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"Ideias Feitas", na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves. Hoje queres falar sobre as senhoras na capa da revista Visão?

Olá, Ricardo. Quero sim, porque esta semana a revista Visão dedica a capa e um dossiê especial, é esta a designação que eles usam, ao ódio contra as mulheres. À partida, obviamente, nada contra, tudo a favor. Em Portugal, infelizmente, há uma quantidade tremenda de crimes daquilo a que se chama, acho eu com alguma imprecisão, violência doméstica, vamos usar o termo em vigor. E as mulheres são de longe as maiores vítimas. São vítimas de agressões físicas, de abusos de ordem diversa e, nos casos extremos, são vítimas de homicídio. Não são assim tantos casos, são algumas dezenas por ano, mas são mais do que os que deveria haver. Cada um é mais do que o que deveria haver. E isto tudo apenas, claro, estamos a fiar nas denúncias feitas à APAV e à polícia. É possível imaginarmos os horrores que muitas mulheres sofrem e que, sobretudo por medo, não entram nas estatísticas. Mas não é destas mulheres que a revista Visão fala. E a revista Visão também não fala de uma tendência que se vem instalando entre os jovens ou entre a geração mais informada de sempre, que pelos vistos, em larga medida, ou muitos desses jovens rapazes veem a mulher, ou no caso, a namorada, como uma criatura subalterna, idealmente destinada a obedecer aos desejos do macho. Isto é fácil de constatar nos vídeos de alguns desses influencers da juventude. Eles próprios, que são jovens e opõem-se a que, por exemplo, as mulheres saiam para se divertir sem a presença do namorado. E já ouvi o testemunho de muitos professores que me são próximos, que constatam nos seus alunos, que têm 15, 16, 17, 18 anos, este sentimento de posse que eu pensava ter desaparecido há quatro ou cinco décadas. Pelos vistos, não desapareceu. Mas também não é dessas mulheres que a Visão fala. E a Visão também não fala das mulheres muçulmanas, cuja etiqueta de submissão eu não vou desenvolver aqui. A Visão, acreditem se quiserem, os ouvintes, fala das mulheres ativistas e políticas que são insultadas e ameaçadas, sobretudo nas redes sociais. Esse horror, praticamente o Holocausto. A fotografia de capa não tem nenhuma senhora agredida pelo marido, nenhuma miúda maltratada por namorado, nenhuma muçulmana. A capa da Visão tem a deputada Isabel Moreira, a alegada historiadora e comentadora Raquel Varela, a ex-deputada Joacine Katar Moreira e uma senhora que eu não conhecia, mas que pelos vistos é rapper e ativista e assina Capicua. Ou seja, o dossiê especial da revista Visão sobre o ódio contra mulheres, centra-se em mulheres evidentemente privilegiadas materialmente, simbolicamente, e que recebem, ouvem ou leem umas bocas menos simpáticas ou mais ordinárias no X, antigo Twitter. Isto é extraordinário porque, por um lado, toda a gente que exprima uma opinião acerca de qualquer assunto recebe bocas ordinárias e ameaças nas redes sociais. E não é porque sejam mulheres. Eu não sou, por exemplo, e recebo piropos desses todos os dias e devo dizer que não me incomoda absolutamente nada. Por outro lado, é extraordinário porque as mulheres em questão, do pouco que sei delas, e sei mesmo muito pouco, só sei da vida pública delas, representam praticamente o oposto das mulheres que são realmente vítimas e que sofrem em silêncio, coitadas, as desgraças das suas vidas. Nem de propósito, as senhoras na capa dizem, e é manchete deste número da Visão: "Não nos calam!" Mas o drama é o das mulheres que têm que andar caladas, não o drama das mulheres que não se calam. O dossiê especial da revista Visão é um insulto a essas mulheres, a estas últimas de que eu falei, essas autênticas vítimas. E em simultâneo, é também um insulto ao jornalismo, que aliás, deixa de ser jornalismo quando se fecha na famosa bolha e desata a acreditar que na bolha está o mundo real. E não está. Escolher a doutora Isabel Moreira como exemplo de mulher perseguida por uma sociedade misógina, é como dizer que o meu primo angolano, que existe de facto, é vítima de racismo porque anteontem esperou 20 minutos que as amêijoas lhe fossem servidas na Marisqueira. É não ter noção nenhuma e quando o jornalismo não tem noção nenhuma, acontece-lhe o que está a acontecer à revista Visão.

Alberto, um abraço. Bom fim de semana prolongado. Voltas na terça-feira.

Na terça-feira. Bom fim de semana prolongado, Ricardo.

Igualmente. Um abraço, Alberto.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.