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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos a marcar a atualidade no mundo. Hoje contamos com a ajuda de Francisco Calhes de Lima, docente da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Francisco Calhes de Lima, eu começava por lhe perguntar sobre os mais recentes ataques de Moscovo às infraestruturas civis ucranianas, mas também em Kiev. Significa um intensificar ou uma vontade de intensificar a ofensiva na Ucrânia?

Boa tarde, obrigado pelo convite. Esta, de facto, é a grande vulnerabilidade ucraniana, esta vulnerabilidade a mísseis balísticos, que neste momento significa que chovem constantemente, e até de forma crescente, mísseis balísticos sobre território ucraniano, inclusive sobre cidades ucranianas, e que os ucranianos pouco ou nada possam fazer em relação a isso. Aliás, os números indicam que agora em julho terão sido até mais de 100 mísseis russos a choverem sobre território ucraniano. A grande solução para este problema, do ponto de vista militar ucraniano, seria terem intercetores capazes de eliminar esses mísseis antes de atingirem naturalmente o solo ucraniano. E aqui, de facto, aquele famoso sistema Patriot, em relação ao qual os ucranianos têm também feito vários pedidos aos Estados Unidos e também aos seus aliados de fornecimento destes sistemas, é um dos sistemas mais testados e mais eficazes. Os ucranianos têm até já algumas baterias que lhes foram fornecidas, mas a grande questão aqui é os intercetores, ou seja, ser capaz de ter intercetores em número, portanto, em quantidade, para responder a esta chuva massiva e constante. Ainda assim, nota-se, não só do ponto de vista da política externa ucraniana, mas também mesmo no Ocidente, às vezes coloca-se aqui um bocadinho, parece-me, de ênfase a mais sobre estes sistemas, sobre os sistemas Patriot. Eu acho que é importante também moderar expectativas quanto a isso. Primeiro porque os sistemas Patriot, como qualquer sistema de defesa antimíssil, não são totalmente eficazes, o que significa que nem todos os intercetores conseguem efetivamente eliminar os mísseis hostis. E portanto, mesmo que a Ucrânia dispusesse de um grande arsenal de intercetores, isso não significa que alguns mísseis russos não pudessem continuar a passar. Depois, estes intercetores dos sistemas Patriot são caríssimos. Cada intercetor PAC-3, que são os atualmente utilizados, custam cerca de €4 milhões por unidade hoje. A Lockheed Martin, que é quem os produz, empresa americana, quer reduzir este valor, mas atualmente custam €4 milhões por cada intercetor. E depois considerem o seguinte, que é o facto de que por vezes têm de ser disparados dois ou três intercetores por cada míssil, porque às vezes um só não basta. Portanto, estamos a falar de um custo mensal que poderia chegar às centenas de milhares de euros só em intercetores. E em terceiro lugar, porque mesmo que os Estados Unidos e a Lockheed Martin, que é, como disse, quem produz estes intercetores, tivessem o interesse em fornecer todos os intercetores que a Ucrânia necessitasse, eles dificilmente o poderiam ou conseguiriam fazer. Primeiro porque os Estados Unidos estão, aparentemente, isso também tem sido amplamente noticiado, com o seu próprio arsenal de intercetores Patriot altamente reduzido por aquilo que se tem passado na guerra. Ou seja, têm usado uma grande parte, ou já usaram uma grande parte do seu arsenal e, portanto, precisam de repor esse stock. Depois, porque pura e simplesmente ainda não existe capacidade produtiva capaz de responder a uma necessidade da grandeza que são, no fundo, as necessidades ucranianas. Para termos aqui uma ideia, em 2025, a Lockheed anunciou ter entregue aos Estados Unidos 620 intercetores. Se fossem todos para a Ucrânia, que não queriam, mas se fossem todos para a Ucrânia, serviriam atualmente apenas para uns meses. Os Estados Unidos, é verdade, fizeram entretanto um enorme esforço para aumentar a capacidade. Em janeiro deste ano chegaram até a anunciar um acordo com a Lockheed para que num período de sete anos consigam elevar esta produção para 2000 intercetores PAC-3 MSE por ano. Mas repito, isto é a sete anos e por isso, qual é que é a grande conclusão, infelizmente, a retirar? É que a Ucrânia, mesmo com a boa vontade norte-americana, mesmo com a boa vontade dos aliados europeus, que também estão a tentar desenvolver alternativas a estes sistemas Patriots, mesmo com toda essa boa vontade, dificilmente irá conseguir ter capacidades de se defender totalmente e eficazmente desta chuva constante de mísseis balísticos russos. Portanto, isto significa, acho eu, duas coisas. Primeiro, que infelizmente os ucranianos têm de continuar a resistir, não têm grande alternativa. E isto importa lembrar que cada míssil não tem apenas consequências do ponto de vista militar, cada vez que atinge efetivamente um alvo militar, mas também civis, porque muitas vezes, como lembrou e bem, atingem alvos civis e portanto têm prejuízos do ponto de vista de infraestrutura, também de pessoas que morrem, que sofrem com estes mísseis, mas também algo muito importante e às vezes descurado do ponto de vista psicológico, porque estas chuvas constantes de mísseis não só balísticos, mas também balísticos russos sobre território ucraniano, implica que muitas vezes os ucranianos tenham que se levantar várias vezes ao longo da noite, não consigam dormir devidamente, tenham que se deslocar durante longos períodos para abrigos, depois novamente voltar para a sua cama, quando umas horas depois podem ser novamente chamados para abrigos. Isto do ponto de vista psicológico é duríssimo. Para não falar depois dos efeitos que isso tem na economia e por aí fora. Segundo, o que me parece também que poderemos concluir relativamente a esta questão dos mísseis balísticos russos, destes ataques e das eventuais capacidades de defesa ucranianas, é que se a Ucrânia não vai conseguir ter capacidades de se defender totalmente a estes ataques Aquilo que a Ucrânia poderá conseguir é tentar concentrar alguns interceptores, nomeadamente os sistemas Patriots, para defender algumas das suas infraestruturas ou alguns dos seus alvos mais críticos. E isto é particularmente importante, e é por isso que talvez para Zelensky estes meses de intensificação desta campanha de pedido dos mísseis Patriot seja muito importante, porque avizinha-se o inverno. E imagina-se que os russos, tal como têm feito nos últimos anos, intensifiquem os seus ataques sobre as infraestruturas energéticas ucranianas. Ora, aquilo que os ucranianos poderão talvez fazer é, recebendo estes mísseis, não sendo capazes de responder a toda a ameaça russa, concentrá-los na defesa da sua infraestrutura energética durante o inverno.

