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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, é importante talvez fazermos aqui também um comparativo entre o que se passou na guerra na Ucrânia e o que está a acontecer em Israel. No que toca a Kiev, quando a guerra começou, os líderes internacionais foram chegando a conta-gotas. Agora em Israel, aquilo a que temos assistido é que em poucos dias o presidente norte-americano Joe Biden foi a Israel, antes já tinha ido Anthony Blinken, o secretário de Estado, também Rishi Sunak, Olaf Scholz da Alemanha, Macron. Há aqui uma diferença se fizermos esta comparação. É porque estavam a antecipar esta escalada e a tal ofensiva terrestre, ou também porque têm mais interesses no sucesso de Israel?

Realmente pode ser que é uma espécie de um paradoxo. Também ouvimos muito esta narrativa que é: a guerra da Ucrânia só interessa e interessa tanto, e afinal é tão importante porque é uma guerra na Europa entre europeus. Portanto, agora também se pode perguntar: "Mas afinal não se aplica a mesma lógica no Médio Oriente? Então por que estão a pedir contas aos países europeus ou à América?", quando aliás, em muitos casos, a resposta dada até por líderes desses diferentes países africanos, latino-americanos, era dizer: "Isto está mal, até pode ser um conflito sério na Ucrânia, mas é um assunto vosso, isso é muito longe." Portanto, obviamente eu acho que isso não é aceitável, desde logo por questões de princípio, de respeito pela lei internacional, de se tentar preservar alguma ordem internacional, porque estamos todos num mundo muito interdependente e portanto percebemos que há realmente consequências. Os conflitos têm impactos e consequências muitas vezes muito afastadas do sítio onde têm lugar, mas há realmente aí uma contradição. Tanto mais interessante quanto a verdade é que os líderes europeus norte-americanos não se apressaram a ir para Kiev e agora estão realmente a ir a esta região e claramente a procurar, por um lado, dar apoio a Israel, mas também conter a resposta militar de Israel e, sobretudo, também evitar uma escalada descontrolada, um alargamento da guerra a nível regional, por exemplo, com o envolvimento do Hezbollah, que é um braço armado xiita no sul do Líbano, do Irão, e portanto procurar evitar essa escalada. Aí o papel fundamental é sobretudo dos Estados Unidos, mas é realmente um papel bastante importante. Eu diria também um último fator é que, vamos ser claros, havia grande incerteza e grandes dúvidas nos países ocidentais sobre qual era a real capacidade de resistência da Ucrânia. Até em termos de segurança destes líderes. Kiev estava sob ataque nas primeiras semanas da guerra. Havia tropas russas nos arredores de Kiev e não era de todo evidente que a resistência ucraniana conseguisse parar esse avanço. E portanto, acho que isso também é fundamental para explicar essa diferença, enfim, em termos das opções que foram tomadas pelos líderes europeus e pelo presidente norte-americano.

Estamos a chegar ao fim do nosso tempo, Bruno, mas precisamos ainda de falar sobre a questão de Kherson. Primeiro Putin, depois o Instituto para o Estudo da Guerra, agora é o Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia. Tudo aponta para que haja uma contraofensiva de grandes dimensões a ser desenhada na região de Kherson, com avanços por parte da Ucrânia. Não há ainda confirmação oficial. Achas possível que seja este o desenho?

Acho que ainda é cedo para podermos concluir que é uma operação em grande escala. O próprio Instituto do Estudo da Guerra diz que parece ser mais do que simplesmente raids. Isso já estava a acontecer, tem acontecido nos últimos meses com lanchas rápidas, incursões rápidas na outra margem, que seria uma coisa um pouco mais ambiciosa, mas não haveria ainda dados, pelo menos seguros, para se falar numa grande testa de ponte, num território grande na outra margem do rio, portanto, na margem oriental do rio, onde estão as forças russas, que permitisse pensar que seria um ponto de chegada, de desembarque de cada vez mais meios, inclusive pesados ucranianos, e portanto uma ofensiva em grande escala. Eu sempre achei que o desenvolvimento de meios anfíbios, sobretudo fluviais, seriam muito importantes para a Ucrânia conseguir ter outras opções em termos das suas ofensivas. Fazia sentido explorar esta zona por duas razões fundamentais: um é, geoestrategicamente é extremamente importante, vai permitir uma outra linha de ameaça até mais próxima em relação à península da Crimeia, libertar mais também a pressão sobre os portos ucranianos, que a Ucrânia ainda controla, e aproveitar o fato de, eventualmente aí a linha da frente russa estar menos forte, portanto ter menos tropas, tropas menos preparadas, porque as zonas da frente mais ativas estão ou na zona de Zaporíjia ou então mesmo na zona do leste do Donbass. E portanto, à partida, aí as forças russas seriam menos numerosas, menos experientes, enfim, unidades menos preparadas e portanto haveria eventualmente essa oportunidade, mas teremos de ver se isso realmente se confirma.

Bruno, as secretas britânicas dizem que a circulação na ponte da Crimeia, atacada há meses pela Ucrânia, está limitada e que a infraestrutura é um fardo para a segurança de Moscovo. Sabendo da importância da ponte para a logística russa, é de esperar um novo ataque ucraniano ou o reforço da segurança será suficiente para preservar esta via de comunicação?

Essa é sempre a questão na guerra. No fundo, a guerra é uma realidade dinâmica e por isso é que também é tão difícil de prever ou de pensar nela em termos lineares. Portanto, o inimigo vai sempre tendo um voto. A Ucrânia utilizou determinados meios para atacar a ponte que não tinham sido usados antes e que levaram a ataques-surpresa, digamos assim. Como resultado disso, a Rússia reagiu e procurou encontrar formas de responder a essas ameaças. E a grande questão é realmente saber será que a Ucrânia consegue encontrar novamente novas formas de atacar a ponte, por exemplo, operações de saturação com múltiplos drones. Mas ao mesmo tempo é uma estrutura bastante pesada e portanto há limites também para o que se consegue fazer com drones. Como se viu, aliás, houve alguma perturbação durante períodos relativamente curtos. Aqui, sobretudo, a grande questão que é sublinhada por esta análise britânica é que realmente o que é muito claro é que isto obriga a fixar ali uma série de meios, por exemplo, capacidades antiaéreas, que obviamente poderiam ser empenhadas noutros pontos, inclusive na própria linha da frente, e portanto, objetivamente, cria aqui um esforço permanente da parte da Rússia, mesmo que não haja novos ataques para garantir que eles não se verificam.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.