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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, a análise é do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo, coronel.
Olá, Maria João, tudo bem? Bom dia.
Bom dia. Começamos pelo pedido de demissão do secretário de Exército dos Estados Unidos, Dan Driscoll, que sai depois de meses de tensão com o secretário de Defesa Pete Hegseth. Coronel, a imprensa e vários analistas dizem que a administração americana deixou de ter um objetivo claro no Médio Oriente. Sem o respaldo do Congresso e com estas cisões na hierarquia militar, a intervenção dos Estados Unidos contra o Irão arrisca transformar-se num pântano sem uma estratégia de saída?
Neste momento, a estratégia de saída parece ser, ainda que vá variando todos os dias, levar o Irão a aceitar as condições que os Estados Unidos pretendem. Houve a primeira tentativa, que foi decapitar o regime e levá-lo a capitular com aquele ataque massivo, não funcionou. Depois, parece não ter havido uma alternativa para se isso falhasse. O que se seguiu foi uma continuação dos bombardeamentos. Agora estamos na parte do garrote econômico, mas a ideia que eu tenho é que os objetivos são os mesmos. Os objetivos são sempre aqueles de levar o Irão a desarmar em termos nucleares, desmantelar o seu programa nuclear com fins militares e, no fundo, subverter os seus proxies, as suas redes de promoção do terrorismo, e a parte dos mísseis. Esse parece ser o objetivo. A parte do estreito Ormuz surgiu depois, embora o Irão já viesse antes desta guerra, aos poucos, impondo o seu poder no estreito através do apresamento de navios, o ataque de alguns, já tinha feito isto antes e para lá se encaminhava, mais tarde ou mais cedo, e ia fazer o que está a fazer agora.
A estratégia de saída, não é?
A saída será ganhar, porque a outra é perder. E esse é que é o problema. Se os Estados Unidos não conseguirem impor esses objetivos, a estratégia de saída será perder. Ou seja, é claro que o ideal será sempre através da negociação, levar a que isso seja alcançado. Até porque a parte do nuclear e a parte dos proxies, pela própria dinâmica da guerra, já foram sendo reduzidos a uma dimensão que não é tão grande como a que tinham. Agora, qual é a estratégia de saída quando se inicia uma guerra destas? É ganhá-la ou perdê-la. Agora, ganhá-la ou perdê-la depende do modo como se conseguir. Se conseguir através de negociações e desta asfixia econômica, será ótimo. Se não conseguir, resta a derrota, e a derrota será muito pior do que qualquer estratégia de se manter lá.
O presidente do Irão diz que não vai ficar de braços cruzados depois dos Estados Unidos confirmarem ataques de precisão contra a ilha de Larak e impôs como condição, para fechar o acordo de Ormuz com Omã, que Washington levante o bloqueio e recue nas sanções. Esta posição prova que o Irão sente que Washington está sob maior pressão econômica e militar para fechar um acordo do que o próprio regime iraniano?
Não, o presidente do Irão não conta muito nisto. Ele não tem qualquer poder de decisão naquela estrutura. Ele nem sequer é persa, eu acho que é azeri. Não é alguém que conte. Aliás, ele muitas vezes diz uma coisa que é para sinalizar virtude dentro de quem manda no regime e depois diz outras coisas, que é necessário negociar, é necessário que se saia com acordo, o Irão não aguenta. Não diz desta maneira, mas sugere.
Quem decide é a Guarda Revolucionária.
Exatamente, a Guarda Revolucionária que decide. E a Guarda Revolucionária decide através de armas. Aliás, quando se faz um acordo, a Guarda Revolucionária vem por trás e altera as cláusulas ou não as cumpre, incumpre-as mesmo, como aconteceu no caso do memorando que foi assinado por Joe Biden, ou pelo menos anunciado pelo vice-presidente americano. O que ele faz é, no fundo, ele é um porta-voz da junta. Quando se pensa que os Estados Unidos não estão com estratégia de vitória, eu acho que estas sanções que se impuseram agora, esta economic outcast, esta operação, a intenção dela eu acho que é boa. É uma intenção de asfixiar o regime, que não está neste momento muito bem. O Irão perdeu quase mais de metade do PIB em termos de prejuízos desde que a guerra começou. Não está à vontade. Aliás, não está nada à vontade. E o bloqueio naval está a causar grande prejuízo. Vai inevitavelmente chegar o momento em que se isto se mantiver, se os americanos apertarem bem o garrote, o Irão não vai ter a capacidade de perseguir a sua estratégia. Pode manter algumas armas, e vai mantê-las sempre. Não terá a capacidade de pagar o funcionamento do regime e pagar a própria Guarda Revolucionária. É preciso que estas sanções sejam mais incisivas e ataquem onde deve-se atacar, que é colocar em xeque algum banco chinês que faz o processamento do dinheiro e dos dinheiros vindos do petróleo.
