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Está na hora da reunião do Gabinete de Guerra, na tarde em direta Rádio Observador e hoje com a ajuda do coronel Carlos Mendes Dias, junta-se ao painel residente, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz. Vanessa, entre os pontos que trazemos hoje para cima da mesa estão as informações dos serviços de inteligência ucranianos sobre cenários de ataque terrorista russo em Zaporíjia, mas também um alegado ataque à ponte que liga Kherson à Crimeia.
Ataque esse que terá sido levado a cabo pela Ucrânia, que está a tentar controlar as margens do rio Dnipro, que é um rio essencial para o funcionamento da central nuclear de Zaporíjia. Coronel Mendes Dias, bem-vindo. O que já se sabe sobre o que aconteceu? E se foi com mísseis Storm Shadow, quer dizer que foi com recurso a armamento britânico, certo?
Boa tarde. Sim, a confirmarem-se. De facto, ao que parece, terão sido quatro mísseis, conhecidos por nós por Storm Shadow, mas embora isto ainda não tenha sido confirmado, o que se confirma é que parece ser de facto quatro e que têm inscrições francesas, o que também pode indicar que é o mesmo míssil. Storm Shadow é a designação francesa, é um projeto franco-britânico e em francês não se chama Storm Shadow, mas antes Système de Croisière Autonome à Longue Portée. E, portanto, é muito normal que apresente marcas francesas. Ora bem, essa é uma ponte. Obviamente, as pessoas ao ouvirem Kherson pensam na cidade de Kherson, etc. Mas não. Essa ponte liga o norte da Crimeia, mais particularmente a parte nordeste, perto de uma base, talvez a base hoje com mais gente russa, uma base aérea em Dzhankoi, importante também do ponto de vista logístico, mas, por exemplo, onde está sediado o 32º Regimento de Helicópteros, e que vai ligar ao continente e por conseguinte fluem também por aí aspetos de natureza logística, até porque Dzhankoi em si, a periferia é um nó rodoviário e ferroviário. Importa também aqui dizer a importância que estamos mesmo ali à entrada do mar de Azov. E, portanto, é isto que se passa, está a ser atingido o tabuleiro da ponte. Já terão sido enviados engenheiros da área russa de Rostov para essa área para começarem a tratar da reparação, que se julga demorarem, o tempo não é claro, mas pelo menos alguns dias. E é isto que se passa relativamente a Dzhankoi e esse putativo ataque com os Storm Shadow. Relativamente à questão de Zaporíjia. Não sei que informações o presidente Zelensky certamente tem, terá passado aos serviços secretos, não sei. A mim não me parecem credíveis, mesmo que fosse do outro lado. E colocando a componente do direito de lado, não por menos importante, mas porque nós estamos reiteradamente a dizer, obviamente estamos a falar de coisas contra o direito, contra o Protocolo Um adicional às Convenções de Genebra, e por conseguinte reiteramos essa ideia. Independentemente disso, essa ação intencional não interessava a ninguém e muito menos à Rússia, quer do ponto de vista militar, quer do ponto de vista político e, portanto, na minha opinião, essa hipótese será pouco credível, digamos assim.
Coronel Mendes Dias, a Alemanha pediu hoje que a Cimeira da NATO, no próximo mês, se concentre no reforço da capacidade real de combate da Ucrânia. E ainda ontem ouvimos Volodymyr Zelensky a reconhecer uma contraofensiva mais lenta do que o previsto. O que é que vai ser preciso sair dessa cimeira da NATO para dar garantias de que as tropas ucranianas possam ter mais hipóteses de ser bem-sucedidas nessa contraofensiva?
