Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de tensão geopolítica. Na edição desta noite contamos com a análise de Orlando Sá Mendes, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Boa noite, obrigado.
Vamos começar pelas declarações do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que admitiu hoje sentir-se traído por Donald Trump, diz que está a perder o apoio dos Estados Unidos e afirma também que o presidente norte-americano está no lado errado do conflito. Pergunto-lhe em que ponto está a relação entre Washington e Kiev. Donald Trump escolheu já o lado russo?
Boa noite, muito obrigado pelo convite. Nós estamos aqui, de facto, numa altura muito complicada, em que tudo aponta nesse sentido. Sabíamos, desde o início deste mandato de Trump, de algumas das dificuldades que a administração de Trump tem em perceber efetivamente o que se está a passar entre a Ucrânia e a Rússia e que, se calhar, a Federação Russa está a tentar encontrar uma nova maneira de se articular perante a Europa. Ou seja, está em reajuste perante o fim, quer do império, quer da União Soviética, e a maneira de se reconstituir enquanto potência vai precisar de se ajustar melhor nas suas fronteiras. Sempre houve estas questões de muita dúvida sobre onde é que efetivamente termina, quais são as fronteiras do império. E neste momento estamos com essa dificuldade. O Trump vai equilibrando à maneira dele a situação, nomeadamente até dividido entre as duas palavras que tem quando se diz, por exemplo, "eles odeiam-se mutuamente". Ele tem uma tendência para dizer quer a Rússia, quer a Ucrânia, como que na mesma frase, ou seja, tentando nivelar o problema. E se calhar, perante um e o outro, notámos desde o início um certo encantamento para com líderes como Putin, que muitas vezes parecem estar muito à vontade perante as vicissitudes e as possíveis limitações de estar no poder, porque no fundo não sentem os freios e os contrapesos que um regime norte-americano ou da Europa Ocidental terá para com os seus presidentes ou primeiros-ministros. Portanto, ele se calhar tem este encantamento de ver um líder a quem ninguém consegue dizer que não e toda esta forma de estar da Rússia, a beleza do país e desta organização que ele vê centrada em Putin como um país muito inspirador e, se calhar, também percebe algum da narrativa russa, deste que se falou logo no início, do alargamento que o mundo ocidental estava a fazer, se calhar, até por via da NATO, a um conjunto de países cada vez mais a leste. Trump também pode ter, se calhar, uma espécie de interesse próprio, não sabemos o que é que Putin saberá sobre ele. Sabemos que cada vez que Trump tinha uma posição um bocadinho mais neutra, quer Lavrov, muitas vezes mais pela voz de Lavrov do que de Putin, apareciam aquelas expressões, o espírito do Alasca. Ou seja, o encontro de agosto de 2025 seria lembrado como sendo o espírito de um acordo que iria servir à prosperidade futura entre a Rússia e os Estados Unidos. Isso pressupunha Estados Unidos com uma posição muito mais favorável à Rússia. Para além da própria postura de Zelensky, que se calhar não é do tipo de personalidade que Trump, não é só questão de não ter as cartas, pode ser também aqui uma questão de personalidade e de forma de estar de um país, neste caso a Ucrânia, que ainda quer pertencer a esta velha Europa, que se calhar Trump também não vê com muito bons olhos, e a maneira como até tivemos estas participações na Europa, nas cimeiras de defesa em Munique, quer de J.D. Vance, quer aí até de Marco Rubio, que normalmente é bastante mais moderado e uma pessoa mais preparada para perceber muitas das relações internacionais, mas que também nessas cimeiras de