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Gabinete de Guerra, programa na Rádio Observador em que falamos de conflitos em curso por estes dias, em destaque para o Médio Oriente e para o conflito na Ucrânia. Hoje os comentários são do major-general Isidro Morais Pereira. Eu sou o Miguel Cordeiro e vamos começar pelo Médio Oriente com a situação no Hezbollah e também no Hamas. Ainda hoje, as forças de Israel dizem que conseguiram matar o comandante do Hezbollah, que tinha um papel crucial na troca de armas com o Irão. O exército israelita diz também que matou três membros do Hamas que participaram no ataque de 7 de outubro, sendo que o ministro da Defesa de Israel diz que o Hezbollah é uma organização sem cabeça. Por sua vez, o Hezbollah continua a dizer que o grupo tem capacidade e permanece com uma liderança sólida depois dos ataques de Israel. Major-general Isidro Morais Pereira, Israel tem avançado contra estes dois grupos, essencialmente o Hamas e o Hezbollah, o Hezbollah com mais intensidade nos últimos meses. Passa um ano desde que este conflito começou. O que é que podemos dizer da situação destes grupos, das lideranças destes grupos, de como ainda resistem estes grupos que são os principais alvos de Israel?
Realmente aquilo que é dito por Israel relativamente ao Hezbollah, não é algo que venha do nada, porque Israel relativamente ao Hezbollah pôs em prática um tipo de modalidade de ação operacional que teve em vista logo de início, a de início, dissipar a liderança do Hezbollah. E conseguiu fazê-lo. Conseguiu fazê-lo através daquela operação dos pagers, da operação dos walkie-talkies e depois dos bombardeamentos que têm feito, principalmente ao bairro xiita dos arranjos do sul de Beirute, em que conseguiu atacar definitivamente o quartel-general do Hezbollah, levando naturalmente àquilo que nós sabemos, que foi a eliminação do próprio líder de três décadas já do próprio Hezbollah. Aquilo que nos dizem hoje em dia os meios de informação é que o Hezbollah está a ter uma grande dificuldade em encontrar um novo líder. Até já se diz que há muito pouca vontade dos lugares-tenente, aqueles que estavam a seguir na hierarquia de Hassan Nasrallah, muitos deles, porque o primeiro a ser nomeado já foi também eliminado, como nós sabemos, e agora há uma grande dificuldade nos outros em aceitarem essa responsabilidade, porque ficarão diretamente na mira das operações de Israel. Portanto, é um fato que o Hezbollah neste momento está a sofrer de algo que tem uma importância grande, que é a sua hierarquia foi atacada, quer dizer, e tem que ser substituída. Enquanto numa organização militar ocidental todos os subordinados estão preparados para assumir as funções do posto superior, nunca há uma unidade sem ser comandada, porque por definição treina-se para isso. Enquanto nas organizações terroristas, muitas vezes, há aqui uma glorificação dos líderes, há aqui um respeito até in extremis daquilo que é a cadeia vertical hierárquica e muitas vezes é difícil de substituir um líder, como foi, por exemplo, nas sequências dos ataques de 2001 às Torres Gémeas e na altura todos nos recordamos daquilo que foi o papel da Al-Qaeda no terrorismo transnacional na altura. E de fato, a eliminação de Osama Bin Laden não foi definitiva, não foi decisiva no que toca à eliminação da capacidade terrorista da Al-Qaeda, mas taticamente foi. Não há aqui qualquer espécie de dúvida.
Mas sendo que um dos grandes objetivos de Israel é eliminar por completo estes grupos, tanto o Hamas como o Hezbollah.
Não é.
Não é algo que nesta altura seja possível, por exemplo.
Não me parece que enquanto o próprio gabinete político, enquanto o próprio primeiro-ministro israelita e, no fundo, o governo israelita declarou de forma absolutamente inequívoca que um dos objetivos que levou às operações militares na Faixa de Gaza era a destruição, a neutralização da capacidade militar do Hamas. Esse foi claramente definido. Enquanto no caso do Hezbollah, esse objetivo nunca foi definido.
Sim.
