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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, programa em que destacamos as principais tensões geopolíticas no mundo. Hoje contamos com a análise do especialista em política americana, Nuno Gouveia. Seja muito bem-vindo, obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar na guerra da Ucrânia, até porque subiu para 16 o número de mortos nos bombardeamentos russos neste ataque em grande escala mais recente na zona de Kiev. Zelenskyy pede mais meios de defesa Patriot. Estes apelos ganham força depois de ataques como o que aconteceu pela Rússia esta madrugada?
Olá, muito boa tarde. Sim, de facto, esta tem sido uma das grandes dificuldades do momento atual da guerra na Ucrânia. É precisamente a dificuldade que a Ucrânia tem neste momento de acesso a meios de defesas contra os mísseis balísticos russos. E o ataque de ontem, que foi devastador por parte das forças russas, coloca em evidência isso. Aliás, não é por acaso que Zelenskyy tem passado as últimas semanas, os últimos meses, a pedir mais apoio aos seus aliados internacionais, no sentido de obter estes mísseis de defesa que sejam capazes de destruir os mísseis de ataque russos. Nós sabemos que a Ucrânia tem uma capacidade de parar os drones russos e desenvolveu ao longo destes últimos anos uma grande capacidade militar para esse tipo de guerra. Agora, as suas dificuldades principais encerram-se claramente nesta questão dos mísseis Patriot. Nós sabemos que ele tem vindo a pedir aos Estados Unidos, que no fundo, tem as reservas de Patriots, que cedam mais este tipo de mísseis. Nós sabemos das dificuldades que os Estados Unidos neste momento têm nas suas reservas. Sabemos também da resistência que os Estados Unidos têm demonstrado durante a administração Trump em ceder material à Ucrânia. Portanto, é uma grande dificuldade que neste momento a Ucrânia tem e que honestamente nos próximos meses eu não vejo como é que a Ucrânia poderá ultrapassar essa dificuldade.
Temos ainda no dia de hoje uma publicação da Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, nas redes sociais, a dar conta de que a Rússia está a perder a guerra, daí estar a atacar também infraestruturas civis. Faço-lhe, de certa forma, a mesma pergunta: está a Rússia a perder a guerra?
Bem, esta guerra começou há quatro anos e meio e nós sabemos que o avanço russo tem sido muito diminuto. Aliás, há pouco tempo soubemos que o avanço russo este ano foi menor que o avanço no ano anterior. A Rússia, de facto, não está a ganhar a guerra e não teve a capacidade de vergar a vontade e, mais do que isso, vergar a Ucrânia. Agora, obviamente, como há bocado estava a dizer, a Ucrânia tem estas dificuldades e que a Rússia está a aproveitar. Aliás, este tipo de ataques a infraestruturas civis, e que nos últimos meses têm vindo a acentuar, é também uma demonstração de fraqueza por parte da Rússia, pois percebe que pela via militar convencional não tem conseguido ganhar esta guerra e tenta atingir alvos civis para tentar quebrar a vontade ucraniana. Não me parece que isso também vá suceder, apesar das dificuldades que o povo ucraniano ultrapassa. As declarações da presidente da Comissão Europeia, obviamente, a União Europeia neste momento é o financiador principal do esforço de guerra ucraniano. Neste último ano e meio, as armas americanas que têm sido cedidas e que têm sido compradas, têm sido pagas com dinheiro europeu, portanto, é o maior aliado da Ucrânia. E agora também não se percebe bem como é que os países europeus podem ajudar a Ucrânia neste sentido em particular de ajudar à defesa contra os mísseis balísticos. Nós sabemos que há algumas reservas dos países europeus, mas esta é uma situação muito sensível. Nós sabemos também que o presidente americano garantiu que a Ucrânia poderia fabricar os mísseis Patriot. Também sabemos que ele passado pouco tempo, terá voltado atrás com essa palavra. Também sabemos que mesmo que a Ucrânia tivesse essa licença pra produzir mísseis Patriot, nunca será uma coisa para o imediato. Portanto, as dificuldades mantêm-se. Obviamente, é importante para a Ucrânia que a União Europeia se mantenha ao seu lado e continue a apoiar o seu esforço de guerra.
