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Desfazemos ideias feitas com o Alberto Gonçalves e hoje vamos olhar para um caso que tem tido reações em Portugal e também no Brasil. Alberto, o caso de declarações racistas. Quero comentar aqui essas sequelas deste caso da Costa de Caparica.
Olá, boa tarde, Vanessa. Sim, já falei ontem sobre isso, mas falei, sobretudo, sobre o fato de um caso dessa insignificância, independentemente da gravidade dos insultos, não é isso que está em causa, mas da significância pública dos mesmos, que não parece ser nenhuma. Vou falar para os dois ou três portugueses que talvez não tenham ouvido falar do caso. Um restaurante da Costa Caparica, uma senhora alcoolizada e que também já li, não sei se é verdade, que sofre de perturbações ou já é conhecida por ter uns comportamentos em público um bocado peculiares, insultou os filhos de um casal brasileiro. Os filhos são de raça negra. Acho que já não é a primeira vez que a senhora faz isso, tem esse tipo de atitudes. Portanto, vamos presumir, uma pessoa, não digo inimputável, mas se calhar não deve andar longe disso. Uma pateta, vamos chamar-lhe assim. E isso mereceu um comentário oficial do presidente da República, e foi sobre isso que eu falei ontem. Agora, entretanto, parece que está toda a gente a falar sobre o caso, o meio mundo está a falar sobre o caso. E uma das pessoas que se pronunciou sobre o caso não foi o presidente da República, mas foi um ex-presidente da República do Brasil, o senhor Lula, aliás, notório por várias outras coisas no currículo ou no cadastro dele, como queiramos chamar, além de ser presidente da República. Uma delas é alguma inclinação para vidas espirituosas, digamos, ao que parece, e muito mais grave do que isso, uma inclinação para desviar dinheiros alheios ou que não lhe pertencem, enquanto político, enquanto chefe de Estado, enquanto líder de um partido. E o senhor Lula resolveu também interferir na questão e criticar, não exatamente por essas palavras, mas no fundo, criticar o racismo em Portugal e que tem que se construir um mundo sem racismo. Isto, volto a insistir, porque isto parece-me absolutamente espantoso, por causa do que uma senhora, uma maluquinha qualquer resolveu dizer a umas crianças num restaurante da Caparica. Não que o fato de ser na Caparica seja especialmente importante ou decisivo, mas é um acontecimento tão microscópico, que acho extraordinário este conjunto de reações. Ainda mais vindo do senhor Lula, defender um mundo sem xenofobia, sem racismo, o senhor Lula que ainda há poucos meses tinha dito que o Brasil não precisava lá dos portugueses pra nada em matéria de treinadores de futebol, salvo erro, porque havia muitos brasileiros. "O Brasil já tem brasileiros que chegue, já estamos cheios de brasileiros, não precisamos de estrangeiros aqui", pelo menos para determinadas posições ou aquelas do universo em que ele repara. Será o universo futebolístico, não parece que ele tenha grandes interesses por muitos outros universos, pelo menos dos lícitos. Dos outros, talvez tenha. E lembro-me de um caso em que não foi uma simples anônima, um caso passado, esse sim, em Portugal. Não foi uma simples anônima, não foi há tanto tempo como isso, foi uma pessoa que ocupava um cargo político, de eleição. Na altura, era presidente da Junta da Freguesia de Arroios, em Lisboa. Por acaso, a freguesia que tinha a maior comunidade brasileira em Arroios. Era aquela senhora Margarida Martins, vulgo Guida Gorda, que era conhecida como porteira do Frágil, que depois fez uma carreira dentro do Partido Socialista e, como sabemos, notória por várias coisas. E essa senhora, na altura em que o Bolsonaro venceu, se bem me lembro, esmagadoramente as eleições dentro da comunidade brasileira que vivia em Portugal, ela disse que os brasileiros que votaram no Bolsonaro deviam voltar todos pra terra deles. Disse e escreveu, isto estava escrito. Depois, acho que apagou a publicação, aquelas coisas que se fazem, mas não deixou de estar escrito. E na altura, isto falou-se vagamente durante duas a três horas da praxe, mas não causou esta indignação, nem me lembro do nosso presidente da República ter uma intervenção oficial a propósito. Não me lembro de o governo ter qualquer pronunciamento acerca disto. Não me lembro, sobretudo, do partido onde a senhora militava e pelo qual era eleita, que era o Partido Socialista, também tomar qualquer posição a este respeito. E tanto não tomou, nem sequer sentiu o problema em causa, que deixou a senhora recandidatar-se ao cargo que