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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e hoje temos conosco Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Bem-vindo, Bernardo. Obrigado por se juntar também a nós. Bernardo, hoje Genebra recebe dois processos negociais que têm marcado a atualidade. Por um lado, as conversações entre os Estados Unidos e o Irão sobre o programa nuclear, e depois também uma nova reunião trilateral entre Kiev, Moscovo e Washington para discutir a paz na Ucrânia. E vamos por partes. Vamos começar pela reunião entre Estados Unidos e Irão, que já estará a decorrer nesta altura em Genebra, sobre o programa nuclear. O que é que podemos esperar dessas novas conversações, Bernardo?
Olá, bom dia e mais uma vez obrigado pelo convite. Parece-me que quanto a esta tensão e a essas negociações Estados Unidos-Irão, podemos esperar uma negociação à parte daquilo que são os acordos de desarmamento, acordos de desarmamento esses e de desarmamento nuclear esses, que entretanto também cessaram, por exemplo, entre Estados Unidos e Rússia, acordos que já vinham desde a altura da União Soviética, portanto, desde a Guerra Fria. E o que temos agora é mais uma tentativa de diminuir as tensões que existem neste momento, principalmente no Médio Oriente, e também diminuir no meio de muita pressão ao regime iraniano, aquilo que é a tensão interna do Irão. Portanto, o regime iraniano também usará estas negociações de alguma forma para se legitimar. Temos aqui dois, três pontos essenciais quanto a estas possíveis negociações. A primeira é a redução do enriquecimento de urânio, que é o principal objetivo dos Estados Unidos. Fazerem o Irão reduzir as suas reservas de urânio e cessar esse enriquecimento para assim também travar aquilo que é o programa nuclear iraniano, que tentaram travar já em junho, julho, quando se deu o ataque às instalações nucleares de Fordow. Depois temos um pedido mais específico de Israel, que é desmantelar essas infraestruturas nucleares. Não passa apenas por cessar esse enriquecimento, passa também por desmantelar as infraestruturas que depois permitem transformar esse enriquecimento de urânio em armamento. E depois temos aqui um terceiro aspecto que também é importante, e é aqui que entra esta dimensão de legitimidade do governo iraniano. Por quê? Por exemplo, o conselho de paz de Donald Trump, que o Donald Trump agora inventou esta ideia de conselho de paz para Gaza um bocadinho fora, como alternativa àquilo que é o sistema das Nações Unidas. Pois bem, esse conselho de paz já reúne grande parte das potências do Médio Oriente e vê-se que aqui o Irão também começa a perder a sua dimensão de potência regional. Para além disso, devido à sua política interna e ao regime islâmico, como todos sabemos, que tem reprimido a sua população, os seus cidadãos, ao longo dos últimos meses e que está, por isso, cada vez mais isolado do ponto de vista internacional. Donald Trump e os Estados Unidos, a administração Trump, têm procurado criar uma pressão também com o deslocamento de algum tipo de armamento para zonas costeiras e para zonas perto do Irão. Isto tudo para ir isolando o Irão. Para quê? Para chegar também a estas negociações agora em Genebra, com uma vantagem comparativa. Portanto, neste momento, realmente, os Estados Unidos estão em vantagem naquilo que é a negociação quanto ao desarmamento nuclear do Irão, e o regime iraniano agora terá que sobreviver de alguma forma. Esse será o grande objetivo do regime iraniano nestas negociações e será também diminuir a tensão para com os Estados Unidos, para também reduzir o seu isolamento internacional. Só para rematar. O interessante aqui também nesta questão do Irão é que caso haja uma queda do regime que possa advir, eventualmente, de umas negociações frustradas agora e da continuada repressão, como temos visto nos últimos meses, é também importante perceber qual é a imaginação política para o futuro do Irão. E isso também não é concreto, porque mesmo o filho do Xá, que tem sido quase considerado um herói do Irão, mesmo vivendo fora do Irão durante muito tempo, tem sido considerado um herói do Irão, o portador da liberdade. É difícil imaginá-lo como líder político, porque não passa disso mesmo. Não passa de uma imagem pouco concreta daquilo que é o futuro do Irão. Não creio que seja a consubstanciação de uma transição política que leve a uma democracia verdadeira, como muitos iranianos imaginam.
De resto, ainda antes de começarem essas negociações, no dia de hoje, o presidente norte-americano voltou a ameaçar o Irão, dizendo que se não houver um acordo sobre o programa nuclear, vai haver consequências. Que consequências serão essas? Era aquilo que o Bernardo estava a explicar. Poderá haver aqui uma tentativa de haver uma intervenção por forma a mudar o regime iraniano?
