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Abrimos a porta ao "Gabinete de Guerra", o programa na Rádio Observador em que destacamos as principais questões que marcam a geopolítica mundial. Hoje, na edição da tarde, conto com a análise do coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Trata-se de Jorge Rodrigues. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Jorge Rodrigues, vamos começar por falar sobre a situação na Ucrânia e sobre o Starlink, o sistema de telecomunicações ligado a Elon Musk, que está com acesso cortado na Ucrânia. Por que aconteceu? Estamos perante uma situação intencional e que impacto é que isto pode ter no conflito?
Boa tarde, Rafael. Tudo indica que sim, apesar de não haver provas concludentes que tenha sido intencional, a verdade é que já vamos no segundo dia sem acesso a essa tecnologia e eu gostaria de dizer que basicamente estamos perante os novos conflitos, o conceito de novos conflitos na sua versão mais perigosa. E eu já explico por quê. Em primeiro lugar, porque há um impacto muito elevado de várias dimensões. Trump ameaçou, é certo, Musk veio referir, salvo erro, na sexta-feira, que Zelensky estava a ir longe demais. Portanto, havia aqui uns indícios que algo poderia acontecer e o que está verdadeiramente em causa? Estamos a falar da versão militar do Starshield, portanto, equipamentos que de alguma forma são utilizados pela Ucrânia nas suas operações, foram direcionados para afetar drones em velocidade superior a 160 km/h, o que não é por acaso. Apesar das falhas no terreno terem sido já detetadas a 60, 70 km/h. Tem, portanto, uma dimensão militar de impacto que é diretamente a paralisia dos drones de longo alcance, a desaceleração de eventuais ações ofensivas ucranianas e a não proteção de forças, sejam elas as forças de operações especiais, forças especiais, forças de reconhecimento, de recolha de informações, mas também, naturalmente, numa ação defensiva. É isso que acrescenta, obviamente, à ameaça de Donald Trump, de não fornecer inteligência estratégica ou informações estratégicas, como corretamente dito em português, o que acaba por dar uma oportunidade à Rússia de ganhar iniciativa. Mas temos uma dimensão tecnológica que atrasa, retira capacidades à Ucrânia, que era um dos pontos muito relevantes da sua máquina de guerra, em que de alguma forma vai obrigar a voltar um pouco atrás na utilização da fibra ótica, com as limitações, quer de velocidade, quer mesmo de alcance, que este sistema tem, e acelerar a implementação de meios soberanos, meios próprios como a Satnano, mas que ainda obviamente não consegue compensar o Starlink ou Starshield. Depois há aqui uma dimensão política que não pode ser despercebida.
E há poucas alternativas ao Starlink.
E há poucas alternativas, exatamente. É muito bem apontado. Depois há uma dimensão política, que é nitidamente pressionar Zelensky a aceitar uma paz desfavorável. Há definitivamente um alinhamento, uma teoria de alinhamento, como se diz, no conceito entre um ator privado e o ator estatal e que coloca, obviamente, muita pressão sobre a Ucrânia. Em suma, o impacto sobre a estratégia mid strike, ou seja, retira aquela vantagem competitiva estratégica da Ucrânia, que tinha realmente como objetivo atingir em profundidade a infraestrutura estratégica e logísticas e mesmo reforços militares, reservas, o que retira realmente parte da iniciativa. Mas num outro patamar, e esse ponto é que eu gostaria também de salientar de uma forma muito breve, também representa muito no plano geopolítico, os tais novos conflitos entre Estados muito dependentes de tecnologia, que é a weaponização das tecnologias, a utilização de forma quase como uma arma do acesso à tecnologia. E isto é agravado por atores não westfalianos, ou seja, que não são Estados, que não têm aquelas referências de segurança e bem-estar dos seus cidadãos. É um ator privado que controla uma infraestrutura crítica que acaba por desenvolver de acordo com interesses próprios e alinhamento. Isso é particularmente relevante no plano do sistema político internacional, porque é o incarnar de uma preocupação extrema, que é a utilização de atores privados, de acordo com a sua vontade, de infraestruturas que têm um impacto a nível global.
Vamos continuar a falar sobre o conflito na Ucrânia, até porque a conversa entre Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, o presidente da Rússia, teve como resultado um acordo sobre os combustíveis e também uma mudança de atitude da Casa Branca em relação à Ucrânia, em que ponto é que estamos neste momento e se este foi um revés para o lado ucraniano.
