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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, diz que Biden está a alimentar Gaza em vez de Israel. A oposição acusa-o de não entender nada de política externa. Já Netanyahu diz que não precisa da ajuda de Ben-Gvir para perceber como deve agilizar as relações com os Estados Unidos. Mas Bruno, estas declarações, vindas de um elemento do governo, não podem pôr em causa a relação com o principal apoiante de Israel? Aliás, até o próprio Netanyahu diz que colocam em risco interesses vitais.

Sim, a questão é que este ministro, Ben-Gvir, que é o representante de um bloco de seis ministros ligados a partidos mais radicais e extremistas. Este senhor, por exemplo, tinha o retrato de um terrorista na sua sala de jantar, é um daqueles partidos ligados à expansão dos colonatos, que defendeu ainda no fim de semana passado, uma espécie de limpeza étnica de Gaza. Há muito que ele cria enormes problemas à imagem de Israel, à credibilidade de Israel. São declarações como essas que foram usadas, por exemplo, para a acusação em Haia contra Israel em relação à questão do genocídio e, portanto, realmente ele é um problema há muito tempo e Netanyahu já devia saber disso há muito tempo. Aqui realmente é um caso extremo disso. Não pode haver uma espécie de diplomacia paralela. Só há um ministro dos Negócios Estrangeiros e só há um chefe de governo e é a eles que cabe conduzir a política externa e não propriamente a um ministro, supostamente, da Segurança Interna. Portanto, realmente todas essas críticas são justificadas. Vamos ver se isto significa que realmente Netanyahu percebe que, sobretudo no caso deste ministro, ele realmente é um grande problema do ponto de vista da imagem externa de Israel, é um grande problema do ponto de vista da gestão diplomática da guerra por Israel. Agora, o grande problema que Netanyahu tem é que para se manter no poder, ele precisou destes partidos mais extremistas e provavelmente para se continuar a manter no poder, continua a precisar destes ministros. Portanto, aí a questão que se coloca é realmente a própria sobrevivência do governo Netanyahu. Para mim é claro já há muito tempo que seria bom para Israel, para a condução da guerra, para a condução da sua política externa, que houvesse um novo governo. Mas essa obviamente não é uma opção que seja muito apetecível para Netanyahu.

Entretanto, e depois dos Estados Unidos e o Reino Unido terem bombardeado 36 alvos dos houthis no Iémen, o grupo prometeu retaliar e continuar a apoiar firmemente os palestinianos em Gaza. Além disto, os rebeldes xiitas dizem que estes ataques só vão atiçar o ódio do povo e uni-lo contra a presença colonial norte-americana. É um risco estes ataques ou Biden face à pressão que está a sofrer internamente, não tem outra alternativa?

Os Estados Unidos têm mostrado sempre um grande cuidado nas suas ações militares em reação a esta crise e a prioridade tem sido sempre evitar uma escalada regional. Agora, o problema é que ela já aconteceu em parte e em parte também já resultou na morte de soldados americanos. Temos de nos recordar que esta fase mais intensa de resposta militar americana resultou de um ataque que levou à morte três soldados americanos numa base na Jordânia. Essas forças americanas na região já são em boa parte residuais, são volta de 2500 soldados, sobretudo na Síria e no Iraque, que têm tido como missão e tiveram como missão combater o Estado Islâmico, o Daesh, e evitar que ele volte a ganhar força. E temos de recordar o que foi o Daesh nesta zona. Um grupo terrorista que se transformou numa espécie de Estado com exemplos de violência extrema, execuções sumárias, genocídio contra os curdos, ataques terroristas extremamente violentos na Europa, etc. É essa a prioridade. Diga-se, há até aqui uma certa convergência de interesses, porque quer o Irão, quer estes grupos, quer o próprio Biden gostariam que estes soldados saíssem da região. Essa tem sido uma grande prioridade também de Biden, retirar o mais possível do Médio Oriente. Agora, o problema é que os houthis, sobretudo nesta escalada regional, apesar de tudo relativamente limitada, são realmente o grupo mais ativo e a ameaça mais significativa, porque como temos comentado aqui várias vezes, têm ameaçado realmente a navegação num ponto de passagem praticamente obrigatório entre a Ásia e Europa. Já reduziram muito significativamente a navegação civil nessa região do Estreito de Aden, no mar Vermelho, e mesmo que para já só tenham atingido um ou dois navios e para já sem mortos, a verdade é que isso é sobretudo graças à ação defensiva e também ofensiva dos Estados Unidos. Mas mesmo simplesmente este risco realmente constitui um problema muito grande para a segurança económica global, para problemas como inflação dos preços, etc. E realmente os Estados Unidos deram prioridade também nesta resposta, não só aos grupos que atacaram aquela base na Jordânia, que estavam sobretudo baseados no Iraque, mas também a uma nova vaga de ataques contra os houthis. A mensagem que vem do lado americano é sempre: o objetivo aqui é reduzir a capacidade dos houthis de fazerem este tipo de ataques e tentar passar a mensagem que os ataques têm de parar contra a navegação civil. Não só são ilegais, como colocam em risco a vida de marinheiros civis, como são um problema muito grave para a economia global. Agora vamos ver se essa mensagem passa, porque realmente aquilo que os houthis dizem também parece ser verdade. Ou seja, isto deu mais visibilidade ao grupo, aumentou o prestígio do grupo na região, porque eles justificam estes ataques com a questão de Gaza, embora haja razões para desconfiar que isso é um pretexto. Portanto, realmente não é garantido que mais ataques americanos resultem nessa redução dos ataques dos houthis. Vamos ver o que é que acontece a seguir e quais seriam as outras alternativas. Eventualmente seria os Estados Unidos começarem a apoiar aqueles grupos que dentro do Iémen têm estado em combate com os houthis. Há uma guerra civil no Iémen que foi congelada através de um cessar-fogo. Os houthis estão também a violar esse cessar-fogo e portanto essa questão pode-se voltar a colocar.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.