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Está na hora de olhar para a guerra na Terra Santa. Hoje com o professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo, e também com a especialista em Relações Internacionais, Daniela Nunes. A Judite França e a Vanessa Cruz têm vários pontos na ordem de trabalhos para hoje que gostariam de analisar. Vanessa, começamos por essa notícia de um governo de emergência nacional em Israel.

Benjamin Netanyahu e a oposição chegaram a acordo para criar um governo de emergência nacional. Vou começar por si, professor António José Telo, bem-vindo. Além do sinal político que esta união dá e que pode fazer parar os protestos dos últimos meses, que efeito prático é que pode ter na ofensiva que está a ser levada a cabo em Gaza para liquidar o Hamas?

Boa tarde. Já agora permita-me uma observação, este programa passa a ser o gabinete de guerras.

Exatamente.

É verdade. E parece uma observação secundária, mas não é, porque é significativo sobre uma evolução que está a decorrer, que se está a dar e que alarga, ao fim e ao cabo, o conflito não só à Europa, mas também ao Médio Oriente.

E este governo de emergência nacional, professor, vai servir também como um gabinete de gestão da guerra?

É verdade, e é necessário. E mais, embora fosse previsível, não neste formato que tem, porque de facto juntam inimigos que pareciam absolutamente irreconciliáveis e que várias vezes tinham dito que jamais era impensável formarem um governo conjunto. Portanto, isto mostra também o impacto desta crise e a maneira como a população de Israel está a sentir esta crise. E de facto não é para menos. Isto pura e simplesmente é o maior ataque terrorista de que há memória, pelo menos desde os tempos dos mongóis. Teríamos que recuar às invasões mongóis para termos uma coisa desta dimensão. O ataque em si provocou menos vítimas que o 11 de setembro, mas o envolvimento de pessoas, quer no número das vítimas, quer no número dos terroristas que fizeram o ataque, foi maior que em qualquer outra situação. Portanto, é um caso que corta com todos os precedentes e que, sem dúvida, ainda vai ter muitos desenvolvimentos. Ainda estamos só no começo desta crise. Ela vai se prolongar e tudo indica que se irá alargar com outros agentes do Médio Oriente e não só. Não é por acaso que os Estados Unidos colocaram um dos seus meios mais sofisticados nesta zona, que sem dúvida não é para atacar a Faixa de Gaza ou a Hamas que são precisos F-35. Há aqui uma crise que está no começo, que se está a desenvolver, que conduz a muitos desenvolvimentos surpreendentes. Um deles é a formação deste governo de coligação nacional e, sobretudo, porque se transforma também, esse sim, efetivamente, num gabinete de guerra, ou seja, num governo para condução desta guerra. E já agora, uma observação: condução desta guerra, que tal como todas as guerras, é fundamentalmente política, mas que aqui, mais do que qualquer outra, a condução da guerra é e tem que ser, em primeiro lugar, política.

Vou chamar também a este "Guerra na Terra Santa", Daniela Nunes. Bem-vinda a este programa. A presidente da Comissão Europeia quer garantir que o apoio europeu para a Palestina não esteja a ser desviado para o Hamas ou qualquer outra entidade terrorista. Há o risco de esse desvio ter acontecido, é o que lhe pergunto, e terá sido por isso que vimos esta semana Bruxelas, num primeiro momento, a anunciar a suspensão dos apoios humanitários e depois a recuar?