segurança tinham sempre uma palavra muito forte para com a Europa. Isso está agora a vir ao de cima numa altura em que Trump está muito pressionado pelas eleições de 3 de novembro, em que está a querer encontrar culpados à força da situação económica em que está e portanto, pressionado, quer encontrar uma maneira de, no fundo, encostar a Ucrânia à parede e obrigá-la provavelmente a aceitar condições que não seriam aceites se houvesse uma posição um pouquinho mais favorável. A palavra traição é muito forte, mas é uma traição, tendo em conta que aqui a posição de Trump não é apenas momentânea de presidente dos Estados Unidos, devia ter mais em consideração aquilo que são não só as alianças passadas, mas os tratados e um conjunto de acordos que até foram iniciados por parte de Joe Biden, que chegou a dizer que "estaremos do lado da Ucrânia o tempo que for necessário" e ficou associado a esta frase, mas que também só libertou a Ucrânia para poder fazer ataques em solo russo muito mais tarde, aliás, quase no fim do seu mandato, em novembro de 2024, na altura em que já tinha perdido, também já não era ele o candidato, mas em que já não haveria muita possibilidade de dar continuidade às suas políticas e que deixaria na administração seguinte a possibilidade de continuar ou não. Sabíamos desde o início que esta traição poderia acontecer. Não é uma traição que nos deva espantar muito, porque Trump já teve várias vezes atitudes muito impulsivas, momentâneas, baseadas em circunstâncias particulares. Esta pode ser uma delas, em que se sente pressionado, tenta até pedir para a Rússia vender O petróleo, aqui nesta vertente até de gasóleo muitas vezes, que é aquela que é mais deficitária no mundo, que vai em sentido contrário àquilo que a administração Trump e que o Scott Benson exigia a todos os países, que era precisamente através das chamadas sanções secundárias, não só não comprarem diretamente à Rússia, como àqueles que compram indiretamente. E, portanto, estão neste momento os Estados Unidos a incumprir com aquilo que é a sua política. As palavras, para mais em guerra, traição, são muito fortes, porque em contexto de guerra implicam sempre, de fato, a chamada alta traição, são os crimes maiores que podem existir, porque põem em causa a segurança de todo um país. Mas não creio que Zelensky utilize de ânimo leve. Também não creio que Zelensky não seja aqui, de fato, uma vítima desta atitude, até de não ter acesso, neste momento, ao sistema de informações e ao sistema do Starlink, que pode estar a deixar a Ucrânia a reagir de forma mais tardia, porque obviamente não tem a agilidade para saber exatamente em tempo real aquilo que se está a fazer nos ataques vindos da Rússia. E, portanto, podemos estar numa situação em que nós sempre quisemos o fim da guerra. Podemos estar pelas piores razões, exatamente muito perto do fim da guerra neste momento, não sabemos. Sabemos que a capacidade adaptativa da Ucrânia é gigantesca, mas neste momento nem a Europa nem a Ucrânia terá forma de, no muito curto prazo e nos próximos dias, fazer face a uma situação em que não tem acesso a um sistema de informações que possibilite responder perante as investidas da Federação Russa.
Volodymyr Zelensky e Andy Burnham estiveram hoje reunidos. Depois do encontro, o primeiro-ministro do Reino Unido anunciou que o país está a agilizar a entrega de defesas aéreas britânicas à Ucrânia e defendeu também mais sanções à Rússia e ainda uma renovação do apoio de Donald Trump à Ucrânia. Esta tarde, Zelensky esteve também reunido com o rei Carlos III. Esta visita ao Reino Unido, é Zelensky a procurar reforçar a relação com os aliados numa altura de tensão entre Washington e Kiev?
