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Desfazemos ideias feitas com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto. Alberto, estás por aí? Sim. Vamos.
Sim, estou te a ouvir perfeitamente, Vanessa.
Eu é que não estava a ouvir-te, mas ultrapassado aqui este problema técnico, o tema de hoje, Alberto, traz os insultos racistas que o Presidente da República não comentou.
Não, que ele comentou.
Que ele comentou. Sim, exatamente. Aliás, acabei de dar essa notícia com uma nota no site da Presidência da República.
Falaste agora mesmo nisso. Sim, e é isso que eu acho mais curioso, porque para as pessoas que não sabem o que se passou, e o que se passou, a meu ver, em termos de interesse público, é relativo, mas acho que é um casal de atores brasileiros ou o senhor do casal é ator, e parece que até são brancos, pelo que eu vi na fotografia, e têm dois miúdos, dois filhos negros. Até aí não é assunto nenhum, e o que vem a partir daí também continua a não ser um grande assunto, mas esta família estava num restaurante da Costa da Caparica e uma senhora, que depois se veio a provar estar alcoolizada ou estava nitidamente alcoolizada, não sei se foi através do teste, se foi através do próprio comportamento da senhora que se conseguiu perceber isso. Uma senhora fez comentários absolutamente racistas e irreproduzíveis aqui. Não vale a pena reproduzir, umas coisas medonhas sobre os miúdos, os filhos desse casal. Acho que há uns vídeos, isso já não vi, uns vídeos do casal ou da senhora do casal a insultar, naturalmente, a senhora alcoolizada em causa, que até ali alguns, que é brasileira, não sei, também não interessa nada se é brasileira, se é portuguesa, se é islandesa. Uma senhora que devia ter juízo e não tem, e vai para sítios públicos, por visto, insultar, lançar insultos racistas contra quem lhe aparece. Depois, acho que também ofendeu a autoridade e foi detida. E o senhor do casal apresentou mesmo queixa-crime contra a senhora. Tudo como deve ser ou como as pessoas envolvidas acharam que deveria ser. Nada a comentar. Infelizmente, há pessoas que comentam e seria normal que nós, no café, ou as pessoas que estão a ler as notícias, por exemplo, no Observador ou noutro site qualquer, que comentem isso. Absolutamente natural isso tudo. Agora, o Presidente da República comentar isto já entra numa esfera que mesmo para os padrões do professor Marcelo é um bocado estranha. O professor Marcelo não se limitou a comentar uns insultos idiotas de uma senhora num restaurante. O professor Marcelo publicou um comunicado na página oficial da Presidência da República a condenar atitudes racistas. E acho que ia dizer que em Portugal o racismo é pontual, que não há um racismo generalizado. Quer dizer, a que propósito é que este caso justifica uma intervenção do senhor Presidente da República? Cada disparate que é dito neste país, cada discussão que há num restaurante ou num café ou numa taberna deste país, é motivo de comunicado oficial do senhor Presidente da República, ainda por cima um Presidente da República, que quando os assuntos são coletivos ou razoavelmente coletivos ou afetam uma grande quantidade de cidadãos do país do qual é o chefe de Estado, um presidente da República que nessas situações normalmente não diz nada ou diz umas banalidades que mais valia estar calado, como por exemplo, o que se passa nos serviços de saúde, continuam a fechar as urgências dia sim, dia não. E impostos, preços de combustíveis, inflação, uma série de coisas que o professor Marcelo, com um otimismo extraordinário, costuma desvalorizar e achar que são coisas absolutamente menores e que não é por aí que vem nenhuma chatice para os portugueses. Agora, publica um comunicado oficial na página oficial da Presidência da República sobre uma discussão de restaurante. Quer dizer, eu acho que a partir daqui já nada impede o senhor Presidente da República, Sua Excelência, de publicar um comentário sobre, ele já foi visto em flash interviews de futebol, portanto, também não seria muito estranho, de fato, mas ele estar informado de cada discussão que se passa entre adeptos do Porto e do Benfica e do Sporting aí no café da esquina e depois na página da Presidência da República, fazer um comentário respetivo a cada uma dessas discussões, que