Olá, boa tarde. Muito obrigada pelo vosso convite e muitos parabéns também pela vossa iniciativa, por este "Guerra na Terra Santa", que à semelhança do gabinete de guerra também tenho a certeza que vai ser muito útil e do agrado dos ouvintes da Rádio Observador. Sobre o tema que nos traz aqui, eu começaria por confirmar que efetivamente não é possível dizer que existe uma homogeneidade no que diz respeito às posições, e sublinho aqui o plural, do Ocidente, das pessoas e das instituições acerca deste conflito e muito especificamente acerca do apoio à Palestina. Há, de facto, muitas cisões entre quem acredita que Israel é um aliado histórico do Ocidente e que, portanto, o Ocidente deve estar com Israel e depois quem acredita que a causa palestiniana não difere assim tanto da causa ucraniana, por exemplo. E o que é que pode estar aqui no meio destas duas leituras? A meu ver, está sobretudo um elemento-chave que para mim é muito importante explicar e clarificar: é que o Hamas não é a Palestina nem é a causa palestiniana. É evidente que o que aconteceu na madrugada do último sábado, e como disse a senhora von der Leyen, foi um ato de guerra e, aliás, um ato terrorista que inclusivamente apanhou Israel de surpresa. Portanto, julgo que sobre isto não há dúvidas. Mas eu volto a frisar, o autor deste ataque surpresa, que é o Hamas, é um grupo terrorista, ou pelo menos por nós ocidentais considerado terrorista, e não é a personificação ou a materialização da causa palestiniana. O que reivindicam, aliás, os palestinianos? De forma muitíssimo sucinta, reivindicam a sua autodeterminação e o fim da ocupação israelita nos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. E o que é que o Hamas, na qualidade de grupo militante islâmico na Palestina, está a fazer? Não está apenas a procurar concretizar esta causa palestiniana, como está a elevar esta causa a um compromisso de destruição total do Estado de Israel, que são coisas distintas. Tão distintas que fazem confundir as opiniões públicas e, sobretudo, desde que o Hamas tem um envolvimento político direto, um lugar protagonista no contexto político e de tomada de decisão na Palestina, desde as legislativas de 2006, é muito fácil associar a quaisquer que possam ser as ideias, as reivindicações ou as demandas palestinianas, uma base executora, um conjunto de métodos e, no fundo, uma cultura que é uma cultura terrorista. Atenção, eu não estou aqui a dizer que isto corresponda à verdade, estou só a apontar para aquela que me parece ser a razão principal para as contradições acerca do apoio, quer das opiniões públicas, quer das instituições como a União Europeia, à Palestina. E como disse também a senhora von der Leyen, e eu concordo inteiramente, o que está em causa no seio destas contradições não é o apoio humanitário ao povo palestiniano, mas sim o apoio financeiro, que é preciso triar muito bem para, como dizia a senhora presidente da Comissão, não ir parar este apoio a mãos terroristas. Há aqui uma declaração de não intenção que é fundamental as pessoas perceberem. A União Europeia não alimenta, nem sequer apoia moralmente o Hamas. Isto aqui é o beabá, não apoia agora nem nunca apoiou. O que se pretende, e a meu ver faz todo sentido, é uma revisão muito cuidadosa da chegada do apoio europeu à Palestina e a que mãos é que ele vai parar. Só para terminar, outra coisa que sublinhou também a senhora von der Leyen, e que a mim me parece muito importante também acompanhar atentamente, é a atitude do Irão, que como sabemos, apoia o Hamas. O que não queremos de todo é que a nossa ajuda financeira, nossa, europeia e ocidental, esteja a encher os bolsos a este tipo de coligações, Hamas, Irão, entre outros.

Voltamos a si agora, professor António José Tella. A única central elétrica de Gaza parou de funcionar. Podemos olhar para esta questão do prisma humanitário, e pedia-lhe que o fizesse, até porque há hospitais que tiveram de recorrer a geradores com energia, como se calcula, para poucos dias. Mas deixe-me perguntar-lhe em relação às operações no terreno, não haver luz pode ser crucial para os avanços de Israel sobre o Hamas?

Permita-me uma observação. Sem dúvida, esta guerra não é uma guerra entre Israel e a Palestina, é uma guerra entre Israel e o Hamas. E é uma guerra que, de uma maneira também clara, Israel não começou. Ou seja, o ataque em larga escala, aparentemente surpresa, mas é capaz de ser mais aparente do que outra coisa, partiu do Hamas. Foi uma iniciativa do Hamas e dos seus apoios, nomeadamente o Hezbollah, que logo de seguida se pronunciou a seu favor, o Irão, etc. Há aqui uma iniciativa de um ataque em larga escala terrorista, também claramente. Terrorista por quê? Porque é um ataque que expressamente e intencionalmente visa a população civil. Não são visados alvos militares, é visada a população civil. E são disparados, por exemplo, nos primeiros dias, 5000 foguetes, que são lançados contra centros urbanos. Acredito que um ou outro, por coincidência, tenha caído num alvo militar, mas a esmagadora maioria caiu, de facto, em alvos civis. Isto é a classificação por excelência de um ato terrorista, e é por isso que nós podemos dizer que isto foi um ato terrorista em larga escala, do maior que há memória recentemente. A situação na Faixa de Gaza é uma situação muito peculiar e particular, em que o Hamas está profundamente misturado com a população. É uma zona urbanizada, uma zona relativamente pequena, amplamente urbanizada, e é uma zona onde é muito difícil, como acontece com todas as zonas urbanizadas, ainda por cima de edificação densa como aquela, distinguir alvos. O que nós vemos nos filmes que são divulgados, e é evidente que esses filmes, de qualquer modo, têm uma origem, que é quem os divulga, é que os bombardeamentos incidem sobre edifícios específicos e concretos. Inclusive, já agora um pormenor técnico, incidem com uma munição que não explode quando atinge o edifício, mas penetra no edifício. A explosão dá-se no interior do edifício, o que isso significa? Que o edifício implode para dentro, provocando o mínimo de estragos nos edifícios vizinhos, por exemplo, comparando com a Ucrânia. O que nós vemos na Ucrânia, quando se dá uma explosão, a explosão dá-se no exterior do edifício e eventualmente provoca um buraco, uma cratera no edifício, porque a explosão vai de dentro para fora. Aqui não. A explosão na Ucrânia vai de fora para dentro. Aqui é uma explosão que vem de dentro e, portanto, os edifícios ao lado têm, obviamente, estragos e há danos colaterais, mas há danos mínimos. Vemos também que, apesar deste castigo, que já dura há uns dias, continuam a ser disparados centenas, no início eram milhares, agora são centenas de foguetes diariamente a partir da Faixa de Gaza e que esses foguetes se dirigem a alvos que é a população civil de Israel. Portanto, é legítima defesa atacar edifícios a partir dos quais estão a ser disparados foguetes contra a população civil de Israel, contra os edifícios e as cidades de Israel. Agora, há aqui limites e esses limites têm que ser definidos e mantidos, mas é muito difícil fazê-lo. Tanto mais que tudo indica que isto é meramente a primeira fase de uma operação, sendo que se o cisto envolver um componente terrestre, será sem dúvida muito complicado avançar na zona da Faixa de Gaza Porque é uma zona completamente cheia de túneis e de bunkers por toda a parte. Está mais do que provado que ao longo destes anos todos, e já vão muitos, o Hamas recebeu uma parte significativa da ajuda de tipo humanitário e que essa parte significativa foi usada para criar esta rede imensa de túneis e de bunkers. Isto está mais do que provado internacionalmente.