Foi um revés. Rafael, isso soa um pouco a desespero eleitoral, antes de mais nada, por parte de Donald Trump. É um acordo que por si procura corrigir a inflação, reduzir o preço dos combustíveis, mas é de impacto questionável. É volume insuficiente e o impacto da crise no Irã e Hormuz é muito maior, de facto. Mas obviamente que isso tem repercussões na Ucrânia. Dá a sensação que Trump mais uma vez vendeu a Ucrânia para o seu próprio sucesso. Não é a primeira vez, de facto. No início pensou que resultava dada a fragilidade da Ucrânia, mas seja por resiliência da Ucrânia, seja por ação de apoio da União Europeia, a verdade é que isso não foi conseguido, não foi permitido. Mas há uma pressão política, uma pressão política para mudança de regime, para alguém, qualquer pessoa que assine um acordo de paz desfavorável à Ucrânia Respeitando os objetivos maximilistas de Putin, há uma pressão militar no não acesso à inteligência, à informações, seja defensivas, seja mesmo no plano ofensivo, o não acesso ao Starlink, como já vimos, e o parar os ataques às infraestruturas energéticas de tal acordo que só Donald Trump é que conhece, que numa perspectiva global até poderia ser algo particularmente interessante, um bom primeiro passo, mas que não sendo aceite pelas partes e, em particular, continuando Putin a atacar infraestruturas energéticas, naturalmente transmite uma fragilidade extrema a este cessar-fogo. Portanto, não foi negociado e a Rússia quebrou o ataque. E que consequências? De imediato nós temos o agravamento da imagem de desconfiança sobre Trump. Isto paga-se a longo prazo. Ele já foi sentindo alguns sinais, como foi, por exemplo, o não apoio dos seus aliados ocidentais à operação no Irão, mas vai pagar mais essa mensagem no futuro, ele e eventualmente futuras administrações. Há aqui a comprovação de uma fissura a nível da aliança ocidental. A rapidez com que o primeiro-ministro do Reino Unido promove uma reunião com o Zelensky antecipa a entrega dos Light Multi-Role Missiles, muito eficazes contra o Geran-5K5, os drones a jato. Portanto, ali uma preocupação também em aumentar as sanções aos russos e no sentido de marcar uma posição particularmente forte. Mas em última análise, com todas estas envolvências, acaba por retirar capacidade operacional da Ucrânia e cria aqui uma janela com condições para a Rússia ganhar um pouco a iniciativa, até a Ucrânia se adaptar. E a Ucrânia tem sido muito rápida a adaptar, mas a verdade é que cria aqui uma janela de oportunidade para os russos.
Vamos também abordar aqui a versão NATO, a dinâmica NATO neste conflito não direto, obviamente. O general comandante da NATO na Europa falou numa teoria da vitória. O que significa este discurso e que ligação é que podemos fazer aqui também ao conflito na Ucrânia?
Rafael, faço já uma pergunta: será o fim da ambiguidade estratégica da NATO? Este discurso foi muito relevante, não mereceu a devida atenção, na minha opinião, nos meios de comunicação ocidentais, uma discussão inclusivamente no plano político, e que partindo de um princípio que é necessário moderação no discurso para evitar eventuais caladas comunicacionais e obviamente a nível de conflito, mas também é essencial não demonstrar uma imagem de fraqueza. E este discurso, teoria da vitória, começa por ser relevante por quem o disse, o general norte-americano Glen D. VanHerck, na Polónia, ou seja, um vizinho da Rússia no Fórum de Segurança de Varsóvia, em que marca uma posição e marca particularmente uma mudança na postura militar e comunicacional da NATO, da aliança. Claro que há sempre o risco de belicismo e escalada, mas em boa verdade, mais uma vez, é irrelevante esta mudança de posição no sentido de colocar alguma força no plano da dissuasão. E em que consiste em termos militares? Eu diria que consiste basicamente em duas linhas, um framework operacional desenhado para deter a agressão russa, diria que multidomínio, muito relevante este ponto, e com três etapas que são designados 3 Bs, Block, Blunt and Break, que é traduzível por bloquear o ataque, o eventual ataque, travar essa capacidade de avanço e destruir, mas o destruir a frente e apenas o ecossistema que sustenta. E por que isso é relevante? Pelas verdadeiras mensagens que o VanHerck pretendeu passar, que é uma dimensão psicológica, que é a futilidade de um eventual ataque, uma desnecessidade de um eventual ataque, a prontidão imediata que a NATO tem para poder começar já amanhã a combater, se necessário, a adaptação às características dos novos conflitos, tecnologia, emprego do IA, etc., portanto, com muitas lições aprendidas da Ucrânia, e um conceito de denial defense, ou seja, uma defesa por negociação, numa tradição direta e gestão de escalada, e este ponto é particularmente relevante, que representa a procura da derrota tática, mas evitando a escalada para um plano estratégico, ou seja, colocando do lado da Rússia o ônus de uma eventual escalada territorial e eventualmente nuclear, ou seja, dizer: "Aqui o nosso limite é uma linha vermelha e, portanto, de alguma forma não vamos passar. É da vossa responsabilidade se quiserem ir nesse caminho."