de certeza que no país acontecem dezenas de milhares por dia. Acho que por uma questão de coerência, vai passar a avaliar cada discussão, quem tem razão na discussão, quem não tem razão na discussão. Portanto, e quem diz o futebol, diz outra questão qualquer, se uma pessoa chama a outra vesga ou tu és gordo ou tu és mais magro, ou não sei o quê. O professor Marcelo vai ter uma opinião sobre isto, com certeza, porque já percebemos mais ou menos o critério. Desde que não haja assunto ou que o assunto seja absolutamente irrelevante, o professor Marcelo comenta. O professor Marcelo tem uma posição pública sobre tudo que não tem interesse público nenhum. Este caso é obviamente um caso de ofensa pessoal, em última instância, um pequeno caso de polícia, e foi o que aconteceu. Pronto, a família em causa fez o que achou que devia fazer e não censuro de todo a atitude dessa família. Acho que nem ninguém de bom senso poderá censurar. Agora, isto chegar a um presidente da República e chegar de forma oficial à Presidência da República com comunicado destes, é uma coisa absolutamente extraordinária, já nem é extraordinário, porque é o professor Marcelo, de fato, mas o professor Marcelo levou a Presidência da República, para sermos simpáticos, a uns píncaros que ninguém estava à espera que a Presidência da República atingisse. Isto vai a uma minúcia de atenção ao que se passa no país, desde que o que se passa no país não tenha interesse nenhum. Quando as coisas têm interesse, têm importância e têm gravidade, já sabemos a atitude do professor Marcelo Tira uma selfie, dá um mergulho e evita falar sobre o assunto. Mas nestas pequenas questões ninguém o pode censurar, quer dizer, ninguém o pode acusar de desprezar estas questões. Eu lembro-me, há muitos anos, de um discurso, já não sei que propósito, de um discurso de horas do Fidel Castro sobre alguém que numa assembleia em Cuba lhe tinha falado sobre o preço do saco de batatas ou a forma de transporte do saco de batatas na bicicleta, era uma coisa assim absolutamente pessoal e minuciosa. E o Fidel Castro, face a uma questão dessas, ele que não comentava nada sobre a fome e a miséria que atingia os cubanos por culpa do regime que ele presidia, comentou sobre o saco de batatas e a bicicleta, dissertou sobre durante largas horas. Imagino perfeitamente o professor Marcelo ter uma atitude destas e não é à toa que no início do seu primeiro mandato, o professor Marcelo foi visitar o Fidel Castro, que foi logo o governante, que na altura acho que já não era governante, estava nas últimas, como ser humano e não como governante. E o professor Marcelo fez questão de conhecer pessoalmente o Fidel Castro e toda a gente presumiu na altura que ele acharia uma referência e estou a ver que tipo de referência ele seria para o professor Marcelo. A arte de falar sobre o vazio absoluto, a arte de comentar tudo desde que nada tenha interesse. É nisso que o professor Marcelo é bom e a cada passo, a cada semana, a cada mês que passa da sua presidência, ele vai avançando fases. Parece aqueles jogos de vídeo em que se avança fases, depois confronta-se com o inimigo cada vez mais poderoso. E ele vai avançando, vai ultrapassando obstáculos cada vez maiores, ou no caso dele, menores, e vai prosseguindo. Estou para ver como é que o professor Marcelo acabará o seu segundo mandato, o que é que ele acabará a comentar. Não faço a mínima ideia. Provavelmente jogos, realmente jogos de vídeo, se calhar, vai assistir a jogos de vídeo entre duas crianças e comentar o resultado e quem jogou melhor e quem jogou pior e depois publica na página oficial da Presidência da República. Realmente já nada segura o professor Marcelo em matéria de absurdo. O comportamento dele até aqui já não permite que isto seja uma grande surpresa, este comentário sobre o racismo a propósito de uma discussão num restaurante. A partir daqui, já nada será surpresa nenhuma. O professor Marcelo pode realmente comentar e dizer absolutamente o que lhe der a cabeça, que ninguém se espatará.
A arte de falar sobre o vazio é o que diz o Alberto Gonçalves e o título do podcast de hoje do "Ideias Feitas" é: Não é assunto, Marcelo comenta. Alberto, amanhã estaremos cá também para comentar a atualidade. Até lá. Até amanhã. Rádio Observador.