Sim, mas eu creio que a posição do Reino Unido é mais interessante aqui do que uma nota de rodapé. Temos que lembrar que sempre que esta relação com Trump e com a Casa Branca se problematizou, nomeadamente aquele célebre encontro em fevereiro de 2025, foi precisamente para os braços de Starman, na altura primeiro-ministro inglês, que Zelensky acorreu. E foi a partir daí que se começou a falar da tal ideia de gizar uma coligação de vontades, que no fundo acabou por ser um pouco liderada pelo Reino Unido. Aliás, no próprio início da guerra, se repararmos, e muita gente que até tem uma posição pública muitas vezes favorável ou que tenta perceber o lado da Federação Russa, o que aliás só demonstra o nosso pluralismo enquanto país, termos várias opiniões, o que é muito bom, porque enriquece assim o debate, mas normalmente explicitam muito que Boris Johnson é que no fundo é uma espécie de culpado por ter ajudado a Ucrânia. Ora, não há de ser culpado da invasão no sentido que não ordenou que as tropas passassem a fronteira, mas foi ele o primeiro a esboçar uma ideia da Europa e em conjunto com os Estados Unidos, se encontrar uma forma de tentar estabelecer um apoio à Ucrânia que pudesse firmar uma posição que seria, no fundo, de Ocidente alargado, para bloquear avanços maiores da Rússia, constituindo assim uma forma de resistência e de ajuda à resistência legítima da Ucrânia em defesa da sua soberania. Começando em Boris Johnson, passando por primeiros-ministros que depois tiveram menos tempo, mas mesmo Rishi Sunak, mais tarde, Starmer, e aí já estamos a falar de uma troca de partido, e agora dentro do Partido Trabalhista, de uma facção bastante diferente, liderada por Burnham, podemos ver que este apoio é completamente transversal à política do Reino Unido. Não é uma questão partidária, é suprapartidária. E o Reino Unido tem, de fato, sido um país que nós até muitas vezes, que na área da ciência política, lembramos o mistério. Há uma cadeia de ouro, há aqui uma corrente de ouro que faz com que o Reino Unido tenha muitas vezes uma postura que nós só percebemos ao longo da história como sendo de ter estado do lado mais correto, mesmo que por vezes não tenha sido a pretensão mais forte. E aqui claramente que o Reino Unido tem tentado fazer esse papel. Note-se a postura que o rei Carlos III teve na visita oficial aos Estados Unidos, que já foi muitas vezes, e não tinha que o fazer, lembrar a Ucrânia e a importância de continuar a dar apoio à Ucrânia. Ele tentou, encontrou maneiras, até por vezes usando ironia, de fazer lembrar Donald Trump essas raízes ocidentais que nos unem e de autonomia até dos povos, nomeadamente, neste caso, da Ucrânia, e que foi vincado várias vezes por parte dele. É natural que Zelensky saia destas reuniões sempre com muita esperança de continuar, pelo menos a ter o país europeu importantíssimo como o Reino Unido do seu lado, mas nós sabemos que não vai ser suficiente. E temos que encontrar aqui uma maneira de continuar a pressionar os americanos e de os fazer lembrar que, no fundo, há mais leituras para além daquela que Trump poderá ter momentaneamente, e que mesmo esta forma de estar de Donald Trump, que no fundo já toda a gente está a verificar que é tão errática, que nem sequer é uma postura muito coerente para consigo próprio, porque ele podia ter razões para defender a Federação Russa, mas não. Aquilo que se nota é que está muito mais sujeito aos momentos e às disponibilidades emocionais do momento e a leitura que faz política para Não perder o controle das Casas do Congresso que estarão sujeitas a eleições, e nomeadamente a Câmara Baixa vai completamente a eleições de dois em dois anos e que o pode deixar à mercê, nos próximos dois anos, de um contrapeso no Congresso que neste momento o deixa possivelmente muito amedrontado e a querer, no fundo, que a Ucrânia ceda. E é isso que está em causa. O Reino Unido aparece sempre nestas alturas cruciais. Vamos ver que efeito é que isto poderá ter. Para já não temos muitas razões para estar otimistas, mas a resiliência de Zelensky tem sido tanta que até por vezes é difícil, sem a distância do momento, perceber até que ponto é que poderá a Ucrânia continuar esta sua luta que nos parece cada vez mais difícil.
Vamos ainda olhar para o conflito no Médio Oriente. O Irão terá adquirido o armamento mais avançado, é pelo menos o que diz o porta-voz da Guarda Revolucionária Iraniana. Que impacto é que este pode vir a ter e se fica também próximo do tipo de armamento que têm os Estados Unidos?