Esta dimensão da intervenção é sempre difícil de explicar, prever e depois também de legitimar, como dizia, porque há aqui duas situações bastante diferentes. Se olharmos para aquilo que foi, por exemplo, a intervenção na Venezuela e uma possível intervenção no Irão, principalmente por isto mesmo que vamos discutir hoje, que é o Irão é uma potência nuclear, o Irão é uma potência regional e sempre se assumiu o líder daquele eixo, um eixo que depois tem Rússia e China noutras geografias, sempre se assumiu o líder desse eixo naquela região, no Médio Oriente. Está também dentro daquilo que nas relações internacionais é chamado o Rimland, toda uma zona litoral costeira que facilita quem detiver todos os minerais, todos os materiais críticos e as terras raras, agora que se fala tanto das terras raras, que estão naquela zona, as nações que dominarem essas zonas estão também mais próximos de dominar o globo do ponto de vista econômico O Irão encontra-se aqui numa situação geoestratégica fundamental e por isso é que tem que ser levada com mais cautela do que a situação da Venezuela. Até porque a Venezuela tem outras ligações à população latina também nos Estados Unidos. Isto para dizer que o que se pode prever ou o que eu imagino que possa acontecer é eventualmente uma continuada tensão. Portanto, esta estratégia irá continuar de Donald Trump a pressionar, ou a administração Trump, a pressionar aquilo que têm sido os protestos, e principalmente protestos aqui falamos de uma sociedade iraniana muito dividida, falamos do Irão principalmente mais jovem, que quer que os seus cidadãos tenham direitos igualitários no sentido da política identitária. Que as mulheres tenham os seus direitos confirmados, quer que essas mesmas mulheres entrem no sistema científico, um sistema científico que vai crescendo cada vez mais e vai crescendo também cada vez mais próximo do Ocidente. O que acontece agora é os Estados Unidos a tentarem alavancar a sua pressão neste apoio dos manifestantes. A verdade é que o que temos visto é a repressão imensa deste regime, repressão essa que depois nós nem conseguimos ter acesso aos dados, quantos morreram, quantos foram feridos nestes protestos, porque o regime obviamente que esconde esta informação e cria uma espécie de eufemismo desta informação, no sentido em que assume que existe repressão, mas essa repressão nunca corresponde aos números verdadeiros no terreno. E vemos que o objetivo dos Estados Unidos será esse mesmo, será continuar a apoiar esta população, continuar a apoiar as divisões que surgem dentro do Irão contra o regime dos aiatolás, para que então os iranianos possam ultrapassar este regime islâmico, regime islâmico este, que também é necessário compreendermos, que tem o apoio de alguma população, principalmente a população mais velha. E a verdade é que a revolução islâmica nos anos 70 é uma revolução do povo. É uma revolução que na altura tinha muito apoio e infelizmente foi caminhando, se calhar, para o pior cenário possível, que foi este tipo de revolução islâmica extremamente repressiva ou este tipo de regime islâmico extremamente repressivo, como temos visto nos últimos meses.
A Suíça é hoje também palco de uma reunião trilateral entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, neste caso sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Donald Trump pede que a Ucrânia seja mais flexível nesta mesa negocial. Bernardo Valente, a Ucrânia pode flexibilizar mais a sua posição, tem essa margem para isso?
