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Rádio Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje queres falar sobre o autarca que pagou ou terá pago, alegadamente pagou €2.200 por um discurso. Deixa-me perguntar-te: fazias mais barato, Alberto?
Eu ia dizer justamente isso mais para o final do Ideias Feitas.
Então antecipei-me.
Ia oferecer-me por €2.100. Era capaz de escrever um discurso muito comovente sobre o 25 de Abril, com aqueles clichês todos que envolvem esses discursos. Faria pelo menos €100 mais barato.
Já podes ir a concurso para o símbolo.
Exatamente. Mas isso já está dito. Do que falta dizer, parece que na Amadora, pelo menos, não sei se isso é geral no país, um discurso sobre o 25 de Abril custa a preços de mercado exatamente €2.200 do erário público, convém acrescentar. E isto envolveu o ex-diretor de comunicação do partido. Não percebi se a pessoa em causa já chegou lá, se ainda é diretor de comunicação, se já não é ou já foi, já foi jornalista também, e terminou com uma visita da Polícia Judiciária que revelou o fim. Acabamos a conhecer o caso. Para quem não acompanhou o caso ou as notícias nos últimos dias, isto foi revelado até pelo Observador há três dias, salvo erro. Eu explico que foi o presidente da Câmara Municipal da Amadora, o socialista Vitor Ferreira, que foi oficialmente constituído arguido na Operação Emergente, que já é ligeiramente famosa, entretanto. O crime sob suspeita é o de prevaricação, porque o senhor autarca decidiu fazer um ajuste direto para contratar alguém que lhe escrevesse as palavras que ele próprio leu nas cerimônias oficiais do passado 25 de Abril. Não é nenhuma coisa inédita no mundo que alguém contrate uma pessoa ou várias pessoas para lhe escrever os discursos. Não tem nada de especial, nada de novo. O facto de isso ter sido feito por ajuste direto e por ajuste direto indevido é que suscitou a atenção, ao que parece, da Polícia Judiciária. E quanto ao escritor fantasma, não é tão sobrenatural quanto isso. O contrato foi para as mãos do tal senhor Duarte Mural, que nós ficamos a conhecer um pouquinho melhor, não é que fosse totalmente desconhecido, mas por causa da tal Operação Emergente, esse senhor Duarte Mural, que foi jornalista, foi assessor político de longa data ligado ao PS, mas desde que foi detido, depois foi libertado sob termo de identidade e residência. A direção do PS e os jornalistas que costumam dizer mais ou menos aquilo que a direção do PS lhes diz para dizerem, garantem que ele nunca teve nada a ver com o PS. E é curioso notar, reparei nisto enquanto estava a preparar o Ideias Feitas de hoje, que esta é a segunda vez que as cerimônias do passado 25 de Abril na Amadora, que eu acho que nunca estive na Amadora, nem tenho a certeza, nada contra a Amadora, mas acho que é a segunda vez que aparecem estas cerimônias aqui no Ideias Feitas. A primeira foi há umas semanas, a propósito de uma obra dita de arte ou de uma representação, a meu ver medonha, mas quem sou eu para apreciar arte, da cabeça do doutor Mário Soares, que foi encomendada a um artista chamado Vhils. A cabeça do doutor Soares também, tal como o texto sobre o 25 de Abril, o discurso também foi adjudicado por ajuste direto e no caso, não por €2.200, por €246 mil. Repito, €246 mil. Isto só não foi ilegal e isto não chamou a atenção da Judiciária, porque a lei permite estes arranjinhos quando se trata de obras de arte, embora a lei não deixe muito claro quem define o que é arte e o que não é. Eu que sei escrever razoavelmente, mas não consigo mandar fazer ou fazer eu próprio, muito menos cabeças de políticos em betão. Eu acho injusta esta diferença na lei e sobretudo parece-me excessiva a diferença de preço entre um discurso e uma escultura. Embora me tivesse fartado de procurar, não consegui encontrar o discurso, confesso, sobre o 25 de Abril para poder avaliar os respetivos méritos. Pode ser fantástico, uma coisa ali ao nível do Gettysburg, do Lincoln, ou pode ser uma miséria, e é o mais provável. Mas lá está, não consegui encontrar. Agora, acho muito improvável que o discurso esteja artisticamente abaixo da tal cabeça do doutor Mário Soares. Mesmo que o discurso não seja grande coisa, não tenho de facto grandes expectativas sobre esse discurso, se calhar nunca vou tirar a prova, mas parece-me humana e fisicamente possível que o discurso possa ser mais atroz que a escultura. E a escultura vai aqui cheia de aspas, porque além de tudo, o discurso é muito menos incómodo, já que ele foi lido uma vez, o texto que eu encontrasse não foi partilhado nem sequer no site da Câmara da Amadora, enquanto a desgraçada da escultura pesa sete toneladas, tem cinco metros de comprimento e foi despejada num parque público local, de modo a traumatizar os transeuntes que inadvertidamente se cruzam com aquilo. E, no entanto, é o autor do discurso que esteve detido e que agora é arguido, em parte por causa, não foi só por isto, mas em parte foi por causa de uns míseros €2.200. O autor da escultura, que embolsou 240 e tal mil, anda à solta. E o primeiro merece manchetes acusatórias nos media, coitado do homem, está para aí a ser difamado, o tal senhor Duarte Mural, e o segundo, o tal artista Vhils, recebe elogios pela criatividade e não estão a falar, estes elogios não se referem à criatividade, que é inegável que o homem tem em sacar dinheiro dos cofres públicos para a conta bancária dele. O triste é que todo este episódio revela, desde logo, diversos falhanços: o falhanço do sistema educativo, que despreza a língua portuguesa em prol de umas pessegadas em cimento, o falhanço do sistema judicial, que investiga e castiga as pessoas erradas, e o falhanço do sistema político, que leva os eleitores a votar em criaturas, em exemplares como o senhor presidente da Câmara da Amadora. E era aqui nesta parte final que eu tinha preparado, tinha aqui deixado um tópico para poder realmente oferecer os meus serviços.
Mas eu estraguei-te o final.
Exatamente, estragaste-me a punchline. Mas repito para quem estiver a ouvir, quem não tiver apanhado o início, eu faço discursos sobre o 25 de Abril por 2100 € mais IVA e essas coisas todas. E sobre outros feriados, depois podemos discutir o preço.
Portanto, mais IVA, não incluis o IVA já no preço. É importante.
Não, eu cobro o IVA. Eu costumo cobrar o IVA.
Até amanhã.
Depois é negociável, tudo isto é negociável, como se subentende. Até amanhã, Ricardo. Um grande abraço.
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