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Abrimos o gabinete de guerra da Rádio Observador. Vamos conversar nos próximos minutos com Pedro Nascimento, especialista em história militar. Eu sou o Miguel Cordeiro. Vamos dar especial atenção a este conflito entre o Irão e Israel, também com os Estados Unidos da América envolvidos. Há também uma estranha mensagem de Mark Rutte enviada a Donald Trump e partilhada pelo próprio presidente dos Estados Unidos da América, numa altura em que decorre a cimeira da NATO em território europeu. Já lá vamos. Começamos, Pedro Nascimento, boa tarde, com esta questão de cessar-fogo. Donald Trump anunciou um cessar-fogo entre Israel e o Irão. Durou muito pouco tempo. Passadas umas horas, já se falava novamente em ataques de parte a parte, Israel a dizer que foi o Irão que começou por violar esse cessar-fogo, o Irão a dizer que não, que foi Israel. Tudo agora parece estar novamente numa situação de cessar-fogo. Em que é que ficamos nestas últimas horas?

Boa tarde, Miguel. Boa tarde a todos os ouvintes e obrigado uma vez mais à Rádio Observador pelo convite. Não estamos perante um cessar-fogo no sentido clássico. Eu diria que estamos perante uma pausa tensa, se é que estamos perante essa pausa, onde ninguém quer parecer o primeiro a recuar ou o último a dar conta de si com um ataque. Isto resume bem o momento atual. Basicamente, eu não queria avançar já para aqui, mas é muito mais fácil para explicarmos. Nós temos que sublinhar aqui algo essencial. Todos estamos atentos à atualidade e ao que se passou nas últimas 24 horas. As guerras não se resolvem com anúncios nas redes sociais. É ingénuo, diria mesmo que é perigoso acreditar que um post nas redes sociais possa interromper décadas de rivalidade, desconfiança e agora violência, como assistimos entre o Irão e Israel. Esta rivalidade tem raízes profundas. Esta cisão começou em 1979, porque até aí o Irão era próximo de Israel. Havia uma cooperação militar e econômica, mas Khomeini quando chegou com a teocracia xiita, Israel passou a ser visto como o inimigo. E desde então, o Irão construiu toda uma política externa baseada na resistência a Israel. Mas por isso, quando nós hoje falamos num cessar-fogo, ou quando Trump vem falar desse cessar-fogo, nós temos que perguntar: cessar-fogo sobre o que é exatamente? Foram todos os objetivos atingidos? O programa nuclear iraniano cessou? Israel sente-se seguro? O Hezbollah desmobilizou totalmente? Nada disso aconteceu. Portanto, este anúncio de cessar-fogo pode parecer mais um intervalo do que um fim real. Tendo em conta aquilo que aconteceu nas últimas horas, nós já percebemos que ambos os lados já estão comprometidos, porque quando Trump vem fazer esse anúncio com pompa e circunstância: "Há um cessar-fogo e eu consegui", mais uma vez centrando a sua imagem, pouco tempo depois vemos que o Irão terá enviado mísseis para Israel, Israel terá ripostado.

Mísseis balísticos.

Portanto, parece-nos que isto vai totalmente contra aquilo que os Estados Unidos vieram anunciar.

A questão é que logo depois também vemos Donald Trump a enviar mensagens, ou pelo menos a tornar públicas conversas que terá tido com Netanyahu, a dizer, em caps lock, como habitual: "Parem os bombardeamentos. Acabei de pedir a Netanyahu para parar os bombardeamentos", ordenar, quase a expressão utilizada. Há aqui um certo blefe também daquilo que pode estar a acontecer entre Donald Trump e Netanyahu. Que leitura é que podemos fazer? Porque de facto ficam sempre muitas dúvidas naquilo que é o papel de Donald Trump em tudo isto.