E nesse sentido, de tudo o que tem estado a descrever, como é que se pode entender a declaração de Ursula von der Leyen, que escreveu hoje na rede social X que a Rússia não vai vencer a guerra, que não está a conseguir ganhar a guerra na Ucrânia. Estamos a chegar a uma espécie de, no xadrez chama-se o chamado stalemate, em que a Ucrânia tem de resistir, mas a Rússia também não consegue vencer a guerra.

Antes de mais, em relação ao facto de ser Ursula von der Leyen que proferiu essas palavras, isso é o que é esperado da líder da Comissão Europeia e era o que também se imaginaria e esperaria de outros líderes europeus. De alguma forma, dar uma mensagem de esperança, pelo menos publicamente, em relação à Ucrânia. Aquilo que me parece quanto ao futuro da guerra, aquilo que mais interessa e que me parece que é o cerne da sua questão, é que a guerra está de facto a mudar de faceta. Eu recordo-me que há um ano, dois anos, nós concentrávamos-nos, e parece que o foco da guerra era sobretudo a linha da frente, a linha de contacto, os avanços territoriais russos, os contra-avanços ucranianos. Isso parece ter perdido importância, porque hoje em dia parece que o foco da guerra não está tanto nesta linha de contacto, mas antes no que se passa atrás desta linha de contacto. Primeiro, por aquilo que acabámos de ver agora e de falar agora, porque os russos têm intensificado massivamente os seus ataques em solo e em território ucraniano, bem para lá da tal linha de contacto no Donbass, mas também porque os ucranianos têm aumentado, e essa talvez seja a grande novidade nos últimos tempos, têm conseguido aumentar e também intensificar massivamente os seus ataques contra a Rússia, dentro de território russo, e às vezes bem dentro de território russo. E portanto, acho perfeitamente possível que a Rússia até uns meses, um ano, consiga eventualmente atingir os seus objetivos territoriais na Ucrânia, ou seja, controlar aquele território que se propõe a controlar no Donbass, não garanto, mas acho possível, e ainda assim, a guerra continue porque a Ucrânia vai continuar, parece-me, a ter capacidades fortes, através nomeadamente destes ataques com drones, de infligir perdas e prejuízos à Rússia bem dentro do seu território, como é exemplo estes ataques à Amazon da Rússia, esta Wildberries, que têm de facto marcado a campanha ucraniana nos últimos meses.