A Ucrânia agora está numa situação bastante difícil. Primeiro, porque, e isto há que sempre ser referido, os europeus não estão à mesa e os europeus não estando à mesa, a Ucrânia parte sempre numa situação de desvantagem. Por isso é que Zelensky em Davos, a certo ponto, se tentou aproximar de Donald Trump ao hostilizar um pouco os parceiros europeus. Este é o primeiro sinal de fragilidade quanto à Ucrânia. Depois há outra questão que é os ataques não cessam. A Rússia, sempre que se começa a falar deste tipo de negociações agora trilateral, primeiro nas Arábias, agora em Genebra, a verdade é que explodem sempre com a mesa de negociações no dia antes. O que aconteceu durante esta noite ou durante o último dia foi um ataque massivo novamente russo, a mostrar exatamente essa força. E isto para quê? Para fragilizar mais uma vez a posição de Zelensky, para fragilizar mais uma vez a posição da Ucrânia. Quando assim é, Zelensky parte sempre nesta situação desconfortável, sabendo que agora há uma nova negociação em cima da mesa. Não falamos apenas daquilo que é a cedência do território ou não no Donbass, não falamos apenas, por exemplo, da central nuclear de Zaporízhia ou até das tropas ocidentais no terreno. Agora começa a surgir esta nova dimensão, esta nova variável aqui no conflito, que é as eleições ucranianas. A possibilidade de termos umas eleições a curto prazo, umas eleições essas, que parece-me a mim, só irão acontecer se houver um cessar-fogo, porque seria um disparate, mesmo do ponto de vista humanitário e da administração Trump, que é quem está a mediar esta negociação, termos eleições sem termos esse cessar-fogo, sabendo que se podem tornar sítios de carnificina autêntica. Zelensky neste momento tem a sua liderança também ameaçada, porque há uma pressão constante para que se façam eleições. Zelensky já remeteu para o direito internacional e para a Constituição ucraniana ao dizer que mesmo para ceder o Donbass, teria que então fazer um referendo. Vemos aqui uma referência àquilo que são os mecanismos democráticos da Ucrânia, não só nas eleições como no referendo, e é a isso que Zelensky se tem agarrado, se tem apoiado para continuar o seu esforço de guerra e para evitar que a Rússia fique com toda aquela região do Donbass. No entanto, sabemos que há uma aproximação clara, como sempre houve, de Putin a Donald Trump. Por isso é que a administração Trump acusa sempre a Ucrânia de falta de flexibilidade, quando a potência invasora foi precisamente a Ucrânia. Seja como for, qualquer tipo de cedência de território, que neste momento parece muito natural que aconteça, não deixa de configurar uma violação do direito internacional, ou pelo menos diria um precedente no direito internacional, em que abrimos aqui um precedente em que a potência agressora fica com parte do território. Zelensky agora a única solução que me parece que pode ter neste momento e nestas negociações é tentar congelar o conflito. Ao congelar o conflito, apostar também num cessar-fogo ou tentar esse cessar-fogo o mais depressa possível para se poderem remarcar as tais eleições. Eleições essas, claro, que mais uma vez, mesmo num cessar-fogo, está sempre dependente da confiança entre os parceiros. E sabemos que a Rússia é um parceiro pouco confiável. Mesmo que assine este acordo de cessar-fogo, nunca sabemos se depois irá cumprir, de facto, o cessar-fogo, mas o objetivo também de Zelensky não parece que seja perpetuar-se no poder a este ponto, mas sim Conseguir dar alguma robustez ao regime ucraniano e se calhar essa robustez do regime ucraniano, apesar de não se verem grandes alternativas a Zelenskyy, passará talvez por essas eleições. Eleições essas que serão sempre muito difíceis de concretizar.
O que é certo é que houve também essa informação dos últimos dias, da confirmação de que Alexei Navalny foi envenenado com uma toxina, o que leva também a oposição anti-Putin a tentar ganhar força em Moscovo. Que influência é que esta informação e estas notícias também podem ter, não só nesta negociação, mas também naquilo que é a política interna de Moscovo?
Há um medo crônico, primeiro ainda na parte externa, portanto, a oposição anti-Putin, não só dentro da Rússia, mas em todos os estados que faziam parte até da antiga União Soviética e que têm quase todos ainda, de alguma forma, algum tipo de russificação, algum tipo de apoiantes de Vladimir Putin. Por um lado, há muita oposição que tem dificuldade em aparecer exatamente pelo receio que aconteça o mesmo que aconteceu a Navalny. Isto é verdade na Rússia, como é verdade também em países que pertenciam à antiga União Soviética ou estados que pertenciam à antiga União Soviética. Portanto, esta repressão nesse sentido tem resultados. Tem teimado em muitas nações, como é exemplo crônico disso a Bielorrússia, tem teimado em muitas nações de aparecer esta alternativa democrática ao putinismo ou esta alternativa democrática à égide do Kremlin. Portanto, este é o principal fator naquilo que é a repressão de uma possível oposição. Depois, por outro lado, dentro da Rússia começam a surgir as vozes dissonantes. Acho que aqui, por recebermos sempre de fontes muito concretas esta informação russa, não temos a noção que de fato a sociedade russa é heterogênea, que de fato também um pouquinho à semelhança do Irã, a população mais jovem procura uma ligação maior ao Ocidente. Isso também se vê nas tais nações da antiga União Soviética. Só que este tipo de repressão previne sempre que apareça uma oposição concreta. Agora, a verdade é que estes métodos, tal como aconteceu com o Navalny, foram métodos que já foram utilizados antes para a morte de opositores políticos ou para silenciar opositores políticos durante a União Soviética, durante a Guerra Fria. Putin pertenceu ao KGB também em tempos, portanto, todos estes métodos fazem parte de um modus operandi que está muito embrenhado naquilo que é a cultura política russa dos últimos 100 anos e por isso mesmo dificulta muito que surja alguém fora da égide Putin, que surja alguém fora da égide do Kremlin neste momento, que possa combater Putin. Aliás, Navalny, outros opositores na Bielorrússia, durante muito tempo acabaram por se exilar na Lituânia, porque a Lituânia, na sua embaixada, deu-lhes esse espaço para que pudessem ter ali um porto seguro para a oposição a Putin. No entanto, com as campanhas de desinformação que o Kremlin promove na Europa, nos antigos estados da União Soviética, na própria Rússia, uma campanha feita fora do respectivo país, como foi, por exemplo, a campanha Navalny ou da oposição da Bielorrússia, a certo ponto, nunca tem a mesma força do que estes mecanismos todos que o Kremlin impõe às respectivas populações. Por isso é que é quase um beco sem saída, principalmente depois de Putin continuar alguém da administração Putin que seja igualmente radical e também que tenha este ímpeto expansionista que sabemos que a Rússia tem vindo a ter nos últimos, agora principalmente, quatro anos.
