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Têm sido várias as denúncias de crimes de guerra e violações de direitos humanos levados a cabo pela Rússia em território ucraniano. Teve oportunidade de testemunhar ou de ouvir relatos sobre esses atos?

Claro, fizemos alguns relatórios sobre isso e provámos que o exército russo levou a cabo ataques indiscriminados contra civis e foram desproporcionais, o que significa que o alvo do ataque poderia ser legítimo, mas por causa da natureza da arma em questão, não era possível atacar apenas o alvo diretamente e foi atingida a zona em volta. Em segundo lugar, desproporcional porque o nível de vítimas em resultado do ataque é superior ao legítimo. Por exemplo, se houver uma casa e os russos presumirem que há lá um soldado ucraniano, mas naquele momento há também 40 civis lá dentro, um ataque desta natureza é desproporcional. Nós, como a Amnistia Internacional, conseguimos provar, e já provámos, que os russos usaram ataques desproporcionais e também indiscriminados contra civis. Para além disto, levaram a cabo execuções sumárias, tortura e outras violações de direitos humanos.

A Amnistia na Ucrânia tem documentação para apoiar estes relatos?

Sim, temos documentação e uma investigação sólida sobre isso. Temos investigadores que trabalham em locais de conflito um pouco por todo o mundo. Eles conseguiram ir para a Ucrânia e provar ao usar os próprios olhos. Usamos diferentes métodos para provar diferentes violações. Usamos imagens de satélite, falamos com testemunhas, tentamos estar no terreno para que os investigadores testemunhem em primeira pessoa. Para além disso, recolhemos dados oficiais de fontes oficiais, entre muitas outras fontes. Foi assim que conseguimos provar que aconteceram ataques indiscriminados e tortura. Usamos todos estes métodos para obter esta informação. Por exemplo, se o Tribunal Penal Internacional um dia nos pedir provas que suportam os nossos relatórios, nós conseguimos prestar essa informação. Claro, depois da aprovação dos sobreviventes e vítimas. E a metodologia utilizada nos nossos relatórios é semelhante à do tribunal, ou seja, as nossas descobertas podem vir a ser usadas pelo Tribunal Penal Internacional e talvez por outras instituições internacionais para futura investigação a nível internacional sobre as atrocidades cometidas na Ucrânia.

E já enviaram estes testemunhos para as autoridades?

Sim, eles têm conhecimento do nosso trabalho, até porque estes relatórios são públicos, mas vamos trabalhar para talvez apoiar o Tribunal Penal Internacional com as nossas provas, porque a forma como foram recolhidas estas provas pode tornar o processo no tribunal mais rápido.

E para a Amnistia Internacional, há situações óbvias da prática de crimes de guerra, como já disse. Pode descrever alguns destes casos?

Sim, por exemplo, em Borodyanka, há três meses ninguém conhecia este nome e era apenas uma aldeia perto de Kiev. Agora é um sítio que muitas pessoas conhecem por motivos negativos. Por exemplo, houve um conjunto de edifícios que foram atacados por mísseis russos. Num deles havia 40 pessoas, todas morreram com apenas um ataque. Nós estivemos lá, conseguimos falar com pessoas que viviam perto do edifício e que viram o que tinha acontecido ali e que ajudaram a extrair os corpos daquele sítio. E nós provámos onde é que o míssil caiu, de que tipo era e que o alvo era mesmo este edifício. E também que os russos não fizeram isto sem se aperceberem. Eles tinham um objetivo, sabiam para onde estavam a enviar este míssil. Era um edifício grande, com muitas casas e por isso eles sabiam, podiam presumir que havia civis lá dentro. É como no exemplo que dei, 40 pessoas mortas em dois minutos, sem nenhum propósito. Vou voltar a sublinhar, sem nenhum propósito, porque não havia um alvo legítimo ali, não havia bases militares ou algo semelhante, não havia nada. Eram só 40 pessoas que estavam a tentar esconder-se na cave e que nunca mais saíram. Ou, por exemplo, quando Izyum foi atacada, uma cidade na região de Kharkiv, os russos tomaram como alvo residências civis toda a hora e nós conseguimos obter informação no terreno, conseguimos entrevistar pessoas que foram retiradas da cidade. Por isso provámos de onde foram enviados e onde caíram os mísseis, porque usámos imagens de satélite, que tipo de mísseis eram, quais foram os resultados a nível de mortes e onde estavam os soldados ucranianos naquele momento. E voltámos uma e outra vez a provar que não havia alvos legítimos. Eles estavam apenas a direcionar os ataques contra a população civil. Talvez pensem que todos os ucranianos são lutadores ou que todos têm uma posição pró-ucraniana e que têm de ser mortos. Mas nós temos a Convenção de Genebra. Nós, como seres humanos, concordámos em algumas leis e agora vemos que um lado quebrou definitivamente essas regras.

