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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Já recuperado da primeira volta das presidenciais. Tu hoje queres defender a decência ao lado da extrema-esquerda?

Não sou exatamente eu, mas há quem o queira fazer. Olá, Ricardo, boa tarde. Em relação à primeira parte das eleições que se realizaram ontem, há muitos democratas autênticos e estou a dizer isto sem pingo de ironia. São pessoas que tenho hoje por democratas autênticos e pessoas que apoiaram o doutor Seguro já nesta primeira volta e que obviamente voltarão a apoiá-lo na segunda. Duvido que haja gente que tenha votado no doutor Seguro agora e que deixe de votar na segunda volta. E também há muitos democratas que não apoiaram o doutor Seguro agora, mas ontem à noite decidiram imediatamente apoiá-lo no momento em que perceberam que o candidato de cada uma dessas pessoas, fosse Cotrim de Figueiredo, Marcos Mendes ou Almirante, que esse candidato não ia a lado nenhum. E é engraçado notar que os democratas autênticos, repito, deste segundo grupo, passaram a campanha a avisar que um voto no doutor Ventura era, no fundo, um voto no doutor Seguro, partindo do pressuposto que continua a ser bastante plausível de que a taxa de rejeição do doutor Ventura não lhe dará grandes hipóteses de vencer as eleições finais. Mas ontem à noite, num ápice, esse perigo de que os votos revertessem indiretamente a favor do doutor Seguro foi desprezado e agora são os próprios que na segunda volta vão votar diretamente no doutor Seguro. O que diz, desde logo, alguma coisa sobre a coerência e a sinceridade dessa gente. E qual é o argumento para justificar esta cambalhota? O argumento, se lhe podemos chamar assim, é que subitamente o doutor Seguro transformou-se desde ontem à noite, desde há poucas horas, há menos de 24 horas, no último baluarte da democracia e de uma palavra que palpita que vai estar agora muito em voga nas próximas três semanas, da decência. E isto contra o terrível André Ventura, o símbolo da intolerância e de uma série de coisas feias, e como noutros tempos Sá Carneiro e Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, é, no fundo, um símbolo do fascismo. Eu não estou obviamente a comparar o André Ventura com estas figuras, a não ser para recordar que qualquer líder da direita ou qualquer figura destacada da direita ou que viesse da direita e representasse qualquer espécie de ameaça para a esquerda, foi sempre tratado com o epíteto de fascista de modo a assustar o povo. Isso não é nada de novo, sempre aconteceu. O que importa perceber aqui é que na campanha, que acho que recomeça hoje, não sei se oficialmente, mas pelo menos oficiosamente recomeça hoje, a ameaça do socialismo será cada vez mais esquecida e a ameaça do fascismo será cada vez mais agitada. Isto quer pelos democratas que estarão com o doutor Seguro em defesa da democracia e da tal decência, e quer por personalidades da esquerda e da extrema-esquerda que de repente se afirmam fiéis do doutor Seguro desde pequeninas ou desde que nasceram até. E então vamos assistir a uma coisa muito curiosa, que é ver democratas autênticos ao lado de criaturas que passaram a vida a combater a democracia de todas as maneiras possíveis. Vamos ver esses democratas de mãos dadas com comunistas, bloquistas, livristas ou tavaristas, não sei como é que se chamam as pessoas que votam no Livre, extremistas de várias paragens e ainda por cima, é claro, toda a tralha que vem do tempo do oturrismo e a tralha socrática, a tralha costista e por aí fora. Ou seja, vamos ver a tal decência a ser invocada em uníssono por pessoas decentes e por pessoas que, pelo menos politicamente, não estou a falar pessoalmente, mas que politicamente são indecentes. E isto acho que vai ser um espetáculo no mínimo peculiar. E repare-se que eu nem sequer estou a recordar o passado do doutor Seguro, que nasceu socialista, cresceu socialista e será com certeza um presidente de alguma forma socialista, ou no mínimo um presidente que quer ele queira, quer não, dá algum ânimo a um PS que estava moribundo. E já é estranho ver as supostas direitas empenhadas em eleger um socialista, mas não é bem esse o meu ponto. O meu ponto é que quando cidadãos com visões tão distintas da sociedade se encontram no apoio ao mesmo candidato, uma coisa é certa, o candidato até pode nem ter culpa disso, mas metade desses apoiantes estão enganados, estão ali por engano. É muito duvidoso lutar pela decência ao lado da doutora Catarina Martins, parece-me. E não é possível conciliar uma visão democrática do país, do mundo.

Mas Alberto, irias ao lado ou apesar de?

Como, Ricardo? Desculpa, não consegui ouvir.

Ao lado ou apesar de Catarina Martins? As pessoas também podem fazer essa conta, ou não?

Podemos recuar ao Churchill, que dizia que para lutar contra Hitler aliava-se ao diabo, e o diabo, no caso, seria, em princípio, o Stalin. Eu acho que o doutor Ventura não é o Hitler. É capaz de não ser uma ameaça tão dramática. Era aí que eu queria chegar e queria fechar isto. É difícil conciliar uma visão democrática, estar ao lado, eles podem dizer que é apesar de, mas vão estar ao lado de alguma forma. Não vão estar ao lado fisicamente, suponho, em cima do palco, mas vão estar ao lado da doutora Catarina Martins, por exemplo, de comunistas vários, de extremistas diversos. E acho que o doutor Ventura, por muito que alguns o idolatrem, não tem tanta força para representar uma ameaça, não tem a força necessária para representar uma ameaça tão terrível. Agora, além do doutor Ventura não ter força, as convicções de uma boa parte das nossas direitas, ou de uma direita muito fragmentada, ou de uma alegada direita muito fragmentada, as convicções dessa gente é que parecem demasiado fracas. A direita está completamente, apesar de ser maioritária, apesar de manter essa maioria, está em frangalhos. E também acho que não vai ser o doutor Ventura a conseguir congregar uma direita em seu redor. Não é o doutor Montenegro, com certeza, e não tem alguma legitimidade que ele pudesse ter para o fazer ou alguma ambição que ele pudesse ter nesse sentido. Acho que se perdeu ontem. Acho que há alguém que não está neste momento aqui e que se calhar nem vale a pena citar o nome, que poderia ser uma espécie de agregador desta direita. Também não acho que seja o doutor Ventura. Agora, só acho engraçado e mesmo para terminar, Ricardo, que acho curioso ver pessoas com pontos de vista tão radicalmente diferentes em relação à sociedade e à forma como o mundo deve ser organizado, a unirem-se apenas por reação ao doutor Ventura. Repito, e mesmo para terminar agora, não acho que o doutor Ventura seja assim tão importante, tão relevante, que tenha tanta força.

Alberto, vais regressar amanhã no "Ideias Feitas". Até amanhã, Alberto. Um abraço.

Até amanhã, Ricardo. Um abraço.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.