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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque: a situação no Médio Oriente. Daniela Nunes, bem-vinda. Temos acordo para a libertação de reféns nas mãos do Hamas, 50 reféns em troca de 150 prisioneiros palestinianos. Quatro dias de pausa no conflito, a começar esta quinta-feira de manhã. Olhando para os termos do acordo, parece-lhe equilibrado? Há aqui, ao mesmo tempo, riscos de não ser cumprido?

Olá, Vanessa, boa tarde a todos. Eu começaria por referir que este acordo é muito positivo, sem dúvida nenhuma. O mundo saudou e felicitou ambas as partes pelo acordo e quando eu digo o mundo, não são apenas os líderes políticos, mas também as instituições internacionais e as próprias opiniões públicas. Portanto, de facto, é uma boa notícia para ambos os lados e é, sobretudo, uma boa notícia para as pessoas na Faixa de Gaza, que vão finalmente poder receber alguma ajuda e alguns bens essenciais e combustível também, que oxalá possam contribuir para, de alguma maneira, reverter, pelo menos de maneira parcial, a situação, por exemplo, nos hospitais, que é particularmente lastimável e preocupante na região da Faixa de Gaza. Mas eu julgo que é preciso observar tudo isto e alimentar este otimismo natural com uma certa cautela. Temos que perceber exatamente o que é que este acordo pode significar também do ponto de vista estratégico para ambas as partes, sendo que relativamente a Israel, não sejamos ingénuos. Israel está fundamentalmente preocupado com a questão dos reféns e sobretudo com a questão das 40 crianças e bebés que estão presos em Gaza. Isto por um lado. Por outro lado, para o Hamas, este pequeno intervalo temporal pode significar uma margem importante para, digamos assim, arrumar a casa. Portanto, o que isto quer dizer é que, de facto, é preciso sermos otimistas com alguma parcimónia, até porque as notícias que vimos hoje de manhã também não são propriamente animadoras. Os bombardeamentos na região de Gaza não pararam, aliás, pelo contrário, esta noite intensificaram e isso quer obviamente dizer que nada disto significa nenhum tipo de paz, mas apenas uma pausa estratégica para a qual é preciso olhar com algumas limitações. E essas limitações prendem-se, sobretudo, com uma desconfiança, também ela obviamente natural, de parte a parte. Os dois lados querem assegurar que o outro cumpre a sua parte do combinado e nesse sentido, eu diria que o maior perigo ou o maior risco associado a este acordo é precisamente o da sua não concretização. Portanto, o acordo acontecer, para já, é o mais importante e o que é mais relevante, para já, a meu ver, é que chegue efetivamente alguma ajuda a Gaza, por um lado, e por outro, que os reféns possam efetivamente começar a ser libertados.

Daniela Nunes, o presidente norte-americano Joe Biden veio elogiar o que chamou de compromisso de Netanyahu em apoiar uma pausa prolongada. Quatro dias em guerra é uma pausa prolongada?

Vistas as coisas em perspetiva, é claro que quatro dias é muito pouco tempo, mas se nós olharmos para o mesmo cenário com um olhar comparativo, face àquilo que já foi uma posição tão firme do executivo israelita sobre a sua não cedência acerca destas pausas, enfim, quatro dias é algum tempo. Agora, é preciso entender também que a narrativa política e estratégica associada a esta pausa, que é muito breve, tem muito pouco de pacifista. Portanto, vistas as coisas com rigor, o que interessa ao executivo israelita, e como eu estava a dizer, é tirar os reféns de Gaza. E ao Hamas, muito possivelmente, o que interessa é ter aqui algum tempo de descanso que possa contribuir positivamente para o futuro da sua resistência. Portanto, no fundo, o que eu acho é que são quatro curtos dias para recuperar alguma coisa do que já se perdeu, mas ao mesmo tempo, quatro boas oportunidades para fomentar nos civis presos em Gaza alguma esperança, já que também vai ser possível que estas pessoas recebam alguns bens, alguma ajuda, que em determinados casos pode mesmo ser crucial para definir acerca da vida ou da morte de muitas destas pessoas, numa fase tão crítica da guerra e em que faltam tantos bens e tantos meios essenciais. Acrescentaria também só que tudo isto me parece que resulta, não totalmente, mas pelo menos em parte, de uma certa pressão que tem vindo a ser exercida sobre Israel por parte dos Estados Unidos, no geral da comunidade internacional, mas em particular dos Estados Unidos, que são o aliado histórico de Israel. E nesse sentido, eu diria que me parece fundamental que este tipo de pressão continue a ser feita. E estou a sublinhar isto porque há quem diga que Israel está tão firme nesta sua retórica de não ceder e de não dar nenhum passo atrás, que me parece realmente relevante não deixar esmorecer esta pressão, que no fundo, e como estamos a ver, pode surtir algum efeito. Num contexto em que o esforço de guerra israelita parece ser tão adverso a pausas humanitárias e à ideia de ceder perante o Hamas ou aos palestinianos, parece-me que estamos aqui perante uma certa luz ao fundo do túnel, ainda que essa luz só tenha bateria para quatro dias.

Gostávamos de ouvi-la também sobre o papel da diplomacia neste conflito. Estados Unidos, Qatar, Egito têm estado no centro da mediação. Temos visto alguns resultados. Podemos esperar outras pausas como esta?

Um pouco no seguimento daquilo que eu estava a dizer, parece-me muito importante que continue a pressão que tem estado a ser feita até ao momento. Falei do caso particular dos Estados Unidos, porque há uma relação histórica de amizade entre Washington e Telavive, mas estes outros players que mencionou também têm vindo a desenvolver um papel importante, desde logo porque estão bastante mais próximos do epicentro dos acontecimentos do que propriamente os Estados Unidos. Mas eu não sei se podemos contar com mais pausas deste tipo, porque é como eu também estava a dizer, Israel e o Executivo de Netanyahu são bastante adversos à ideia de poder dar quaisquer sinais de estar a ceder perante o inimigo. Mas parece-me crucial que se mantenha esta posição, que aliás tem vindo a ser adotada de um modo geral, para alertar Israel para a questão da desproporcionalidade, ou seja, para a importância da proporcionalidade e para o não envolvimento ou para o envolvimento menor possível de civis numa problemática que, afinal de contas, é entre o governo israelita e a liderança do Hamas. Não é entre os israelitas e os palestinianos, e essa dimensão parece-me que é importante distinguir.

"A Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.