Bernardo, nestes dois últimos minutos queria também ouvi-lo sobre a morte do pastor e ativista Jesse Jackson, defensor dos direitos dos afro-americanos. Ficou conhecido por ser o primeiro afro-americano a dar um salto do ativismo para a política presidencial de um dos principais partidos norte-americanos. Acabou por marcar também aquilo que foi depois a presidência, por exemplo, de Barack Obama, que acompanhamos também.
Sim, Jesse Jackson é uma personagem bastante curiosa da política norte-americana, porque é exatamente isso, dá esse salto. É o primeiro grande político que faz a transição de Selma e, portanto, de todas aquelas leis que vinham do Jim Crow, aquele período que após anexarem o Texas ao México e ter criado uma discrepância entre os estados sulistas pró-escravatura e os estados do Norte que queriam a sua abolição. Este Jim Crow é aquilo que torna todas as instituições, todos os serviços públicos nos Estados Unidos segregados, portanto, em que há uma divisão clara entre negros e brancos, uma segregação racial. E portanto, na altura, as tais manifestações de Selma, donde Martin Luther King sai talvez o grande vencedor ou a grande personagem mediática, depois com Malcolm X a seguir, e o Jesse Jackson, que agora faleceu, teve este condão, que foi conseguir institucionalizar esta luta. Portanto, não só foi figura importantíssima no ativismo em terminar com esta segregação, mas depois torna-se alguém muito importante dentro do Partido Democrata, porque percebe que a política americana pode ser feita não apenas na base identitária, portanto, neste caso, numa base racial, mas que a base racial traz outras dimensões. Portanto, falamos de uma base econômica e material também. Há uma pobreza associada a esta segregação racial, que há condições de trabalho precárias associadas a esta segregação racial, que isto também prejudica principalmente as mulheres. Então, Jesse Jackson, o que vai fazer, principalmente nos anos 80, quando se torna uma figura dos Estados Unidos ou quando se torna uma figura, pelo menos do Partido Democrata, é exatamente mostrar que existe esta transdisciplinaridade entre todas as lutas e ao fazê-lo, acaba por destacar dentro do Partido Democrata e consolida-se como uma figura que claro que estava muito antes do seu tempo, portanto, não foi um Barack Obama também, principalmente porque era uma figura extremada no sentido em que nunca conseguiram ultrapassar o fato dele vir dessas lutas, como foi a Selma, portanto, essas lutas contra as leis do Jim Crow. E a verdade é que ele acaba por se consolidar como um político de sucesso, e um político de sucesso, aliás, que deixa uma herança também de sucesso, no sentido em que o seu filho, Jesse Jackson Junior, também já foi da Câmara dos Representantes, é democrata, representou Illinois na altura, apesar de agora estar um pouco afastado da política. E, portanto, Jesse Jackson é uma figura indissociável daquilo que é o Partido Democrata, principalmente dos anos 80 e 90, e da luta contra a segregação racial. E, portanto, claro que é uma pena e mais uma perda para a humanidade, num momento em que o autoritarismo parece grassar em todos os cantos e que também há traços autoritários, naturalmente, nos Estados Unidos, como temos visto ao longo dos últimos meses.
Bernardo Valente, muito obrigado pela sua análise neste Gabinete de Guerra. Até à próxima.
Muito obrigado. Até à próxima.