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Está aberto o Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos conversar com António José Tel, professor catedrático de História na Academia Militar. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bem-vindo, António José Tel, a mais uma edição do Gabinete de Guerra, sendo que hoje vamos começar com este encontro em Portugal. O Ministério dos Negócios Estrangeiros convocou o embaixador do Irão, foi chamado para ouvir, de acordo com o comunicado do Ministério Português, de forma veemente e categórica a condenação do recente ataque realizado contra Israel. Isto foi informação divulgada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros numa nota de imprensa. Na reunião, o embaixador escutou a profunda preocupação do governo português com a escalada do conflito na região, tal como um apelo à máxima contenção. Portugal falou também sobre a exigência de libertação imediata do navio que foi apreendido no sábado, no Estreito de Ormuz, por causa das obrigações de Portugal enquanto Estado-bandeira, e também a libertação da tripulação. O MNE conclui neste comunicado enviado aos órgãos de comunicação social que vai aguardar os resultados desta diligência formal e vai avaliar, em função disso, passos adicionais. Qual é a importância deste encontro e o que é que tira também deste comunicado emitido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros?
Boa tarde.
Boa tarde.
O comunicado é perfeitamente normal, tendo em conta as circunstâncias. Portugal teria que obviamente apresentar um protesto, embora o navio, para além da bandeira, pouco mais tenha de português ou nada mais tenha de português. Mas tendo em conta a presença da bandeira, isso era necessário. E é normal que no comunicado oficial, que é diferente do que foi dito na reunião, se use uma linguagem mais dura, tendo em conta as circunstâncias de um navio apreendido. Tudo indica que a apreensão deste navio foi, em certa medida, um ato simbólico, porque das duas, uma: ou havia qualquer coisa nos contentores que interessava muito ao Irão, ou então era de facto uma maneira de mandar uma mensagem externa para o exterior de que mesmo sem um conflito generalizado, nós controlamos o tráfego marítimo no Golfo de Ormuz e no Estreito de Ormuz e, como tal, podemos interrompê-lo a qualquer altura. E qualquer navio que passe por aqui só passará se nós o deixarmos passar. Tenho também notado que o embaixador do Irão em Portugal tem mantido, em termos nomeadamente das entrevistas que deu, um tom moderado e um tom conciliatório, o que em certa medida tem também a ver com a maneira como o Irão organizou este ataque em larga escala a Israel, que ao mesmo tempo que lança um dos maiores, senão o maior ataque, que de uma única vez foi lançado na região e o faz com 350 ou 360 mísseis e drones, ao mesmo tempo que faz isso, avisa toda a gente à volta, inclusive a Jordânia, de que este ataque vai ser lançado nas próximas horas, o que significa que espera que as defesas estejam preparadas para a interceção. E portanto, há aqui um misto de marcar posição de força, não só para a política interna e para o público interno, mas sobretudo para os crentes do Islão na região, mas ao mesmo tempo fazer as coisas de modo a conter uma expansão automática deste ataque. Imagine que este ataque tinha sido lançado por surpresa e que imagine tinha provocado que em vez de serem lançados drones que demoram longas horas a chegar e que são detetados de certeza absolutamente em que são lançados, tinha sido lançado diretamente com mísseis balísticos que demoram pouco tempo a chegar e são mais difíceis de interceptar e como tal teria havido estragos substanciais nas cidades e eventualmente nas instalações militares de Israel. Isto ia praticamente desencadear uma resposta de envergadura em força. Tal como aconteceu. O Irão consegue as duas coisas, ou seja, marca a posição de força que lhe interessa politicamente e diplomaticamente e evita uma resposta de grande envergadura imediata que viria por parte de Israel e talvez não só por parte de Israel.
Ainda sobre esta questão e deste ataque do Irão a Israel, que aconteceu no fim de semana, o gabinete de guerra israelita continua a discutir a resposta que pode dar. Já teve duas reuniões, ainda ontem disse que mantinha todos os cenários em aberto, todas as opções em aberto quanto ao que será uma resposta. Hoje vamos ter uma nova reunião do gabinete de guerra israelita. O presidente do Irão já ameaçou com resposta severa a qualquer ação contra os interesses do país, uma resposta rápida. Como é que vê este impasse? E será que podemos dizer isto quanto a uma decisão de Israel sobre de que forma pode responder ao Irão? Há também essa contenção de que falava por parte de Israel?