E ainda sobre a União Europeia, vamos falar aqui de uma questão que envolve a Letónia, que confirma que o drone abatido no espaço aéreo letão na semana passada era ucraniano. Nuno Gouveia, isto é uma situação que impede também uma escalada de tensão naquela zona?
Bem, nós sabemos que têm acontecido este tipo de situações. Do lado russo, têm caído também drones em países aliados. Nós sabemos que esta situação que aconteceu na Letónia com um drone ucraniano não terá sido a primeira vez. Serão situações que acontecem, certamente não por vontade da Ucrânia. Agora, nós também sabemos da intenção russa em provocar os países aliados, em provocar a NATO. Há muitas movimentações e há muitos sinais que indicam que a Rússia poderá também querer testar a resolução dos países da NATO e até a união dos países da NATO. Este caso da Letónia, de facto, foi um drone ucraniano. Os responsáveis da Letónia terão dito até que poderá ter sido devido a interferência russa. Obviamente, nós não sabemos. O que sabemos é que, de facto, que há uma grande tensão nos países vizinhos da Rússia e da Ucrânia e ninguém está livre e os países europeus têm consciência que esta ameaça russa paira e, obviamente, o apoio que também está a ser dado à Ucrânia também se destina a conter esta ameaça russa.
Vamos avançar. Falar sobre a situação no Médio Oriente, até porque o Irão avisa que vai mobilizar armas mais destrutivas, caso surja uma nova guerra com os Estados Unidos. O que é que, Nuno Gouveia, nos diz esta posição por parte do regime de Teerão e pergunto também: é bluff do governo iraniano?
O governo iraniano na frente militar propriamente dita nunca teve capacidade de responder aos ataques americanos e israelitas. Nós percebemos facilmente que a capacidade do Irã em responder foi muito eficaz na medida em que atacou os países vizinhos com seus mísseis convencionais e isso provocou, de certa forma, uma reação em cadeia na região. Tem sido muito eficaz e, aliás, é o principal tema hoje em dia quando se fala nesta guerra do Irão, em provocar o encerramento do estreito de Ormuz e todas essas condicionantes para a circulação no estreito de Ormuz. Agora, a menos que tenha acontecido algo que ninguém está a ver, o Irã não tem mais capacidade militar para infligir danos militares aos Estados Unidos. O que tem sido muito eficaz, de facto, é provocar este atual impasse e também ter demonstrado que sem uma grande escalada militar por parte dos Estados Unidos, esta guerra não tem uma solução militar e obviamente terá que ser uma solução política.
E há abertura para essa solução política?
Até o momento não, até porque nós temos visto que o Irã, também aproveitando a fragilidade com que se encontram os Estados Unidos e o próprio presidente Trump, em todo o contexto que já sabemos, com o contexto eleitoral que vamos ter daqui a duas semanas, uma grande oposição interna dentro dos Estados Unidos a esta intervenção, a situação econômica não só nos Estados Unidos como em todo o mundo bastante fragilizada devido à ameaça iraniana e no fundo o Irã sente-se confortável neste atual impasse. Por outro lado, também temos visto que o presidente americano também tem ameaçado por diversas formas o Irã e eu diria que esta ameaça iraniana no fundo é também pra tentar responder às ameaças que Donald Trump tem proferido nos últimos meses.
E que ilações é que podemos tirar dessas ameaças do presidente norte-americano, que ainda ontem prometeu um ataque, de certa forma, a todos os países que não se isolem perante Teerão?
O Donald Trump tem sido muito inconsistente nessas suas ameaças e as ameaças vão se diversificando. Ele já ameaçou destruir o Irão. Na semana passada também ameaçou atacar um aliado americano, no caso Omã. Esta semana ameaçou também uma grande guerra econômica nunca vista contra o Irão. A questão é que o Donald Trump não é consequente com as suas palavras e, portanto, parece-me que as ameaças que ele vai proferindo já não vão sendo levadas muito a sério por parte do Irã e até dos seus aliados. Aliás, nós temos visto a forma como ele trata os seus aliados. Ele nesta última recente ameaça de provocar uma grande guerra econômica contra o Irão, pedia aos seus aliados para se juntar nesse esforço, mas a forma como ele tem tratado os aliados também não é a melhor forma de os envolver neste conflito e mais do que isso, nos envolver nessa pressão em relação ao Irão. Nós sabemos que o Irão também é uma ditadura brutal e que tem grande capacidade de resistência ao sofrimento que lhe tem sido infligido, não só pela parte militar, mas também pela parte econômica. Portanto, não sei até que ponto seria eficaz ou será eficaz se o Donald Trump levar a cabo essa guerra econômica. E também sabemos que o Donald Trump não é muito consequente com as suas palavras na perspectiva em que ele pode, de facto, iniciar essa guerra econômica, mas ele não tem a paciência necessária pra esperar os seus frutos e, portanto, passado duas semanas ele viraria.