Miguel, é uma pergunta interessantíssima e fê-la de forma perfeitamente inteligível para toda a gente. Porque, na verdade, quando nós fazemos estas análises sobre Trump, há uma tentação de interpretar as suas ações como parte de uma estratégia que nos escapa, que está fora do comum, que parece que está muito acima daquilo que estamos habituados. Mas muitas vezes acaba que aquilo que parece que tem muita profundidade, na verdade, tem pouca ou nenhuma profundidade. Às vezes é mais prudente fazer-se uma leitura simples, que é: ele não sabe. Trump não sabe e age como tal. Eu tenho muitas dúvidas que Trump tenha um conhecimento profundo sobre a história de Israel, a história do Irão e a história do conflito entre estas nações. E portanto, o papel de Trump aqui, no mínimo, é de um exercício de exibicionismo político, tão só. Ele age agora como se tivesse descoberto a paz, como quem impõe um acordo apenas por o anunciar com convicção. Portanto, ele quer sempre marcar pontos, mas isto é totalmente antagónico com aquilo que se passa no terreno e com aquilo que a história dita. Portanto, não é só Trump, é esta administração. Nós desconhecemos qual é o papel dos conselheiros ou aquilo que lhe é transmitido, mas qualquer pessoa consegue facilmente perceber pelas palavras de Donald Trump que aquilo é um vazio. Trump não traz nada de específico, não traz nada de novo, faz anúncios numa rede social como se estivesse a jogar uma batalha naval. Portanto, é muito difícil nós conseguirmos concluir que há muito para além daquilo que nós conseguimos entender. Eu penso que é muito mais fácil nós fazermos análises simplistas, e dou-lhe um exemplo Acho que grande parte das pessoas, pelo menos quem segue com atenção este tema, sabia que quando o Donald Trump ganhasse as eleições novamente, a Ucrânia ia ficar numa situação muito mais difícil e Israel iria ter um apoio, como se verificou. Portanto, isso seria uma análise que muitos disseram que acabaria por ser simplista, mas foi aquilo que se passou exatamente. Vamos ver agora o que virá nos próximos tempos.

Pedro Nascimento, sendo especialista em história militar, consegue certamente avaliar esta situação muito melhor do que eu e pessoas que acompanham este tipo de notícias já há alguns anos. Estamos a falar de um caso que aconteceu nas últimas horas, está a ser noticiado e o Observador já conseguiu confirmação da NATO. Donald Trump partilhou nas redes sociais o que identificou como uma mensagem enviada por Mark Rutte, ou seja, uma mensagem que Mark Rutte, secretário-geral da NATO, enviou a Donald Trump. Eu vou ler essa mensagem. Pode-se ler: "Está a viajar para mais um grande sucesso em Haia esta noite. Não foi fácil, mas conseguimos convencê-los todos a comprometer-se com os 5%". Isto é o que está na mensagem de Mark Rutte, uma referência aos 5% do PIB em investimento em defesa com os quais os aliados se comprometem esta semana. A mensagem continua, diz: "Donald levou-nos para um momento muito importante para a América, para a Europa e para o mundo. Vai alcançar algo que mais nenhum presidente americano conseguiu fazer em décadas. A Europa vai pagar em grande, como deve, e vai ser uma vitória sua", uma referência a Donald Trump, claro. "Boa viagem, vemo-nos no jantar esta noite." Ao Observador, a fonte oficial da NATO confirma que esta é uma mensagem que o secretário-geral da NATO enviou ao presidente Trump hoje. Tem memória de alguma vez ter acontecido algo desta magnitude, ou seja, um presidente norte-americano ou presidente de um país da NATO partilhar publicamente uma mensagem que o secretário-geral da NATO lhe enviou e uma mensagem deste tipo, a dar os parabéns e a colocar Donald Trump como grande responsável de tudo isto?

Miguel, há aqui uma coerência que é Mark Rutte sabe como qualquer pessoa que Donald Trump adora ser elogiado. É algo que é do conhecimento público, é um facto notório. E por outro lado, ou na mesma sequência, Donald Trump vem publicar porque adora que as pessoas saibam que o adoram. E isso materializou-se neste ato. O que aconteceu com esta mensagem é exemplar daquilo que muitas vezes digo. Por um lado, há um forte apoio institucional, porque Mark Rutte fala numa ação decisiva e extraordinária por parte de Trump. Por outro, há um uso político inequívoco desse apoio para legitimar o que se passou. É normal haver um alinhamento da NATO, mas partilhar esse tipo de mensagem num canal político, isso claramente serve para a sua autopromoção, na esteira daquilo que eu vinha a dizer. E por outro lado, também acaba por revelar alguma fragilidade institucional da aliança e a facilidade com que se transforma em instrumento de propaganda de um líder populista. Não chegámos propriamente a um consenso ou uma estratégia coordenada, chega-se a um mimo político quase com consequências reais. Trump partilha mensagens oficiais da NATO para autopromoção e transforma a aliança quase que numa plataforma de propaganda, e esse é um problema real. Agora, a pergunta que nós no fim devemos fazer é: a NATO controla os líderes ou os líderes controlam a narrativa da NATO? Isto são peculiaridades a que nós infelizmente já estamos habituados. Agora, se o Miguel vinca essa pergunta, eu não tenho presente neste momento algo parecido que tenha acontecido na história, pelo menos com uma dimensão destas, mas também vamos ter presente que os tempos são completamente diferentes. E as comunicações e os meios de comunicação são completamente diferentes.