Ainda sobre o Irão. O Irão não só disse o que afirmou, mas disse uma outra coisa que é bastante preocupante. Disse que poderia ser utilizada uma arma que nunca foi utilizada, uma arma surpresa que nunca foi utilizada, o que nos remete diretamente para uma outra Para um outro contexto: é que o Irão está, e é sabido, desde há bastante tempo, prestes a desenvolver, se é que não desenvolveu já, uma arma nuclear. É normal que tenha ajuda internacional também para isso, nomeadamente por parte da Coreia do Norte, com a qual o Irão mantém relações militares de cooperação militar de longa data e que diga-se, as tecnologias que ambos utilizam são complementares. Uma parte das tecnologias iranianas, nomeadamente dos drones, vem da Coreia do Norte, uma parte das tecnologias da Coreia do Norte vem do Irão. O Irão, sobretudo, serve para canalizar componentes militares para a Coreia do Norte e simultaneamente a Coreia do Norte faz a mesma coisa, embora em componentes de outras origens, nomeadamente da Rússia e da China. Há aqui uma cooperação e a Coreia do Norte é um poder nuclear. Este ataque a Israel também tem que se entender nesse contexto, no contexto de um país que está prestes a ter, ou já terá, um armamento nuclear. E se olharmos a coisa neste contexto, poderá parecer uma nova luz, ou seja, é uma posição de força antes de alguma forma ser anunciado que nós temos um armamento nuclear. E é normal que este anúncio só seja feito quando haja não uma ogiva, mas várias, porque se for só uma que é experimentada para provar que existe, cria-se depois uma situação de debilidade. Do ponto de vista de Israel, tem que ser dada uma resposta, isso está fora de causa e Israel perderia a face se de alguma maneira não desse uma resposta. Agora, eu recordo que este incidente teve como pretexto o ataque às instalações do Irão em Damasco, que era um ataque dirigido especificamente a dirigentes do Irão, dirigentes envolvidos diretamente no apoio aos grupos jihadistas vizinhos de Israel e, eventualmente, na preparação dos ataques a Israel. A resposta pode ter várias formas, mas sobretudo a questão que aqui se põe é que esta evolução do Irão, a prova de força que deu, a maneira como dá a indicar de que nós estamos prestes a ter uma arma nuclear, vejam lá o que é que fazem, isto vai levantar ondas de perturbação na região, porque há muitos Estados e entidades da região que sentem isso como uma ameaça e como uma ameaça forte. A região está profundamente dividida a todos os níveis. Um dos níveis é justamente o religioso, entre xiitas e sunitas, nomeadamente, mas não só.
Claro.
Eu recordo que vários grupos jihadistas organizam atos terroristas no Irão e fazem atos terroristas dentro do Irão. Há aqui uma profunda divisão e todas estas entidades sentem-se ameaçadas pelo Irão. O que os Estados Unidos estão a tentar fazer desde há algum tempo é justamente criar aqui uma coligação de contenção do Irão, porque a verdade é que não há nenhum poder vizinho do Irão que tenha capacidade de contenção. A Arábia Saudita não tem, apesar de ter um conjunto de valências. O Egito tem, mas está longe do Irão, embora, sem dúvida, possa contribuir para esta coligação de contenção do Irão. Há muitos outros pequenos Estados da zona, nomeadamente do Golfo Pérsico, a Jordânia, que também tem. E depois há a grande divisão, que é esta zona tremenda de caos que é o Iraque e a Síria, nomeadamente. Na Síria nós temos bases americanas, temos bases russas, temos pelo menos 83 grupos jihadistas, isto segundo uma contagem apresentada como incompleta de instituições internacionais, a maior parte delas inspiradas e financiadas pelo Irão, outras não. E temos o próprio governo sírio, que por sua vez, no meio disto perguntamos o que é que ele, de facto, coordena e dirige na Síria. Isto é uma situação caótica que muitas entidades temem esta evolução do Irão. E como tal, os Estados Unidos o que estão a tentar fazer e estão a tentar convencer Israel a ficarem calmos, é tentar fazer uma coligação a partir desta atitude de força, que é também uma atitude de ameaça do Irão, que contenha o Irão e que simultaneamente inclua Israel no entendimento mais geral para o Médio Oriente. E uma das maneiras de conter o Irão, é conter a maneira como o Irão desestabiliza os países vizinhos, inclusive a Arábia Saudita. O Irão tem feito muitas tentativas de provocar instabilidade na Arábia Saudita, e não só, a partir nomeadamente também do Iémen, que ainda está em guerra civil, mas que a fase mais intensa da guerra civil já passou, e onde o Irão e a Arábia Saudita estão diretamente envolvidos desde há muitos anos. Há aqui uma situação complexa que permite, ou pelo menos aponta para a hipótese, essa coligação mais geral. Para isso é preciso que Israel tenha alguma contenção.