E faz sentido esse caminho? Há pressupostos que levem essa corrente de pensamento a ser uma boa opção?
Há aqui umas referências. Claro que tudo tem vantagens e inconvenientes, isso não há dúvida, mas uma coisa é certa, realmente tem havido, e seria ridículo pensar que a Rússia irá atacar com divisões, estando tão envolvida agora no teatro de operações da Ucrânia, mas é uma realidade que tem desenvolvido uma guerra híbrida, aqui e ali com ações um pouco mais violentas, mas a verdade é que já ultrapassa 200 ações de guerra híbrida sobre alvos europeus. Nesse sentido, é relevante, é muito importante marcar posição e criar aqui uma análise de dissuasão. Claro que tudo isso tem de ser com muito rigor.
E a NATO tem falhado nisso, Jorge Briggs? A NATO tem falhado nisso?
Tem definitivamente falhado nisso e não tem conseguido passar uma imagem de dissuasão, o que não leva o adversário, a Rússia, se o interpretarmos como tal, a interpretar que está com intenções de empregar a força. Isso é o maximizador do potencial, que é exatamente a vontade de combater. E neste momento, até agora, o mundo ocidental, a NATO em particular, tem deixado uma imagem de que não tem essa vontade de combater e que, portanto, está limitada no seu potencial de combate, que é só traduzido pelos meios que tem. E portanto, aqui acaba por colocar um nível mais forte nessa capacidade de resposta, o que naturalmente irá levar o Estado-Maior russo a pensar um pouco melhor nas ações. Com isto, volto e quero reforçar muito este ponto: é muito importante não deixar escalar a retórica, mas de qualquer maneira marcar uma posição firme.
E como é que se evita essa escalada da retórica? É que não me parece que a NATO tenha controle sobre a retórica da Rússia, nem a Rússia tem controle sobre a retórica da NATO. Isto envolvendo apenas os dois principais blocos.
Há, no entanto, um ponto muito relevante, que é uma troca de contactos que evita normalmente que se atinjam determinados patamares. Esses são diretamente pelos Estados Unidos, mas também por outro tipo de contactos que há formais dentro das estruturas. Depois, um ponto que é muito relevante nesta mensagem, que é exatamente a gestão de escalada que eu falava há pouco, ou seja, marcar uma linha vermelha que não é intenção da NATO atacar o território russo, não pretende entrar nem no território russo, nem no território de aliados, como a Bielorrússia, ou seja, não vai entrar na sua buffer zone, na sua zona de proteção, evita a sensação de cerco, não pode ser evocada. E, por outro lado, tem aqui outro ponto muito relevante, que é a direção exclusiva em caso de ataque, ou seja, dá-lhe uma dimensão defensiva que naturalmente acaba por aplacar toda a retórica russa de estar sob ataque. Portanto, com estes dois vetores, eu julgo que estão a ser desenvolvidas as condições para marcar uma posição forte, mas ao mesmo tempo não permitir que haja escalada.
Jorge Rodrigues, vamos avançar, falar da situação também no Médio Oriente, onde, sobretudo no Iémen, os problemas têm-se agravado, há ataques em solo saudita, nomeadamente em aeroportos do país. Estamos aqui perante o risco de uma escalada na região? Até que ponto e a envolver que países deste bloco árabe?
