Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço em que analisamos o conflito entre Rússia e Ucrânia. Conosco, Bruno Cardoso Reis, historiador e colaborador da Rádio Observador. Bruno, vamos já daqui a pouco ao que se passa no terreno, mas quero perceber contigo: este conflito em Israel tem também impacto com o que se passa na Ucrânia?
Sim, desde logo há um impacto evidente, que é vai haver menos atenção para o conflito na Ucrânia. Durante muito tempo também tínhamos esta tese e agora voltou a aparecer, que havia aqui uma espécie de conspiração dos media para focar a atenção na Ucrânia e para, por exemplo, esconder o conflito na Palestina. E eu pergunto: mas então e agora por que não estamos a falar do conflito na Birmânia? Por que não estamos a falar do conflito no Xinjiang ou no Tibete? A razão é simples, é porque temos um conflito ativo em grande escala, com muitos mortos, neste momento na Terra Santa e, portanto, embora obviamente o conflito na Ucrânia continue e continue a haver mortos todos os dias e não diminuiu de intensidade, a verdade é que já não é uma novidade, por um lado, e por outro lado, surgiu aqui um outro conflito muito intenso, muito ativo, que está numa fase em que ainda há enormes incertezas e portanto há também uma grande curiosidade e preocupação sobre exatamente para onde é que isto irá. Na Ucrânia, apesar de tudo, as coisas estão mais conhecidas. Não houve aqui grandes desenvolvimentos e portanto há pelo menos esse efeito, que é menos atenção. Eventualmente, vamos ver quais serão as implicações disso em termos de nível de apoio. Há já especulação, por exemplo, dos Estados Unidos, que estão aqui a apoiar ativamente Israel, que isso pode obrigar a menos apoio à Ucrânia. Como eu já referi, não me parece que isso seja assim em termos, pelo menos para já, objetivos, ou seja, acho que os arsenais americanos podem perfeitamente acomodar os dois e sobretudo o tipo de sistemas de armamento, por exemplo, que Israel tem. Muitos deles, aliás, são produzidos localmente em Israel, mas outros fornecidos pelos Estados Unidos são muito mais avançados do que aqueles que os Estados Unidos têm estado a fornecer à Ucrânia e portanto não há aqui uma competição, vamos dizer assim, direta. Poderia haver alguma na questão das munições, mas para já também Israel tem.
Mas há eleições nos Estados Unidos, não é? E todas estas questões entram depois naquilo que é a discussão pública.
Sim, e há aí um ângulo eventualmente interessante, é que Zelenskyy tem tomado posições públicas muito claras de apoio a Israel. Eu penso que isso é uma coisa certamente sincera. Enfim, sabemos que aliás Zelenskyy é não só ucraniano, não só de língua russófona, de língua russa materna, mas é também judeu, é muito típico destas regiões. Aliás, há uma enormíssima comunidade com origem na Rússia e na Ucrânia que vive em Israel, que fugiu das perseguições, quer do Império Czarista, quer depois do Stalin e depois do regime soviético contra os judeus. Há aí uma ligação evidente, mas além disso, isto pode significar também, eventualmente, poderá significar que Israel pode vir a rever a sua postura, que tem sido de grande pragmatismo, de não cortar pontes com a Rússia, de grande equidistância e portanto tendo em conta que a Rússia se aproximou ao Irão e o Irão é o grande apoiante do Hamas, tendo em conta esta posição da Ucrânia, pode-se especular que eventualmente Israel pode vir a ser aqui um apoiante mais ativo da Ucrânia. Se isso fosse assim, Israel tem obviamente sistemas de armamento muito interessantes, que seriam potencialmente muito interessantes para a Ucrânia, mas obviamente também no contexto de um conflito ativo, certamente a prioridade de Israel não será ajudar a Ucrânia. Mas enfim, teremos de ver. Há aqui realmente ligações entre os dois conflitos que é interessante explorar.
Zelenskyy hoje visita a Roménia, já está em Bucareste. Qual é a importância desta visita?
É a primeira visita do presidente da Ucrânia desde o início da guerra à Roménia. É realmente um país importante, é um país vizinho da Ucrânia, tem uma vizinhança que se tornou especialmente estratégica, que é esta zona da foz do Danúbio, com portos fluviais, portos marítimos também no Mar Negro, mas portos fluviais muito importantes. No fundo, essa tem sido a via de escoamento também dos cereais ucranianos para escapar ao bloqueio naval russo ao fim do acordo sobre os cereais no Mar Negro. As rotas navais também que foram desenhadas como alternativas, basicamente passam junto à costa da Roménia, para dar uma cobertura NATO a essas rotas, torná-las mais seguras do que uma rota em águas internacionais no Mar Negro, que poderia ser mais vulnerável a ataques ou ameaças russas. Portanto, realmente a relação tornou-se ainda mais estratégica e mais importante. A Roménia tem assumido aqui uma postura muito menos proativa, muito menos assertiva do que, por exemplo, a Polónia no apoio à Ucrânia e na condenação à Rússia. Portanto, imagino que Zelenskyy esteja interessado em coordenar vários destes aspetos práticos e depois também procurar trazer a Roménia mais para o seu campo e eventualmente tentar que a Roménia assuma posições mais assertivas. Aí há uma questão que é a questão dos drones, dos ataques com drones que têm resultado em aparecerem restos de drones também em território romeno. A Roménia tem mostrado aí alguma preocupação, mas provavelmente a Ucrânia gostaria que eles assumissem uma posição ainda mais assertiva de resposta a isso, de tentativa de dissuasão de ataques russos tão próximos da fronteira romena.
Para fechar aqui a situação no terreno também e com esse ataque já de quinta-feira que vai já em 53 vítimas, um ataque a uma aldeia ucraniana, vítimas civis em Rosa, na Ucrânia. Hoje a China já se mostrou preocupada com aquilo que descreve como um dos ataques mais mortíferos contra civis, que matou cerca de 15% da população desta aldeia. Como é que vês essa posição da China e claro, este ataque nesta aldeia?
Eu acho que isto mostra realmente um pouco as complexidades, ou se quisermos, as ironias e os paradoxos do espaço comunicacional. Realmente, em circunstâncias normais, estaríamos a falar muito disto, porque realmente é um ataque dos mais mortíferos contra civis desde o início da guerra, porque realmente teve um impacto especialmente devastador numa pequena aldeia. Aparentemente foi visada uma cerimónia de homenagem a um soldado ucraniano. Eu francamente não vi essas declarações do lado chinês, mas a China tem tido esta postura de procurar, apoiando na prática a Rússia em aspetos práticos muito importantes, nomeadamente na dimensão mais económica, no fundo também nunca apoiar a invasão, deixar sempre claro que quer a paz e portanto assumir alguma distância em relação à posição russa e como eu digo, não vi essas declarações, mas não me espantaria que elas aparecessem um pouco nesse contexto, que é mostrar que a China está realmente preocupada também com crimes de guerra, com vítimas civis ucranianas e portanto não há aqui uma espécie de carta branca ao seu parceiro estratégico russo.
Apenas deixar essa menção. A China disse isto hoje, foi no momento em que a ONU condena o ataque russo, como disse na semana passada, que é dos mais mortíferos, a China, que é um dos aliados de Moscovo, manifestou essa preocupação com o que aconteceu. O embaixador chinês nas Nações Unidas disse que Pequim considerou o elevado número de vítimas civis, 15% da população da aldeia, considerou esse número preocupante. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por mais esta participação no Gabinete de Guerra da Rádio Observador, espaço para analisar o conflito entre Rússia e Ucrânia.