Deixe-me perguntar-lhe já a propósito disso, porque está a falar da parte terrestre e isto leva-me a uma pergunta que me parece que é relevante neste momento, até tendo em conta a questão histórica, mas não só, poderá tornar-se uma questão prática e premente a muito curto prazo, que é a questão da fronteira terrestre com o Egito. Nós sabemos que ela está fechada há muitos anos, a propósito dos confrontos entre Israel e o Egito e dos ataques que o Egito protagonizou a Israel. Dito isto, neste momento Israel está com uma postura claramente diferente, tem havido uma aproximação nos últimos anos, notória. Acha que poderemos ter aqui uma alteração de postura? Poderá o Egito aceder a abrir aquela fronteira que daria um espaço de manobra muitíssimo maior a Jerusalém?

É uma situação muito complicada, porque abrir a fronteira significa que um número muito substancial, sem dúvida centenas de milhares de pessoas se precipitariam para a fronteira.

De palestinianos?

De palestinianos, sim, e eventualmente com o Hamas misturado, se precipitariam para a fronteira. E o Egito não parece disposto a aceitar essa situação. Aliás, um dos problemas, por exemplo, inclusive podia-se criar um corredor humanitário marítimo para transportar palestinianos para outras zonas, mas quais? O problema é que aparentemente não há Estados dispostos a aceitarem centenas de milhares de palestinianos que vão para lá. Portanto, se isso fosse possível, transportar para um país árabe, por exemplo, mesmo que não fosse o Egito, mas por mar isso poderia ser feito, faria todo sentido. Criar esses corredores humanitários, não basta dizer à população: "Olhem, procurem refúgio". É preciso criar as condições para que esse refúgio seja possível, nomeadamente fazendo-os sair daquela zona e eventualmente tentando uma triagem para que no meio da população não vá grande parte da organização terrorista que desencadeou esta crise e este problema. À parte disso, é necessário, de facto, que na resposta que é dada por Israel, e esta resposta é compreensível, Israel continua a ser atacada centenas de foguetes diariamente a partir da Faixa de Gaza, mas que nessa resposta seja preservada, tanto quanto possível, a população civil, não havendo muitas ilusões, que nas circunstâncias da Faixa de Gaza, os chamados danos colaterais vão ser substanciais, e é quase inevitável que isso aconteça. Agora, é verdade que há muito tempo que estavam a ser disparados da Faixa de Gaza contra Israel, quando digo há muito tempo, é há décadas, que estavam a ser disparados da Faixa de Gaza contra Israel dezenas de foguetes, normalmente diários, senão centenas de foguetes por semana. Portanto, isto é um castigo permanente que a população civil de Israel tem vindo a sofrer e agora atingiu uma escala que não tem comparação com o passado, com 5000 disparados num dia.

Professor António José Tella, Daniela Nunes, convido-vos a ficarem conosco. Termina aqui o "Guerra na Terra Santa", mas já a seguir vamos abrir um novo gabinete de guerra. Rádio Observador