Claro.
E sobretudo, que esteja disposto a coordenar a sua ação com outros Estados, nomeadamente Estados do próprio Médio Oriente, onde se inclui, sem dúvida, e é extremamente importante a Arábia Saudita, mas outros, nomeadamente a Jordânia, Estados do Golfo Pérsico, o Egito e várias outras entidades Para além de estados diretamente.
Vamos ter que aguardar pelas decisões do gabinete de guerra israelita também para perceber como é que poderá ser essa resposta. Gostaria de conversar consigo ainda no tempo que temos, professor António José Tell, sobre o conflito na Ucrânia, claro, e a visita de Olaf Scholz à China. A China hoje falou um pouco sobre isto e sobre este conflito. Foi transmitido ao chanceler alemão que a China apoia uma conferência de paz que seja reconhecida por todas as partes do conflito, essencialmente pela Rússia e pela Ucrânia. Mas depois foi também dito que a China tem e propõe quatro princípios para acabar com a guerra na Ucrânia, princípios orientadores. Explicar aqui esses princípios. Primeiro lugar, dar prioridade à manutenção de paz e de estabilidade e uma tentativa de abster de procurar ganhos egoístas. Segundo lugar, acalmar a situação e não deitar achas para a fogueira. Terceiro lugar, criar condições para o restabelecimento da paz e abstermo-nos de exacerbar ainda mais as tensões. Quarto lugar, reduzir o impacto negativo sobre a economia mundial e evitar também minar a estabilidade das cadeias industriais e de abastecimento globais. Como é que vê estes princípios aqui definidos pela China para terminar esse conflito, a guerra na Ucrânia, e também esse apoio a uma conferência de paz reconhecida pela Rússia e pela Ucrânia?
Desde o começo desta guerra que a China tem tratado a Rússia como o filho adotivo adolescente, que é louco e como é louco, faz atos que são atos que lançam instabilidade, que vão contra o que a China gostaria e que obrigam a China a ter uma intervenção indireta, que é como ela tem sempre, uma intervenção indireta para procurar atenuar os estragos.
Certo.
E a Rússia, um dos principais objetivos que tem com esta guerra é atrair a China para uma nova Guerra Fria, para um confronto direto com o Ocidente, um confronto em termos de Guerra Fria, não é uma guerra generalizada, mas um confronto diretamente com o Ocidente, em que a China e a Rússia estejam claramente num bloco. E os Estados Unidos, nomeadamente, o que tentam fazer, e na minha opinião tentam fazer muito bem, é explorar as divisões entre estes dois e procurar jogar com elas. Aliás, o que a mim me espanta é que haja muita gente que faz afirmações do género: "Aí, China e Rússia é tudo a mesma coisa, querem todos o mesmo", o que é justamente o contrário do que faz o presidente Zelensky e do que faz a Ucrânia, que percebem o que se passa nesse campo. Isto dito, a China, essas afirmações que mencionou, são típicas da diplomacia chinesa. São afirmações extremamente ambíguas, que podem ser entendidas em todos os sentidos, que sem dúvida são afirmações dentro dos princípios da Carta das Nações Unidas e dentro dos princípios da ética internacional, nomeadamente a procura da paz, a procura do desenvolvimento, a procura do comércio, a estabilidade, etc.
Para terminar, professor.
Para terminar, é típico da diplomacia chinesa, que toma uma posição ambígua, que pode dar por vários lados e que incentiva os vários lados a virem ter com ela. A parte importante aqui é que vêm ter com ela. Portanto, a China aparece para ambos os lados como o caminho para tentar encontrar um entendimento. Ou seja, sai muito reforçada de toda esta situação.
Professor António José Tell, muito obrigado por ter estado conosco neste gabinete de guerra da Rádio Observador, que fica disponível daqui a instantes em podcast.