Ora bem, permita-me alguma cautela nas palavras. Em primeiro lugar, os apoios têm saído dos países NATO, mas não da NATO, que é uma organização internacional com personalidade jurídica própria, etc. Segunda questão: se por acaso houver unidades dadas à NATO, portanto, respondendo a compromissos NATO que se envolvam diretamente, aí a NATO poderá ser considerada envolvida diretamente. Não é disto que se está a tratar, certamente. O que se está a tratar é, porque se está a afastar a hipótese daquela tentativa de entrada mais rápida, com a qual eu pessoalmente também não estava de acordo, porque não vinha a ganhar a ninguém, nem a Ucrânia, nem a NATO, mas no reforçar no elo que existe entre Ucrânia e NATO como entidade jurídica própria, que nesta altura se encontra materializada por aquilo que se chama a Cimeira NATO-Ucrânia, mas que passaria a um conselho NATO-Ucrânia e, portanto, a Ucrânia teria acesso a um maior número de reuniões, a maior informação, eventualmente à conceção de um plano onde fosse mais fácil a Ucrânia obter não só a informação, mas adaptar-se às regulamentações, às exigências NATO e a preparar mais facilmente uma possível adesão. O que a NATO como entidade pode facilitar ao apoio dos países que a ela pertencem no apoio à Ucrânia em material militar é eventualmente aliviar esses países dos compromissos relativamente à NATO. Mas vamos ver o que sai. Aliás, é muito interessante, porque no final, por exemplo, da Conferência de Londres, que não era obviamente sobre isto É de apoiar a construção da Ucrânia. Mas o primeiro-ministro ucraniano, a este propósito, tem declarações que frustam um pouco a expectativa daquelas pessoas mais entusiasmadas, que são no sentido de que ele próprio se afirmou confiante numa adesão, quer à União Europeia, quer à NATO, em menos de 10 anos. Isto traduz aqui, e estamos a falar da NATO, particularmente dessas dificuldades. Eu devo dizer que, por exemplo, a Bósnia está há mais de 10 anos a tentar cumprir os critérios de adesão à NATO. E estou aqui a colocar a minha ética da convicção de lado, estou mais na ética da responsabilidade. Eu próprio, quando o secretário-geral da NATO diz que apesar da situação de guerra, a reforma na área das Forças Armadas está feita pelo caso da Ucrânia, ninguém vai acreditar nisso. E julgo até que isso funciona em desfavor do próprio processo. Mas enfim, evito uma relação que obviamente eu não tenho e que é gerida no segredo dos gabinetes.
Coronel Mendes Dias, aproveitando que falou na conferência sobre a reconstrução que termina hoje em Londres. A Ucrânia apresentou uma estratégia de recuperação do país. Como é que é possível um país que está em guerra, que não tem qualquer horizonte para que o conflito termine, consegue traçar estratégias realistas para essa recuperação?
Do meu ponto de vista, só consegue estabelecer linhas de ação com base em dados anteriores. E o que lhe posso dizer sobre isso, porque em dados que tendem a ser atualizados. E tenta também, ao mesmo tempo, pôr na sociedade internacional aquele sentido de urgência e de recuperação rápida, coisa que não acontece. Independentemente do apoio da União Europeia ou não, posso lhe dizer o seguinte: em março, e é com base nisso que certamente a Ucrânia coloca as suas questões, e estamos a ver isto a médio e longo prazo, portanto a palavra rápido aqui perde significado. A Ucrânia necessita, em março, de cerca de €376 mil milhões. Aliás, isto implica dezenas de milhares de projetos. Para lhe dar uma ideia, estamos a falar da recuperação, são dados oficiais, também posso garantir, de 6 mil prédios de habitação, mais de 20 mil casas particulares, mais de 122 pontes em estradas locais, mais de 550 instalações de saúde, mais de mil escolas e fora o resto. E, por conseguinte, é disto que se está a tratar. E quando diz que nesta conferência, que não era uma conferência de doadores, é óbvio, que terá angariado 60 mil milhões, estamos só a referir, na esmagadora maioria, àquilo que a Comissão Europeia propõe para o orçamento até 2027 dedicado à recuperação da Ucrânia, que é os €50 mil milhões, mais 15 mil milhões dedicado à gestão das migrações e mais 10 mil milhões dedicado ao investimento verde. De qualquer maneira, uma das coisas que me parece importante é que, de facto, está reforçado o chamado pacto empresarial para a Ucrânia. No fundo, um conglomerado de empresas que vai aumentando em número e que se disponibilizou, dispõe a contribuir de qualquer maneira, ainda não se sabe bem como. Nesta altura, posso adiantar que estamos a tratar de 500 empresas, de mais de 42 países e posso dizer também que inclui pelo menos três portuguesas, obviamente, que não vou divulgar o nome delas, por motivos óbvios, mas inclui três portuguesas. E isto parece-me importante, até porque é um capital, não só eu vou chamar de dinheiro, mas também de conhecimento que pode ser colocado ao dispor da Ucrânia. Mas estes dados vão ter que ser atualizados, porque não é agora nesta situação que se vai começar. E como diz, e muito bem, a estratégia precisa também ela, embora procure retirar dividendos do caos, precisa de diminuir incertezas que se mantêm.