Rafael, temos aqui um security test à Arábia Saudita, nitidamente. Um conflito que já existia, aliás, já tem décadas, dos houthis no Iémen, mas que obviamente está aqui a ser utilizado de uma outra forma. Em boa verdade, a escalada já começou, mas ainda está controlada. Aí se mantiver controlada, teremos boas notícias. Desde o início, a utilização do movimento houthi tem sido uma dimensão estratégica para o eixo de resistência. Tem sido sempre utilizada a miúdo, houve momentos em que contávamos com a sua utilização, mas foi guardado quase que uma reserva operacional, mas agora está a ser utilizada no momento que o Irão precisa, no momento em que, de alguma forma, este eixo de resistência vai maximizar o seu impacto. E o impacto civil, obviamente, é evidente, alvos civis, mortos nos aeroportos de Riade e Damã, que fica no leste, junto à zona da fronteira com o Irão. O impacto energético é evidente, o caos no espaço aéreo também, poderá causar aqui uma inflação global e uma crise energética, tais os ataques às infraestruturas críticas e à Saudi Aramco, a grande empresa petrolífera da Arábia Saudita. Inclusivamente, eu gostava de juntar aqui também as ameaças diversas a infraestruturas como, por exemplo, aos cabos de comunicações em Ormuz. E portanto, esse é um momento particularmente relevante com o objetivo de, fazendo uso de uma proxy war, ter o controle de Bab-el-Mandeb, se possível, destabilizar o Médio Oriente e os países do Golfo aliados dos Estados Unidos, criar um estresse sobre as redes econômico-energéticas globais e melhorar nitidamente a posição negocial do Irão. E o que nós temos que acompanhar para percebermos se está ou não uma situação de escalada em curso? Portanto, a zona de exclusão aérea, de facto, vamos ver como evolui, esse tal estresse do mercado energético global também, mas principalmente dois vetores. A estratégia do eixo resistência, seja em Ormuz, seja através dos diversos proxies localizados em vários países com a capacidade de destabilizar o Iraque, a Síria e a própria Arábia Saudita, o efeito dominó do outro lado do estreito, nomeadamente através do Al-Shabaab, na Somália, mas também Somalilândia, Sudão, Chifre da África, o próprio Djibuti com as bases internacionais e a sua relevância, o comércio internacional e a pirataria naquela região, portanto, muito relevante como vai evoluir este ponto, e depois a intervenção internacional. Se a aliança de Meca vier a intervir, ou seja, se a Turquia ou Paquistão estarão disponíveis para colocar tropas no terreno. Já houve umas reuniões importantíssimas em que foi nomeado um general paquistanês para liderar a resposta desta aliança, mas que se tem resumido a apoio técnico e enablers de capacidades. E a Turquia já veio referir, deixando bem claro que a aliança é defensiva, não haverá tropas no terreno. Esse ponto é relevante porque isso poderia transportar para uma outra dimensão regional e isso, sim, levar a uma escalada regional muito pertinente. Claro que o apoio do Paquistão, nomeadamente através de vários meios de capacidade, já é evidente, e a da Turquia também dentro da área tecnológica e de drones. Mas em boa verdade, não havendo tropas no terreno, permite manter a situação num patamar controlável. A Síria, que já deixou bem claro que não vai intervir, mas que nós sabemos, tem vários combatentes estrangeiros, vamos denominar assim, que podem ser utilizados, como já foram utilizados noutros teatros de operações. Os Estados Unidos que podem, porque já foram solicitados pela Arábia Saudita e que podem a qualquer momento, individualmente ou liderando uma coligação ocidental, vir a atuar, tendo em conta a preocupação do controle pelos houthis de Bab El Mandeb, o que colocaria uma situação de estresse muito elevado nas rotas comerciais. E por fim, Israel. Israel que está numa posição complexa, naturalmente, e nunca será bem-vindo um apoio direto à Arábia Saudita. Em boa verdade, já tem transmitido muitas informações, um intel muito apurado e estratégico que tem sido utilizado pela Arábia e que, portanto, muito rapidamente a utilização de qualquer um desses meios poderá demonstrar e poderá ser a sinalização, serão os tripwires que indicarão se há algum tipo de ação efetiva que pode conduzir a escalada. Seja como for, há aqui muitos vetores perigosíssimos. Há aqui vetores que podem conduzir a uma escalada, seja ela horizontal, seja ela vertical, e que naturalmente tendo em conta já a readaptação das placas na região, podem levar-nos a um conflito com dimensões não só regionais, como a nível global. Naturalmente, a continuidade de ataques à população civil é um ponto de toque que a Arábia Saudita naturalmente não estará disponível para aceitar durante muito tempo.
É uma situação que merece acompanhamento nos próximos tempos. Chegamos ao fim do nosso tempo. Esta edição do Gabinete de Guerra contou com a análise de Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Jorge Rodrigues, muito obrigado. Até uma nova oportunidade. Esta e todas as edições do Gabinete de Guerra ficam como sempre disponíveis em podcast.