O que foi definido foi criar condições de segurança para que os 60 a 70 mil deslocados possam regressar à faixa norte de Israel, aquela que confina com a fronteira sul do Líbano. Portanto, o objetivo político é este: os militares, quando traduzem os objetivos políticos em objetivos militares concretos, sabem muito bem interpretar aquilo que vai na cabeça dos políticos. Portanto, neste caso, eu penso que as Forças de Defesa de Israel não estão fixadas na aniquilação ou na neutralização do Hezbollah. O que querem é criar condições para que o Hezbollah não tenha capacidade militar a sul do rio Litani. É isso que eu compreendi. E isso o que é que acrescenta em termos de segurança a Israel? À faixa norte de Israel, àquela de onde foram evacuados Os cerca de 60 a 70 mil cidadãos israelitas. Dá-lhes, pelo menos, um nível de segurança semelhante ao resto do Estado de Israel. Por que aquela faixa tem esta importância? Porque o Hezbollah, se não for empurrado a uma distância suficientemente grande, ou seja, para norte do rio Litani, consegue atingir com simples granadas de artilharia, com simples granadas de morteiro, com munições anticarro, com foguetes, consegue atingir sistematicamente essas povoações. Enquanto se for empurrado para norte, só o consegue fazer com drones e com mísseis. Aliás, como consegue fazer em todo o território de Israel. Portanto, a não ser que o governo executivo israelita venha a redefinir os seus objetivos estratégicos, não me parece que neste momento seja um objetivo de Israel aniquilar por completo o Hezbollah. Não me parece que esse objetivo tenha sido definido. Aliás, aquilo que tenho ouvido, quer da estrutura militar, quer da estrutura política, não vai nesse sentido. Eu não ponho de parte que com o evoluir da situação, isso possa vir a acontecer, até porque há aqui outros aspetos que são importantes levarem em linha de conta, como o papel do Irão em tudo isto. A qualquer momento, e eu relembraria, porque é importante sempre relembrar, Israel poderá atacar, não direi de forma decisiva, mas desta vez com alguma capacidade de retaliar aquilo que foi o ataque do dia 1 de outubro, que o Irão levou a cabo contra Israel com quase 200 mísseis balísticos. Também temos esta contenda ainda por resolver. Agora, o que eu vejo que está a acontecer é que muitas vezes as pessoas interrogam-se: se a questão é empurrar as forças do Hezbollah para norte do rio Litani, por que estão a atacar Beirute? Estão a atacar Beirute porque as operações militares não se planeiam apenas naquilo que está ali na proximidade. Só se consegue atingir os objetivos quando se ataca a capacidade de comando do adversário, quando se ataca a profundidade do mesmo, quando se ataca os depósitos logísticos do mesmo. E se eles estão localizados em Beirute, naturalmente Israel tem que atacar esses depósitos e esses centros de comando, se quer ganhar esta contenda, porque senão isso será uma never-ending story, uma história que não terá fim. Israel tem vivido em permanente estado de insegurança praticamente desde que Israel foi criado em 1948, agudizando-se em determinados momentos. E este é um momento especialmente agudo, parafraseando um pouco aquilo que é a narrativa do governo israelita, Israel encontra-se a combater contra sete frentes. Isto é um facto. Desde o propósito do Irão de eliminar a existência de Israel, desde o propósito do Hezbollah, desde o propósito do Hamas. Eu acho que de alguma forma, numa atitude de expectativa estratégica, numa atitude até razoável, Israel tem procurado bater todos estes tentáculos do povo, sendo que a cabeça é o Irão, por partes. Porque Israel é um país pequeno, é um país que tem umas forças armadas muito bem treinadas, tem uma capacidade militar extraordinária, mas os inimigos quando são muitos, não convém empenhar-se contra eles todos ao mesmo tempo, senão arrisca-se a perder a guerra.
Enquanto este conflito continua, e o da Ucrânia também, está a ser noticiado que no próximo sábado haverá uma reunião entre líderes dos Estados Unidos da América, Reino Unido, França e Alemanha para discutir este conflito, mas também o da Ucrânia. Continuamos a ter este tipo de reuniões a nível diplomático, mas olhando para aquilo que são os cenários destes dois conflitos, que são bem diferentes, não há propriamente soluções para o imediato, para o médio prazo, para qualquer um dos conflitos.