Recentemente, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, apelou ao apoio do Conselho para uma abordagem abrangente e ambiciosa sobre a responsabilização a longo prazo do que tem acontecido na Ucrânia. Quais é que são as recomendações da Amnistia?

Responsabilização. Eu penso que agora, tantos países como possível que queiram ajudar a Ucrânia a fazer justiça, têm de ajudar as autoridades ucranianas a preservar, a recolher provas para formular uma posição perante os procuradores e as autoridades. Eu sei que é pouco usual uma organização de direitos humanos dizer coisas como esta, mas estamos numa posição em que eu acredito que mesmo que tentem o melhor, as autoridades ucranianas não vão conseguir lidar com um número tão grande de casos, considerando o que já têm em mãos e que vão aumentar quando os territórios que estão ocupados forem libertados. Eu não consigo imaginar quantos casos vão existir quando Mariupol for libertada. Não sei. Centenas de milhares, milhões, ninguém sabe. Por isso, definitivamente vamos precisar de apoio da comunidade legal em diferentes aspectos. Podem ser investigadores, procuradores, advogados de diferentes países que possam dar apoio às vítimas destas violações só para apoiarem os casos. As pessoas enfrentaram situações tão traumatizantes, perderam as casas, entes queridos, perderam famílias, algumas ficaram feridas, com incapacidades para o resto da vida e em breve vão chegar ao momento em que vão ter de lutar pelo seu direito. Porque vai haver milhões de casos e o governo não vai conseguir lidar com todos. Por isso era bom o apoio de fora, se advogados de diferentes países conseguissem apoiar um ou dois casos, só para apoiar. Eles não têm de ser especialistas na lei ucraniana, mas só para garantir que as famílias não desistem de lutar e que recomeçam a vida delas, mesmo com as emoções, lutar pelos direitos delas, porque eu não compreendo como é que o governo vai conseguir lidar com isto. Não consigo. Porque a Ucrânia agora não tem dinheiro sequer para reconstruir as casas de todas estas pessoas que as perderam. Isso é um grande problema. As habitações. A Ucrânia tem inverno, não podemos deixar estas pessoas nas ruas. Elas têm de encontrar um sítio para viver. E de um ponto de vista dos direitos humanos, é o governo que tem a obrigação de providenciar estas habitações. Mas depois, nas nossas reuniões com o governo, posso dizer que não há dinheiro para isso, o que significa que vai haver muitos pedidos, muitas histórias más, muita dor e é aí que o apoio internacional vai ser preciso para continuar a pressão e também para continuar a apoiar os casos no tribunal e com as autoridades que estão a investigar para que as pessoas lutem pelo direito de terem uma casa.

E a Amnistia Ucrânia tem balanços de mortes de civis ou balanço de edifícios de civis que tenham sido atacados?

Ninguém tem e ninguém vai ter até os territórios ocupados serem libertados. Nós temos alguma informação de algumas cidades que foram libertadas e ela é oficial, está na internet, mas no geral, não. Alguma informação nunca vai estar disponível. Por exemplo, em Mariupol, ninguém sabe o número de mortes, nem o número de edifícios destruídos. Ninguém sabe e esse é o problema. E essa é só uma cidade. Há muitas outras cidades com casos semelhantes. Mariupol é só mais conhecida porque tem Azovstal, também porque é importante para a Rússia, mas há muitas outras cidades que estão na mesma situação e ninguém presta atenção porque não são tão conhecidas. Quando nos reunimos com as autoridades, perguntamos e eles disseram o mesmo: ninguém tem esta informação. Eles nem têm como objetivo chegar a esses números. Dizem só que vão ter dados depois da libertação dos territórios.

A nível pessoal, como é que viveu este conflito? Como é que foi afetada? Onde é que vivia antes?

Antes da guerra, estava a viver em Irpin. Vivi lá durante três anos, por isso é que para mim é tão doloroso. O mercado onde eu costumava comprar cenouras e batatas durante anos ficou completamente destruído. Os meus vizinhos foram mortos, estão enterrados nos jardins das casas. As caves estão cheias de pessoas mortas. Eu não tenho capacidade para voltar para Irpin. Foi libertada há mais de um mês, mas eu não sou assim tão corajosa. Muitas pessoas estão a voltar, mas eu não consigo. Continuo a ter um sentimento, talvez porque vi muitos vídeos, muitas imagens. Faz parte do meu trabalho. Tenho um sentimento que o chão está cheio de fragmentos de corpos de pessoas. Tenho medo que se eu caminhar lá, os meus pés pisem restos mortais. Eu não consigo lidar com isto. Por isso acho que não é o momento para mim, pessoalmente, voltar para lá ou estar lá. Para além disto, há problemas com minas. Não é fácil. Ainda há muitas minas que foram deixadas por soldados russos. Estão escondidas para fazer mal às pessoas, mas é um problema psicológico. Eu sei que as pessoas conseguem estar lá. Quer dizer, todos os jornalistas do mundo estiveram lá, mas eu não consigo.