branca. A minha interpretação é que isso tem sobretudo a ver com os Estados Unidos perceberem a importância do Brasil em termos de matérias-primas críticas, em termos de coisas como as terras raras. Há poucas semanas uma empresa americana anunciou o investimento de 1,5 mil milhões na grande empresa de mineração de terras raras no Brasil. Acho que é, de facto, uma aposta muito pragmática e que se centra nessa questão central na nova geopolítica global, que é a questão do controle destas novas matérias-primas críticas, que são cruciais para as novas tecnologias e também para a transição energética e em que o Brasil tem abundância. As estimativas são que o Brasil terá provavelmente as segundas maiores reservas de terras raras a nível global e quase todas ainda por explorar.

Pragmatismo econômico do presidente dos Estados Unidos. Também é notícia desta quinta-feira, um porta-aviões francês a caminho de Ormuz para uma missão de defesa. O porta-aviões Charles de Gaulle atravessou o Canal do Suez em direção ao Mar Vermelho, em preparação para uma possível missão de defesa para restaurar a navegação segura no Estreito de Ormuz. Quando, Bruno?

Vamos ver, eu acho que os próprios franceses estão à espera também. É evidente que há uma intenção, no fundo, de projetar poder, de deixar claro aquilo que Donald Trump diz, também de forma completamente contraditória, que a Europa é um tigre de papel, não tem capacidade militar nenhuma. Vamos lá ver, só há nove países no mundo que têm porta-aviões, a França é um deles. Só há dois países no mundo que têm porta-aviões nucleares, ou seja, basicamente, o Charles de Gaulle tem autonomia de sete anos, portanto, não precisa de ir a um porto. Pode precisar pra outro tipo de manutenção, mas em termos de sistema de abastecimento de energia, tem uma autonomia de sete anos. Obviamente, é uma forma de a França demonstrar que não está só ativa diplomaticamente no Médio Oriente, continua a ter alguma capacidade de projeção de poder militar. Agora, a verdade é que, aparentemente, para já, a intenção é entrar no Mar Vermelho e depois ficar preparada essa força para uma eventual missão de garantia da segurança marítima no Estreito, mas as informações e declarações que temos são de que isso só acontecerá depois de haver um acordo, depois de haver um cessar-fogo sólido e também com outros países a participar nessa missão. Eu aqui gosto sempre de recordar que a Europa tem uma dependência residual do petróleo, em termos de compras de petróleo no Golfo. Obviamente, não nos livramos da questão do preço, porque isso é um mercado global, nem nós, nem os Estados Unidos, mas em termos de abastecimento, por exemplo, um país como a Coreia do Sul, que aliás, é neste momento o país que lidera, a par da China, a construção naval a nível mundial e que tem forças armadas muito capazes e uma Marinha muito capaz. A Coreia do Sul, por exemplo, depende em 75% do petróleo do Estreito de Ormuz. Aliás, Donald Trump aparentemente reparou nisso quando este navio sul-coreano foi atacado agora no contexto desta crise há cessar-fogo, não há cessar-fogo, vai se fazer uma operação Projeto Liberdade, não se vai fazer. Um dos alvos foi um navio sul-coreano e Donald Trump a esse respeito veio dizer: "Se calhar a Coreia do Sul também devia vir ajudar". Parece, para já, que é uma espécie de missão para pré-posicionar esta força, para projetar poder da França, dar mais peso à diplomacia francesa, mas não para diretamente ir intervir no Estreito, se não houver um acordo, se não houver esta missão mais ampla de segurança marítima.

Esse eventual acordo de cessar-fogo continua no impasse.