E olhemos agora para outros dados, Coronel Carlos Mendes Dias, estes mais políticos. Politicamente, Zelensky parece estar a ganhar pontos. Há uma sondagem, a mais recente do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, que aponta para que a perceção sobre a eficácia do presidente ucraniano enquanto comandante-chefe aumentou duas vezes e meia desde o início da invasão russa, uma percentagem aqui de 86%. Quase ano e meio depois, está de facto a surpreender Volodymyr Zelensky e até o próprio meio militar?
Sim, de alguma maneira, encarando os dados, pode ser uma surpresa, mas, na minha opinião, não é só do ponto de vista militar. É uma lógica de comunicação. E sabe também, quando temos adversidades externas, todos nos unimos à procura de combater essa adversidade, quer dizer, o inimigo externo potencia coesões internas.
Sim.
E portanto, dada a eficácia do discurso, os apoios que se têm conseguido, obviamente, apoios que não é só derivado à gestão comunicacional, mas também aos interesses dos países que apoiam a Ucrânia, importa sempre ir dizendo isto. Obviamente que é um dado importante e é um dado que significa que a sociedade ucraniana, obviamente temos que ter cuidado, porque são sondagens, etc., mas quer dizer, passando esses pontos, a sociedade ucraniana revê-se naquilo que o seu presidente está a fazer. Deixa-me só dizer, porque importa dizer aqui alguma coisa. Antes da guerra, Zelensky estava em mínimos históricos de popularidade Não só do ponto de vista de algum desrespeito pelas oposições, pelo Parlamento ucraniano, etc. E com a guerra vem aumentando de popularidade, mas de um ponto de vista, e também porque não há condições pra outro tipo de coisas, por causa essencialmente destas razões que acabei de dizer.
Coronel Mendes Dias, deixe-me aproveitar aqui, nestes minutos finais, a sua experiência militar, só para ir aqui a um outro ponto que não tem que ver com a guerra na Ucrânia, mas tem que ver com treino militar. Isto a propósito do curso dos comandos e do militar que entrou em coma depois de ter sofrido um golpe de calor cá em Portugal. Há boas notícias, já saiu do coma, respira de forma autónoma, o quadro clínico é favorável. Este curso tinha sido interrompido para avaliação do estado de saúde dos instruendos. É natural que agora seja retomado?
Sim. Como sabem, os comandos de uma tropa especial, o seu curso de especialização é um curso duro, mas do que eu conheço, e eu desempenhei funções nessa área, na área de formação, digamos que há regras, há seguranças que não são passadas e, objectivamente, depois do que aconteceu, não neste caso, mas em casos anteriores, o curso de comandos, por indicação, isto do meu conhecimento, não tenho fonte privilegiada nesta altura. Mas de acordo com a indicação do ex-general chefe do Estado Maior do Exército, foram formulados aquilo que se chamam os referenciais do curso, onde estão os objectivos do curso, a programação toda do curso, como se faz, onde se faz, questões de segurança, etc. Foi toda reformulada para avançar de novo com o curso. Portanto, o curso que está a dar, certamente nesta altura, já sofreu destas modificações todas. Obviamente, tirando de parte erros, ou vou lhe chamar assim, outro tipo de aberrações, porque instrução é instrução, não é pra ninguém morrer em tese, e na prática. E portanto, se acontecem essas coisas, não deviam acontecer, embora se corra sempre em cursos de natureza dura, como é os comandos, obviamente que os perigos são maiores, mas quer dizer, o curso foi reformulado e todas essas condições foram garantidas. Isso posso lhe afirmar com toda a certeza e, por conseguinte, não sei exatamente o que se passou, mas associar o que se passou com a ideia que o curso eventualmente não tenha sofrido nada, que não tenhamos aprendido nada com questões anteriores, isso é falso. Posso desmenti-lo categoricamente, porque o curso foi todo revisto, referenciais todos revistos e aprovados.
Obrigada pela análise que aqui deixa e também por este esclarecimento em relação àquilo que se passou no passado e que mudou no curso dos comandos. Obrigada, coronel Carlos Mendes Dias. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã.