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As ideias feitas. Ideias feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

Hoje queres ir às férias do doutor Montenegro?

Pois, esse é o grande mistério e a grande polêmica do momento. Ou uma das polêmicas do momento, as férias do primeiro-ministro. Já chegamos a isso. A outra polêmica é aquele todo conjunto de subpolêmicas, que já falamos aqui e de que já toda mundo falou, que envolvem o doutor Luís Neves, que ainda é ministro da Administração Interna. Mas ou porque as subpolêmicas do doutor Neves não chegam para preencher todo o espaço noticioso, ou porque convém que as subpolêmicas do doutor Neves não encham todo o espaço noticioso, arranjou-se um pouquinho de tempo e de espaço noticioso para se falar das férias do primeiro-ministro, um tema absolutamente fulcral. E o grande ponto da discórdia em volta das férias do primeiro-ministro consiste em apurar se, de facto, o doutor Montenegro fez ou está a fazer férias, ou se não fez e não está a fazer férias. Só regressando um pouco atrás, um mês e pouco atrás, depois de ter passado não sei quantas vezes aos Estados Unidos ver o futebol, duas, três vezes, acompanhar em trabalho intensivo de apoio à seleção de futebol e de confraternização com imigrantes, o doutor Montenegro resolveu anunciar, sem que ninguém lhe pedisse, acho eu, que não tencionava abrandar a sua dedicação ao país e que, por isso, não faria férias. Sucede que num destes dias os jornais apanharam-no e fotografaram-no na praia, ainda por cima na companhia do doutor Hugo Soares. Provavelmente até poderiam estar numa cimeira em calções de banho a programar os destinos da nação e do mundo, mas nem isso livrou o doutor Montenegro da suspeita de que afinal ele teria mentido aos portugueses e cometido o supremo pecado de gozar pelo menos de algumas férias, nem que não fosse os 22 dias úteis ou o que aparecer, gozou pelo menos ali um ou outro dia de férias. E a oposição do Chega até à extrema-esquerda entrou em polvorosa e o próprio secretário-geral do Partido Socialista, que não sei se está de férias ou não, surgiu a acusar o doutor Montenegro de precisamente isso mesmo, daquilo que eu acabei de dizer, de ter jurado a pés juntos de que não ir de férias, ou seja, ter mentido aos portugueses e, afinal, está de férias com o líder parlamentar. Isto são mais ou menos, estou a parafrasear o doutor José Luís Carneiro. A reação do PSD em defesa do primeiro-ministro também não se fez esperar, logo a seguir ao comentário do secretário-geral do Partido Socialista e o referido líder parlamentar, o doutor Hugo Soares, respondeu com uma invocação do socialista Ascenso Simões a propósito desta polêmica, e um palavrão que começa por M e depois tem um E e um R, etc. E também disse o doutor Hugo Soares que o gabinete do primeiro-ministro, e parece que é verdade, já tinha informado as massas de que ainda que não gozasse de um período formal de férias de verão, o doutor Montenegro poderia não abdicar de alguns fins de semana e de um ou outro dia esporádico de férias. Tudo isto mostra, tudo somado, duas ou três coisas que eu gostaria de assinalar. A primeira acho que é mais ou menos óbvia, é o elevadíssimo nível do debate político nacional. Há aqui uma densidade quase erudita do conteúdo e da retórica das nossas principais figuras partidárias. E acho que quanto a isso não preciso desenvolver mais. A segunda coisa é que os líderes da oposição, e principalmente, neste caso, o doutor José Luís Carneiro, fazem lembrar a história que o Woody Allen conta no início do "Annie Hall", daquelas senhoras que jantam num restaurante e uma queixa-se: "A comida aqui é horrível!" E a outra acrescenta: "Pois é, ainda por cima as doses são tão pequenas." E a terceira coisa que eu gostava de assinalar, já perto aqui do fim do Ideias Feitas, deriva desta segunda observação do Woody Allen, porque não é razoável criticar-se a ação dos ministros e do chefe de governo, como o secretário-geral do PS tem feito, e depois queixarmo-nos de que eles não trabalham o suficiente. Quer dizer, se o governo é medíocre e o secretário-geral do PS com certeza acha que o governo é medíocre ou até abaixo disso, e eu também não acho que o governo seja brilhante, por acaso, nem este nem praticamente nenhum governo, a coerência manda que nesse caso fiquemos satisfeitos com as férias dos respectivos membros e quanto mais prolongadas melhor. Por mim, o doutor Montenegro e o doutor Hugo Soares e mais uns tantos governantes poderiam ficar a conversar na praia durante meses a fio e o país acho que só teria a ganhar. E quem diz o doutor Montenegro, diz praticamente qualquer indivíduo que pudesse ocupar o cargo de primeiro-ministro, independentemente do partido. Em geral, quanto menos os senhores e as senhoras de um governo trabalharem, menos as nossas vidas estarão, em princípio, dependentes dos humores deles e delas, que normalmente não nos trazem nada de bom. Por isso, em vez de estar a condenar as férias, que pelos vistos até são bastante esporádicas do pobre doutor Montenegro, eu acho que o doutor Montenegro devia ter direito a um período de férias muito mais vasto e amplo até do que o cidadão comum. Mas isso se calhar não se pode, porque é demagogia, porque é não sei o quê, porque é outra coisa qualquer ou porque se está a ofender o povo. E, portanto, vamos ficar como estamos nestas polêmicas que pelo menos são fascinantes do ponto de vista intelectual.

Obrigado, Alberto. Até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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