Nós temos que ter isto muito bem presente e absolutamente claro: a guerra não é um fim em si mesma, a guerra é o último recurso que os países ou as coligações de Estados utilizam para resolver os conflitos, os diferendos que os opõem, quando eles são inconciliáveis. Portanto, há um tempo próprio pra diplomacia, muito embora a diplomacia nunca termine e esteja sempre presente, mesmo ao longo do desenrolar de um conflito ou de uma guerra. Mas se a conciliação entre as partes, a diplomacia e a resolução dos conflitos através da negociação fosse viável, nunca se chegaria à guerra. Estamos no momento da guerra e o que acontece habitualmente é que há três situações: ou ambas as partes se esgotam e chegam a um ponto que vejam que não vale a pena continuar a lutar porque nenhum de nós vai ganhar este conflito, então resolvem elas próprias sentar-se à mesa das negociações e negociar uma situação com a qual ambos possam viver. Ou A é eliminado, a sua capacidade é reduzida à ínfima espécie, ou B é eliminado e depois os conflitos terminam sempre à mesa das negociações, com um tratado de paz Gisando para o futuro as condições para que determinado conflito não volte a acontecer e resolvendo os problemas de uma vez para que se alcance uma situação política. Para responder diretamente à sua questão, nós sabemos que os Estados Unidos, mais do que ninguém, têm estado profundamente empenhados em encontrar uma solução negociada para o Médio Oriente, em encontrar um período de cessar-fogo para que as partes se possam entender. Mas temos que perceber que estamos num período pré-eleitoral nos Estados Unidos.
Claro.
Isto é evidente que tem uma importância capital. E os Estados Unidos, designadamente a administração norte-americana, esta que é do Partido Democrata, quer mostrar ao seu eleitorado que está do lado da feitura da paz, do lado da resolução pacífica dos conflitos e que não desiste em encontrar soluções diplomáticas para as coisas. Mas depois, no back office, os Estados Unidos estão perante um dilema.
Claro.
Os Estados Unidos têm no Médio Oriente, o grande aliado dos Estados Unidos no Médio Oriente é Israel. E Israel, não direi que é um protetorado norte-americano, mas quase. Seria um erro de lesa pátria, lesa majestade, se o Partido Democrata ou o atual governo norte-americano deixasse de apoiar Israel.
Ainda por cima com essas eleições daqui a alguns meses.
Ainda por cima com as eleições. Estamos a assistir a algo que não me parece que venha a dar proventos, nem no caso do Médio Oriente, nem no caso da Ucrânia.
Major-General, estamos mesmo a chegar ao nosso fim e eu queria falar aqui sobre uma situação na Ucrânia, precisamente, porque foi confirmada a entrega de jatos de combate Mirage para Kiev pela França. Rapidamente, que jatos estamos a falar e que importância podem ter para a defesa da Ucrânia? A França confirmou a entrega destes jatos.
Já há uns tempos a esta parte se vinha a falar dos Mirage 2000. E não é uma versão démodé, uma versão antiquada. Daquilo que eu me apercebi e daquilo que consegui investigar, se trata, sobretudo, do Mirage 2000F e é um Mirage que até está extraordinariamente bem equipado contra ações de guerra eletrónica. Portanto, não é uma peça de equipamento que seja museológica. Não, são aviões com capacidade para combater. E esse treino já está a decorrer em França. Já há pilotos que já estão a ser formados e há mecânicos que estão a ser formados. E aquilo que as próprias instâncias oficiais francesas declararam de forma aberta, e consegue-se acesso a essa informação nos meios de comunicação social, informações em fontes abertas, é que estes jatos serão muito provavelmente fornecidos à Ucrânia já no início de 2025. Não é dita a quantidade ainda. Eu, pelo menos, não consegui saber quantos serão, quantos aviões serão desta variante, mas será uma quantidade, não direi apreciável, mas uma quantidade significativa.
E será importante também para a defesa da Ucrânia.
Será importante porque é algo que já se vem falando há muito tempo, na possibilidade da França vir a fornecer aviões de combate, caças. E isto vem acrescentar, naturalmente, capacidade à Força Aérea Ucraniana, sem dúvida alguma, e aumentar as suas capacidades para se defender das ameaças da Rússia. O que nos leva a crer, mais uma vez, e indo agora atrás, estas iniciativas estão a decorrer. O plano de vitória do Zelensky diz que não é apenas uma lista de compras, mas é, sobretudo, uma lista de compras de material militar que a Ucrânia deseja que lhe seja fornecido para poder um dia negociar em posição de vantagem. É disso que se trata, porque ninguém gosta de ir para as mesas de negociações numa posição de inferioridade, porque de certeza que vai ser vencido. Parece-me que nem num caso, nem noutro, estejamos perante uma solução diplomática dos conflitos. Vamos ter que aguardar, porque as guerras ainda não chegaram ao fim.
Major-General Isidor Moraes Pereira, muito obrigado por mais uma participação no nosso "Gabinete de Guerra".
Muito obrigado, Miguel.