Ontem, ao final do dia, o Irão bombardeou a base militar dos Estados Unidos no Qatar, a maior do Médio Oriente, com mais de 10 mil operacionais, com muito armamento, com muitos meios. Acabou por não ter muitos danos este ataque, não provocar muitos danos. Mas há aqui esta questão da relação entre o Irão e o Qatar. Iniciaram-se logo conversas diplomáticas, exigiram-se pedidos de desculpas, o Irão a dizer que não queria atacar o Qatar, mas sim, em específico, aquela base americana. Como é que fica esta relação entre o Irão e o Qatar?

Miguel, eu sei que sou suspeito, mas aqui é um ponto onde eu me sinto à vontade e vou tentar ser o mais breve possível, porque poderíamos ficar aqui o dia todo a falar sobre isto. Mas este é um ponto que é mais denso e exige um contexto. O Qatar e o Irão têm uma relação que é marcada pela conveniência estratégica, mas ao mesmo tempo também há uma desconfiança estrutural. Eu posso explicar. É que historicamente o Qatar, que é um pequeno emirado com uma política externa muito conhecida e muito ativa, mantém relações com o Irão muito mais cordiais do que a maior parte dos países do Golfo. Partilham, por exemplo, o maior campo de gás natural do mundo, o North Dome, o que obriga a algum grau de cooperação económica, independentemente das circunstâncias. Mas de referir isto: durante o bloqueio do Qatar, aliás, do bloqueio ao Qatar imposto pela Arábia Saudita, pelos Emirados, pelo Egito, por Bahrein, creio que foi de 2017 ou 2018 a 2021, o Irão foi dos poucos países a apoiar logisticamente o Qatar Abriu o espaço aéreo, até forneceu alimentos e essa solidariedade criou uma base para relações diplomáticas mais próximas. Naturalmente, tudo tem limites. E este ataque à base situada no Qatar coloca o governo do Qatar numa posição algo delicada. Porquê? Por um lado, o Qatar não pode permitir ser visto como cúmplice de ataques ao seu território, mesmo por via das forças proxy. Por outro, não quer romper os laços com o Irão, porque são essenciais para o equilíbrio regional. Agora, o que é mais provável perante isto? Eu creio que o Qatar pedirá explicações, mas discretas. Poderá exigir garantias de eventualmente não se voltar a repetir, mas creio que vai mesmo evitar uma escalada diplomática pública. Ou seja, tem todo o interesse em manter a sua imagem de mediador fiável, porque objetivamente tem sido.

Até para outros conflitos.

Exatamente. Tem tido sucesso em vários conflitos, como por exemplo, no Sudão, e até nas conversações entre Washington e Teerão. Portanto, creio que basicamente é isto. Poderíamos desenvolver muito mais, mas este é o estado das coisas.

Temos ainda alguns minutos para falar aqui da questão da Base das Lajes. O Irão diz que quer investigar o envolvimento de Portugal, posição deixada pelo embaixador do Irão no nosso país. O que é que pode efetivamente acontecer saindo de uma investigação destas? Portugal tem uma curta relação com o Irão. Existem relações económicas, claro, mas o que é que pode sair daqui, deste tipo de investigação? Porque é conhecido, é assim há muitos anos. Portugal tem, efetivamente, uma base norte-americana nos Açores.

Miguel, se tudo seguir os trâmites normais, eu posso lhe responder de forma contundente. Não o costumo fazer, costumo ser mais conservador, mas respondo de forma contundente. O que é que pode acontecer? Nada. É perfeitamente normal que surjam vozes a exigir explicações sobre a utilização da Base das Lajes, mas convém lembrar que a base existe precisamente para isto, para apoiar operações logísticas dos Estados Unidos e da NATO no Atlântico. Quer dizer, isto não é de hoje, é desde a Segunda Guerra Mundial que as Lajes são como que um pivô para o abastecimento ou reabastecimento aéreo, coordenação estratégica, tudo mais. Em situações de grande tensão, como agora com os ataques ao Irão, é natural, é mais do que natural, que os aliados usem infraestruturas conjuntas. E isto não significa que Portugal esteja a declarar guerra ao Irão, que esteja a participar ativamente numa guerra contra o Irão, mas sim que cumpre os compromissos históricos no quadro de defesa atlântica. Tão só. Não é preciso fazermos uma pesquisa muito profunda para percebermos que as coisas sempre se passaram assim e vão continuar a passar. Acredito que do ponto de vista político possa alguém ver aqui uma oportunidade para pegar, mas não é essa a análise que me cumpre a mim fazer. Eu faço aqui uma análise estritamente direcionada à questão militar e a história diz-nos exatamente isto: não é a primeira, não é a segunda, não é a terceira e não será a última vez que isto vai acontecer.

Muito bem, Pedro Nascimento, especialista em história militar, muito obrigado por ter estado conosco mais uma vez aqui na Rádio Observador.

Muito obrigado.