Não temos muito tempo, por isso queria já passar para o tema do Irão, a guerra no Médio Oriente, com o Irão a apontar uma espécie de bluff de Donald Trump quando o ameaça com a guerra económica para o Médio Oriente. Eu pergunto como é que podemos entender, como é que podemos ler essas ameaças de Donald Trump e esta estratégia do Irão, especialmente ao longo dos últimos dias, de ir tentando desacreditar Donald Trump.

Eu compreendo, sinceramente, aqui sem querer tomar as dores e muito menos a posição do Irão, eu compreendo que essa seja também a posição do Irão, porque de facto, aquilo que Donald Trump diz hoje em dia, sobretudo se for na sua rede Truth Social, vale muito pouco. Já ouvimos ameaças de destruir toda a civilização iraniana, já ouvimos ameaças constantes de ataques a infraestruturas energéticas e civis iranianas que depois acabam por não se materializar. Portanto, isso traz quase uma ambiguidade, que eu não sei se é estratégica, acho que não, que quase é interessante do ponto de vista norte-americano, porque os iranianos com certeza terão muita dificuldade em conseguir decifrar aquilo que Donald Trump efetivamente fará, ou pelo menos não se acreditam naquilo que Donald Trump dirá que fará. Agora, do ponto de vista da guerra económica, a grande novidade dos últimos dias não é tanto aquilo que os Estados Unidos diretamente poderão fazer em relação ao Irão ou estão a fazer em relação ao Irão, mas mais aquilo que foi anunciado, já não me lembro se ontem ou anteontem, pelos Emirados Árabes Unidos, que é um corte de relações económicas que ainda mantinham com o Irão, e isso sim, poderá ter um impacto significativo na economia iraniana, não só porque os Emirados Árabes continuavam até à data a ser um dos principais importadores de produto iraniano, mas também porque era uma das principais praças financeiras onde o regime iraniano ainda conseguia ter acesso a moeda estrangeira. E este bloqueio, que foi anunciado pelos Emirados Árabes na sequência de alguns mísseis que terão sido dirigidos a embarcações e ao próprio território dos Emirados Árabes Unidos por parte do Irão, também importa dizer que o Irão negou ser o autor desses ataques. Mas se isto se vier a materializar, isso poderá ter impactos na economia iraniana, que por tudo o que é mais evidente, já está a sofrer fortemente com este conflito, e isto poderá ter interesse num objetivo estratégico de Israel anunciado, mas também que me parece que é cada vez, e vai ter que ser necessariamente, sobretudo a seguir às intercalares, o grande objetivo estratégico talvez do fim do mandato de Donald Trump, que é na tal questão, famosa questão da mudança de regime. Porque se há ainda alguma esperança disso poder vir a acontecer nos próximos tempos, provavelmente o principal fator para que isso possa vir a acontecer é precisamente uma espécie de estrangulamento económico ao Irão, que leve com que as populações insatisfeitas se desloquem novamente para as ruas e protestem contra o regime.

Francisco Calheiros de Lima, infelizmente não temos mais tempo neste Gabinete de Guerra. Obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador.

Obrigado a você pelo convite.

Aproveito para dizer que este episódio fica disponível dentro de momentos em podcast em todas as plataformas.