Não há de ser próximo ao dos Estados Unidos de maneira nenhuma. Aliás, vemos pela dificuldade que a própria Europa tem em conseguir substituir alguns dos equipamentos, mesmo das informações e do Starlink, que não há forma de chegar sequer perto. É, de facto, a tecnologia mais avançada e sobre a qual não sabemos assim tanto até a nível de armazenamento e de quantidades, até quanto é que os Estados Unidos não podiam ter uma postura pouco mais cooperativa em geral com todas as guerras no mundo e no sentido de as tentar não só evitar as futuras, mas também colmatar. Dito isto, o investimento do Irão e uma economia muito mobilizada para a guerra também pode indiciar que estejam, de facto, nesta luta tecnológica e que aliado a isso, a uma capacidade de resistência, de tomar decisões descentralizadas ao nível das províncias, desta autonomia da guarda revolucionária do Irão para continuar a lutar, apesar de já estarmos num período que pode estar um pouco para além daquilo que a própria República Islâmica do Irão conseguiria acompanhar. Ou seja, pode haver aqui também um desgaste de parte a parte. O que é facto é que têm uma tecnologia que é interessante, que muitas vezes foi desvalorizada, que também não sabemos em que medida é que podem continuar se houver um alargar da própria guerra, mas também estão a contar com certo desgaste, até emocional, dos Estados Unidos, que estão então ainda a calibrar uma possível reinvestida na região. Aliás, muito possivelmente os Estados Unidos também não têm a certeza até que ponto é que podem voltar a firmar e reiniciar ataques, nem sequer a resposta que teriam. O Irão também poderia estar à espera de, ao utilizar alguns dos equipamentos e mostrar a sua força junto das bases militares norte-americanas da região e o efeito que teve na economia, através da capacidade que teve de ainda assim conseguir fechar Ormuz, por muito que seja, se calhar, um gesto mais fácil de fazer do que ganhar uma guerra, porque é apenas perturbar um conjunto de quilômetros, 30 e tal quilômetros, e no fundo, de conseguir ali deixar um clima de medo que iniba o fluxo normal de navios. A verdade é que, com muito investimento em armamento, que o Irão fez e tem, com a possibilidade de multiplicar, com a possibilidade de vender até para outros atores, nomeadamente para a Rússia, e depois de receber por interação também inovações, não sabemos que triangulações podem estar a ocorrer, mas o que é facto é que continuam a tornar os seus drones e os seus equipamentos cada vez mais sofisticados e, portanto, são um inimigo cada vez maior. É precisamente por via de terem capacidade para chegar até na altura anterior à guerra, justificou-se os ataques norte-americanos precisamente com a capacidade do Irão a vir a ter mísseis de longo alcance, que são altamente tecnológicos, que podem não dispor em grande quantidade, mas que são o suficiente para deixar toda a região e até parte do mundo em cuidados e a ter que reagir. Nós, infelizmente, desde que a guerra começou na Ucrânia, estamos numa escalada que também passa sempre pela dimensão tecnológica. Nenhum país vai querer ficar para trás e daí a corrida também aos elementos estratégicos e de bens e produtos que possam servir de equipamento e de base, de componente a estes avanços tecnológicos e inovadores. Isto devia servir de sinal para a Europa, para também usar o melhor dos seus conhecimentos e talentos que tem para uma capacidade de inovação da guerra e da tecnologia. Temos que mudar um pouco da nossa maneira de estar e apontar, porque a corrida está aí e não é por nós não entrarmos nela que estes países podem começar a ficar cada vez mais bem apetrechados e começar a ser uma ameaça também para nós, europeus. Fica a nota, deverá haver um fundo de verdade nela, embora eu ache que a tecnologia do Irão ainda tem ali uma capacidade de multiplicação, é certo, e de inovação, mas em princípio também não nos deve deixar muito perplexos e os Estados Unidos serão certamente pioneiros e estarão muito acima. Temos é que continuar na cooperação com os Estados Unidos, muito embora nos custe, porque neste momento a administração norte-americana é muito difícil de lidar, porque infelizmente temos um presidente que usa a magnanimidade, a dimensão e o peso, o gravitas, como se diz, tem o cargo de presidente dos Estados Unidos da América para no fundo dar força às suas palavras, mas que depois não coincidem com a realidade, o que está a esvaziar muito daquilo que poderia ser a liderança do mundo livre.
Chegamos ao final do nosso tempo. Orlando Sá Mendes, especialista em Relações Internacionais, muito obrigada pela sua análise.
Muito obrigado, eu que agradeço.
Obrigada. O Gabinete de Guerra fica por aqui. Está de regresso amanhã.