Sim, ou seja, as declarações de Donald Trump, que são importantes aqui para nos irmos guiando, a par das declarações do Irão, mas eu aí mantenho a mesma máxima que os ouvintes já terão ouvido, se calhar já estão cansados de ouvir, mas eu acho que vale a pena recordar, que é nisto do cessar-fogo, desde logo temos que ter uma declaração de que há cessar-fogo dos dois beligerantes ou dos diferentes beligerantes, do mediador, e depois temos de esperar que comece a ser implementado. Aqui o que temos é o Irão a dizer que as coisas não estão a correr assim tão bem, o presidente do Irão, o presidente dos Estados Unidos a dizer: "Estou muito esperançoso que haja acordo. Acho que sim, há condições pra haver acordo", mas ao mesmo tempo a dizer: "Mas eu também já pensei isso no passado e não aconteceu, sabemos nós. E se for preciso, voltamos a atacar o Irão ainda com mais força". São declarações que deixam claro que há aqui margem para todos os cenários.

Sobre o cessar-fogo entre Israel e o Líbano, Beirute, há notícias de ataque a Beirute, continua em vigor este cessar-fogo, o que é que vale?

É esta modalidade de cessar-fogo que Israel gosta e que se tem tornado a norma no Médio Oriente, que é um cessar-fogo que não é bem um cessar-fogo, ou seja, não há um completo cessar das hostilidades, dos ataques. Há realmente uma redução da intensidade. Não há ataques contínuos, não há ações militares contínuas, mas continua a haver com alguma frequência ataques ocasionais, que depois são sempre justificados pelas partes a dizer: "Foi o outro lado que atacou e nós só nos estávamos a defender". É um cessar-fogo muito frágil e limitado ou parcial, se quisermos.

Outro cessar-fogo entra em vigor amanhã. Foi decretado de forma unilateral pela Rússia. Hoje a Ucrânia atacou com recurso a drones, há notícia de ataques com recurso a três centenas de drones. Kiev vai respeitar este cessar-fogo, há algum indício de que assim seja?

Não. Acho que Kiev foi inteligente. Quis deixar claro, até porque sabemos que Donald Trump tende sempre a favorecer, a ter mais simpatia pelo lado russo, mas teve este cuidado de antecipar o cessar-fogo, dizer: "Se vocês querem a 9, nós vamos começar o cessar-fogo unilateralmente também a 6 e sem fim". No fundo, dizendo até isto que aparentemente o presidente Trump queria. E ficaram com argumento pra dizer: "A Rússia não respeitou esse nosso cessar-fogo unilateral, nós também não vamos respeitar o cessar-fogo unilateral do lado russo". Como disse Zelensky: "Não temos nenhuma razão para permitir à Rússia fazer uma grande festa militar ao mesmo tempo que passa o tempo a massacrar a população ucraniana". Aqui a grande questão é saber qual será, o que a Ucrânia tem preparado. Realmente a Ucrânia tem recuperado alguma iniciativa, mesmo em termos de território, conseguiu inverter esta tendência pra Rússia ir, ainda que lentamente, sempre ocupando mais território ucraniano. Nos últimos dois meses, isso já não terá sido assim, mas sobretudo em termos aéreos, em termos de ataques com drones, tem mostrado a capacidade pra fazer ataques muito mais frequentes, muito mais eficazes, a muito maior distância. E, para já, os alvos têm sido sobretudo tudo que tem a ver com indústria petrolífera, exportação de petróleo, de gás, que é muito importante pra economia de guerra russa, mas vamos ver se não há aqui alguma surpresa preparada. À partida, a expectativa é que Moscovo esteja muito bem protegido, mas isso também significa que a Rússia está a desviar sistemas de proteção antiaérea de outras regiões para Moscovo e isso pode abrir o flanco noutras regiões. Não me espantaria que realmente a Ucrânia preparasse alguma coisa em grande, se não em Moscovo, eventualmente noutras zonas mais desprotegidas.

A antecipar depois uma resposta, porventura, mais violenta por parte da Rússia?

Essa possibilidade existe sempre, e a Rússia tem apostado sempre muito nesta guerra aérea, sem limites, sem restrições, indiscriminada, e existe realmente também esse risco. Mas enfim, aí terá de ser a liderança ucraniana a decidir o que acha que vale mais a pena, se vale a pena arriscar, apesar de toda essa retaliação, ou não.

Bruno Cardoso Reis, o convidado da edição da tarde desta quinta-feira de Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã com a análise da atualidade de alguns dos principais temas da atualidade internacional.