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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
E hoje queres falar sobre o Minnesota e um silêncio sobre o Irão. Queres falar de quem, Alberto?
Já chego lá. Porque nas últimas semanas e sobretudo nos últimos dias, mas isto já dura há umas duas semanas, talvez, em matéria de abusos e abusos fatais, infelizes, o assunto tem estado ligado aos dois casos com vítimas mortais resultantes da intervenção do ICE, que é a polícia americana de imigração no Minnesota. E já recebi uma série de mensagens a perguntar por que eu não comento isso. Eu não comento porque não tenho muito a dizer, porque posso dizer, isso parece-me indubitável, que ambos os casos, ambas as pessoas que morreram, ambas as situações são tristes e são lamentáveis, porque duas pessoas morreram e até chega a ser ridículo dizer-se que seria melhor não terem morrido. Quer dizer, é óbvio que não deviam ter morrido e isso é indiscutível. Agora, quanto a saber se morreram mais por culpa própria, por culpa dos agentes da autoridade em causa, se por uma mistura de culpas, isso já é discutível. E essa é uma discussão em que não me meto, porque não tenho certezas sobre o assunto e não tenho provas. Há provas apresentadas por uma das partes, há provas apresentadas por outra parte e, portanto, não sou eu que vou decidir. Não sou eu que tenho conhecimentos particularmente informados sobre o assunto. O ponto que eu queria trazer aqui é que a falta de certezas e de provas não tem impedido que milhões de pessoas pelo Ocidente afora opinem sobre estes casos do Minnesota e alguns milhares até já se manifestaram, sobretudo nos Estados Unidos, contra o eventual e admito que plausível, sinceramente, não acho que seja uma hipótese a recusar à partida, o excesso policial. Pode ter havido isso, com certeza. E está tudo muito certo que as pessoas se indignem com isso, e está tudo muito certo que as pessoas se manifestem. Agora, o que talvez esteja menos certo é o fato desse ruído a propósito da senhora e do senhor que foram mortos no Minnesota contrastar imenso com o silêncio que se tem feito acerca dos mortos no Irão, onde comprovadíssimos inocentes foram assassinados, têm sido assassinados pelo próprio regime que manda no país. Eu não sei quantos foram os mortos no Irão, talvez 3 mil, talvez 10 mil, talvez 20 mil, já vi de tudo, mas a internet foi cortada lá e foi cortada para que os massacres se realizassem em recato e por isso é difícil termos uma ideia. Agora, temos uma certeza de que morreu muita gente, morreu uma quantidade de gente incomparavelmente superior à gente que morreu em Minneapolis ou no Minnesota em geral, mas acho que os casos foram em Minneapolis ou perto da cidade, e que toda essa gente que morreu no Irão não morreu na América e aqui na Europa, e praticamente lado nenhum, a não ser por parte de expatriados iranianos, não mereceu um milionésimo da atenção e dos lamentos dedicados a estes casos do Minnesota. Aparentemente, para as generalidades ocidentais, a vida de um iraniano que luta pela sua liberdade contra uma tirania despótica vale uma fração microscópica da vida de um ativista americano que luta, se calhar legitimamente, repito que não vou discutir isso, contra a política de imigração do senhor Trump. Ou seja, a vida dos iranianos, pelos vistos, não vale nada. As explicações para isto ou as justificações para isto são variadas, mas todas ou quase todas vão dar ao oportunismo político ou àquele exato oportunismo que leva tantos, onde é conveniente, a mostrarem-se devastados com uma tragédia específica, localizada, selecionada, enquanto em simultâneo, porque não é conveniente, desprezam uma tragédia de dimensão incomparável, uma tragédia que em termos históricos é rara. E quando a ideologia se sobrepõe à decência, o resultado costuma ser mais ou menos este. E quando a ideologia é absoluta e essencialmente indecente, o resultado é ainda pior. Há quem não só não mencione os massacres do Irão, como nem sequer esteja contra os ditos massacres. Se querem um exemplo, eu dou um exemplo da doutora Catarina Martins, a eurodeputada eleita pelo Bloco de Esquerda, quando o Bloco de Esquerda tenta eleger pessoas, que se absteve na votação final de uma resolução do Parlamento Europeu, agora em 22 de janeiro, que condenava a repressão dos protestos no Irão. E repressão é a favor, é eufemismo. À semelhança, houve uns 10% do Parlamento Europeu que votou assim. Houve nove eurodeputados que até votaram contra a condenação. Ela absteve-se, a doutora Catarina Martins, porque aparentemente não acha que o governo iraniano tenha feito alguma coisa de errado quando passou uns dias a disparar sobre transeuntes ao calhas. Mas a doutora Catarina Martins sente, certeza, extremamente comovida com o que sucedeu no Minnesota. E eu sei que é impossível que uma pessoa se comova por tudo e ao mesmo tempo, mas há limites para o descaramento e para a miséria moral. E a doutora Catarina Martins e os colegas da doutora Catarina Martins têm feito carreira a ultrapassar esses limites. O facto dela ainda manter uma espécie de respeitabilidade social é pra mim um mistério, mas os mistérios não são pra ser desvendados, senão deixam de ser mistérios.
Obrigado, Alberto. Amanhã regressas. Um abraço, Alberto. Até amanhã.
Um abraço, Ricardo. Até amanhã.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.