ocupava, que por outras razões ela perdeu. Não foi de certeza por esta razão, ou julgo que não terá sido. Sabemos todos, mais ou menos, ou quase todas as razões que levaram a senhora a perder a eleição. No entanto, isto não deu polêmica nenhuma e estamos a falar de uma titular de um cargo político. Não era um cargo de uma relevância por ela, mas era um cargo político. Ocupava um cargo de certeza mais relevante do que uma anônima que andava a vaguear pelas portas dos restaurantes da Caparica, a insultar pessoas de forma fortuita. E, no entanto, isso passou absolutamente despercebido. Eu não sei que espécie de importância estão a dar às palavras desta senhora, que já li, não consegui apurar se é verdade, há quem diga que é, que não é, que a senhora é brasileira naturalizada portuguesa, não faço ideia, também não me interessa. Podemos imaginar o estado mais ou menos emocional da senhora. Portanto, o dia a dia dela é passado, pelo menos com alguma regularidade ou com alguma recorrência, à porta de restaurantes a insultar pessoas por questões raciais ou outras. Portanto, dá pra imaginar o tipo de pessoa de que estamos a falar. Agora, no caso de uma titular política do PS, isso não levantou problemas nenhuns. Ok. Em relação ao que as pessoas mais ou menos comuns, mais ou menos anônimas sentem face a um estrangeiro, face a uma pessoa de outra etnia, ao que lhes apetecer, uma pessoa de outra religião. As pessoas são livres disso. A pessoa se passa do pensamento para a agressão verbal, como foi o caso, a família em causa agiu e reagiu também através de insultos e da chamada da polícia, também me parece perfeitamente justificado, não tem mal nenhum. Fazer disto um caso nacional, acho estranhíssimo. Eu gostaria só de notar: eu tenho familiares em São Paulo, uma bisavó que emigrou para São Paulo, ainda tenho lá uma tia-avó viva e uns primos em segundo grau, uma série deles. E já estive lá, já convivi com eles lá em São Paulo. E aquela gente, não estas segundas gerações e já vem terceira geração, mas as primeiras gerações eram insultados sistematicamente, porque eles foram para lá, começaram como vendedores de tapetes nos anos 50, e eram insultados como portugueses pelos brasileiros, sistematicamente, e gozados e enxovalhados e o que calhava. E aguentaram. Tive um primo que não aguentou, regressou e foi esse que contou mais esses pormenores de xenofobia que existia no Brasil e que continua com certeza a existir no Brasil e em Portugal e em França e na Espanha e na Bielorrússia, com certeza, faça quem calha. Estas coisas, especialmente se forem personalizadas, uma criatura qualquer que passa na rua e que diz uns disparates, isso não pode ter importância absolutamente nenhuma, nem se pode deduzir daqui qualquer espécie de: "há um racismo endêmico em Portugal" ou "vamos dizer que não há racismo em Portugal". Isto não significa absolutamente nada. Fazer disto o caso que se fez é que me parece muito mais grave do que uma pobre coitada que andou a gritar insultos pelo meio da rua, que se calhar merecia ser institucionalizada, como agora se diz. Isso é que me parece grave, dar importância ao caso, a importância que se deu, para além da mera notícia, quando muito, mas exceder o estatuto de mera notícia, isto não merece de todo que tenha excedido. Talvez o facto dos brasileiros ofendidos em causa, os pais das crianças, serem dois atores, pelos vistos, nunca ouvi falar neles, mas parece que são dois atores. Talvez isso tenha tido peso nesta história toda, não faço ideia, mas também não acho que seja mais grave insultar os filhos de atores do que insultar os filhos de um engenheiro, ou de um operário, ou de um carpinteiro qualquer. Portanto, não vejo que seja por aí. Acho que se perdeu totalmente a noção da realidade nesta matéria e que daqui a poucos dias, não sei se o Papa Francisco vai, nalguma homilia, incluir uma referência aos insultos do restaurante na Caparica. Já nada me admirava, porque eu ontem isolei um bocado o problema da falta de noção no professor Marcelo, mas realmente o professor Marcelo parece habitar um mundo que é mais ou menos condizente com o tipo de cabeça que ele tem, em que ele não se destaca tanto de forma negativa, portanto, está mais ou menos no seu ambiente, no mundo em que vivemos.
Alberto Gonçalves, aqui a comentar os desenvolvimentos deste caso das declarações racistas num restaurante na Costa de Caparica. Um caso que aconteceu em Portugal, mas atravessou fronteiras até ao Brasil. Alberto, novo encontro marcado amanhã para mais um "Ideia Espectro". Até lá.
Até amanhã.