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Boa tarde, Alberto Gonçalves. Bom início de semana. Hoje queres nos falar do encobrimento dos mídia americanos num caso de homicídio de uma jovem ucraniana.
Boa tarde e boa semana também. Infelizmente, o caso não proporciona grande galhofa. É uma jovem refugiada ucraniana chamada Iryna Zhuravska, de 23 anos, que no passado dia 22 de agosto, dentro da carruagem de um comboio em Charlotte, na Carolina do Norte, foi esfaqueada três vezes num ataque descrito pela polícia como aleatório e sem provocação. E realmente foi aleatório e sem provocação, porque há um vídeo que circula nas redes sociais e que é bastante explícito quanto a isso. O vídeo mostra a jovem entrar na carruagem, a sentar-se na fila imediatamente à frente de um sujeito, e esse sujeito em poucos segundos puxa de uma faca sem qualquer razão aparente. Isso, felizmente, já não se vê no vídeo, mas sabe-se que atacou mortalmente a vítima. O suspeito tem 34 anos, é um homem sem abrigo, com um extenso histórico criminal e, entretanto, foi preso e acusado de homicídio em primeiro grau, naturalmente. Pelo menos parece que a justiça funcionou. É o mínimo. Agora, infelizmente, a política e o jornalismo não funcionaram. Pelo menos parte da política e parte significativa do jornalismo não funcionaram. No que toca à política, a presidente da Câmara, a mayor de Charlotte, que é eleita nas listas do Partido Democrata, tratou logo de desvalorizar o caráter particularmente perverso do crime, que parece-me evidente, lembrando que o homicida sofre de problemas mentais, que devemos ter compaixão por casos assim, e esquecendo de lembrar o vastíssimo cadastro do assassino. Sobre a jovem Iryna Zhuravska, a senhora mayor de Charlotte não teve grande coisa a dizer. Pelos vistos, a preocupação dela era mais com o assassino do que com a vítima. Mas pior do que isso, pior do que a parte política, e mais assustador do que a parte política, foi ou tem sido o comportamento do jornalismo, em particular, no caso, obviamente, do jornalismo americano. Uma pesquisa no site da Associated Press mostrava zero referências ao nome da ucraniana morta. E o mesmo acontecia no New York Times, no Wall Street Journal ou, e aí era quase escusado procurar, no Washington Post. A CNN eu tinha procurado ontem e também continuava com zero referências. Hoje já referiu, só hoje, o trágico episódio, já largos dias depois do mesmo se tornar, como agora se diz, viral na internet. Por que isto acontece? Por que há este silêncio todo em volta do caso? Eu, muito sinceramente, não vejo outra explicação que não tenha a ver com o fato de o assassino ser negro e a assassinada ser branca. É evidente que não estou a dizer que o crime tenha sido motivado pelo ódio racial. Muita gente costuma falar disto. Há uma excessiva facilidade nos casos em que a etnia dos protagonistas é inversa desta, e aí, sim, se invoca imediatamente essa motivação, a motivação racial. Eu acho que por causa disso, por causa dessa facilidade em se vir falar de crimes raciais ou crimes de ódio, leva a que neste caso específico se proceda com tantas cautelas, e são tantas as cautelas, que se acaba por esconder a notícia, ou seja, a notícia nem chega a ser notícia. Dito de outra maneira, toda a gente percebe que se um psicopata branco degolasse sem qualquer provocação uma senhora negra, o crime seria tão viral nos mídia tradicionais quanto no Twitter e no Facebook. Ninguém duvida que as televisões e os jornais decretariam logo a motivação racial do homicídio, dedicariam centenas de horas em debates sobre essa ferida aberta, que se mantém aberta mais de 150 anos após a abolição da escravatura nos Estados Unidos, etc. Só a título de exemplo, eu fui procurar o George Floyd, o negro que foi morto por um polícia branco em 2020, enquanto resistia à detenção. Já foi referido pela Associated Press 7664 vezes. Entre parêntesis, o lema da Associated Press é "notícias sem agenda", o que deve ser um exercício de ironia, mas adiante. Eu nem me dei ao trabalho de verificar as referências nos outros jornais que citei, no Times de Nova York, no Washington Post, mas de certeza que o número de referências ao senhor George Floyd é bastante superior às zero vezes em que a senhora Iryna Zhuravska aparece por lá. Eu vou já terminar e não vou fazer comentários adicionais, a não ser para notar a imensa tristeza de toda a história, desde logo da história propriamente dita. A história de uma rapariga que consegue fugir da guerra no seu país para se refugiar na América, que é um destino histórico e natural de tantos refugiados, e que morre assim, do modo mais cruel possível, mais gratuito possível e, para cúmulo, mais silenciado possível. E este silêncio deve-se, em larga medida ou em toda a medida, à cor da sua pele, da pele da vítima e à cor da pele do assassino. Obviamente, o sonho de Martin Luther King, de que chegasse um tempo em que as pessoas não serem julgadas pela cor da sua pele, esse sonho, obviamente, não se realizou e é duplamente deprimente ver o jornalismo atual a fazer tudo para impedir que o sonho se realize.
Alberto Gonçalves, a desfazer ideias feitas. Marcamos encontro novamente amanhã. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Miguel.