Falou na China, em Biskek, no Quirguistão, começa hoje mais uma cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que junta os líderes da China, Rússia, Irão, Índia. Um dos grandes objetivos declarados desta cimeira é acelerar a criação de rotas de transporte e comércio que contornem totalmente as vias marítimas controladas pelo Ocidente. Coronel, esta cimeira de Xangai está a conseguir criar uma economia regional à prova de sanções americanas e europeias?
Essa é a intenção anunciada há muito tempo. Agora, partindo de intenções para chegar à realidade, nós temos que ver que hoje em dia, quase 60% das divisas do mercado de câmbio mundial é dólar. A China, o renminbi ou o yuan, é apenas 2%. 20% é euro. É possível haver comércio localizado entre alguns países, embora também haja muitas divisões no seio da organização. A Índia não tem nada a ver com a China, aliás, nem sequer são amigos, até são inimigos estratégicos. É verdade que Se os Estados Unidos insistirem no uso continuado de sanções econômicas, ou seja, tentar excluir do mercado mundial certos países, estão obviamente a propiciar a que se tentem criar alternativas. A China também não quer ficar afastada do comércio com os Estados Unidos. Aliás, é de onde vem o seu maior, enfim, não tem interesse nenhum econômico em fazê-lo. Só o fará em última instância se realmente isto se tornar incomportável. Portanto, essa intenção de haver, e há já neste momento, a capacidade de negociar. E neste momento a China e a Rússia negoceiam entre elas em yuans e em rublos, está a acontecer isso. O problema é que depois transformar isso em dinheiro usável no mercado mundial, obriga a estar presente nesse mercado mundial, e os bancos chineses fazem isso muito bem. Os grandes bancos chineses, que também têm interesses obviamente nos Estados Unidos, não os querem perder. No fundo, essa ameaça das sanções americanas é fazer com que estas entidades que reprocessam comércio sujo ou por baixo da mesa ou contorna os mecanismos legais, que estes agentes sejam ameaçados de que podem perder o acesso ao mercado americano e ao mercado internacional em dólares. E isso é um dilema terrível. Não o farão facilmente, porque há muito mais a ganhar aí do que no desconto de quatro ou cinco dólares no barril de petróleo.
Sobre a guerra na Ucrânia, a revista The Economist revela que Vladimir Putin confidenciou ao seu círculo próximo que teme ser assassinado ou derrubado se não conseguir conquistar a totalidade do Donbass antes de fechar um acordo. Coronel José do Carmo, esta percepção de risco pessoal mostra que o maior obstáculo a um cessar-fogo não é propriamente a geopolítica global, mas sim o receio de Putin de que o regime e as elites russas não lhe perdoem uma derrota militar?
Pois, eu não sei até que ponto. É verdade, faz sentido. Faz sentido e na Rússia quem perde normalmente não acaba em muito boas condições. A derrota na Rússia não é premiada e todos os líderes sabem isso. Putin, que começou por desencadear esta campanha, tendo em vista as glórias passadas do império soviético, e a reposição, e conquista, e a geopolítica da Eurásia, todas aquelas coisas grandiosas que ele acreditou ser capaz de prosseguir, neste momento, de facto, está uma situação em que está a lutar pela sua vida, e literalmente pela sua vida. Nota-se que ele é um bocado paranoico, aliás, a maneira como ele põe aquelas mesas em que se mede 10 metros de distância. Há aí claramente sinais, que podem ser da própria formação profissional, ele era dos serviços secretos, e pode ser isso. Agora, há ali uma paranoia. E também é típica nos agentes do Kremlin, já Stalin também era até desconfiava do médico. Essa paranoia existe. Agora, neste momento, Putin sabe que mesmo os funcionários que estão à sua volta, os oligarcas, toda essa gente, não é gente boa. É gente que está ali com a faca atrás e que se podem exportar em determinado momento e acharem que têm vantagem com isso, falavam com a maior das facilidades. Não há ali muitos valores de honestidade e lealdade.
Mas que implicações é que este medo tem no teatro das operações?
O medo é que ele não quer perder.
Portanto, é o tudo ou nada.
Exatamente. Ele sabe que perder não é perder apenas esta guerra. Ele neste momento parece que está focado claramente no Donbass. O Donbass é neste momento a sua fixação, é aquilo que lhe permitirá ter alguma coisa, aumentar alguma coisa ao império e deixar para posteriores oportunidades o resto, mas permite-lhe não sair como um derrotado, ou pelo menos não como um derrotado total. E portanto, digamos que é uma boia de salvação para ele próprio. E portanto, neste momento, o seu foco é esse, é incrementar a pressão e é provável até que mobilize, e é provável que aumente os ataques e que tente desesperadamente conquistar o Donbass, embora com o ritmo que está a ocorrer actualmente, isso não acontecerá este ano nem no próximo.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Uma boa semana para si, coronel.
Igualmente para si.
Obrigada.