E teria apoio por parte de outros países, caso avançasse mesmo esse plano?
A questão é que ele não me parece ter a capacidade e até a forma como ele trata os aliados pra conseguir um grande consenso entre os seus aliados, porque este tipo de bloqueios ou de guerras econômicas tem que ser muito bem concertado a nível internacional, nomeadamente com os seus aliados. E nós sabemos que o Donald Trump não se preocupa em concertar posições com seus aliados, apenas gosta de dar ordens e depois quando, obviamente, os países aliados não fazem aquilo tudo que ele exige, ele simplesmente volta as costas e até persegue-os e tenta puni-los politicamente e por outras formas. Portanto, eu acho muito difícil o Donald Trump conseguir um grande apoio internacional pra este ou pra outro tipo de esforço que ele pretenda invocar contra o Irão.
Temos ainda um último tema para abordar neste gabinete de guerra, Nuno Gouveia. Vamos falar da situação no Pacífico, até porque a China insiste junto de Seul que os Estados Unidos devem cessar a política hostil face a Pyongyang. Que situação é esta que está a acontecer no Pacífico, Nuno Gouveia, que envolve a China, ambas as Coreias e também os Estados Unidos?
Esta situação também tem muito a ver com aquilo que eu dizia anteriormente. Nós soubemos esta semana, através do Donald Trump, estavam previstos uns exercícios militares conjuntos entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos. Donald Trump, invocando a sua relação próxima com o líder da Coreia do Norte, disse que iria reduzir esses exercícios militares ao mínimo, que iriam custar muito dinheiro e, portanto, não percebia por que esses exercícios militares, visto que o líder da Coreia do Norte se tem portado tão bem em relação aos Estados Unidos durante seu mandato. Ora, a Coreia do Norte tem apoiado ativamente, nós sabemos, além do esforço russo contra a Ucrânia, tem apoiado também o Irã e é um importante aliado do Irã. Portanto, não se percebe essas palavras do Donald Trump. E por outro lado, há um receio dos seus aliados asiáticos, e esse tem vindo a ser materializado por diversos países, na fiabilidade das relações com os Estados Unidos e, mais do que isso até, da fiabilidade da proteção militar que os Estados Unidos sempre exerceram em relação aos seus aliados da Ásia e do Pacífico. Não por acaso, esta semana os responsáveis da Coreia do Sul encontraram-se com os responsáveis da China e há entre os aliados americanos o sentimento que se calhar convém pelo menos ter melhores relações com a China, apesar que estes países têm obviamente receios de uma China expansionista na região e com esta aparente retirada dos Estados Unidos da região, esse receio tem vindo a aumentar e, portanto, a tendência mais natural dos países tem sido aproximar-se da China. A China também percebendo esta fraqueza dos Estados Unidos na região, obviamente tem tentado ganhar vantagens políticas e geoestratégicas na região devido a essa posição americana e essas declarações têm que ser encaradas nessa perspectiva em que a China vê, de facto, aqui uma oportunidade de ganhar influência na região, visto que os Estados Unidos de Donald Trump não parecem muito interessados em manter essas relações próximas com os seus aliados asiáticos.
E é uma situação que vamos continuar a acompanhar nos próximos tempos, a forma como o presidente dos Estados Unidos aborda também esta questão no Pacífico. Resta-me agradecer ao Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Esteve a analisar estes focos de tensão geopolítica no mundo. É altura de fechar a porta do gabinete de guerra, que fica como sempre disponível em podcast.