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Fora do horário habitual, é certo, porque estivemos a ouvir as declarações do Primeiro-Ministro, mas desfazemos ideias feitas como é habitual com Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Ora viva, Alberto Gonçalves. Hoje voltamos a um tema sobre o qual já falámos no "Ideias Feitas": os comentários de Francisco Louçã sobre aquelas declarações de uma deputada municipal em Lisboa a propósito das fomes provocadas pelo comunismo.
Sim, mas antes disso gostaria só de salientar a ironia, porque estive a ouvir a emissão da Rádio Observador, sobretudo com mais atenção estes últimos minutos, e é engraçado constatar os súbitos escrúpulos do doutor Costa em relação à Constituição. E neste caso, que suscitou até uma discórdia entre o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Já no que diz respeito ao dito combate à Covid, à limitação das liberdades e do direito ao trabalho, etc., a Constituição pode ser estrafegada com à vontade e aí em acordo do Primeiro-Ministro com o senhor Presidente da República, sem problema nenhum. Mas pronto, foi só uma nota. O ponto é, e eu anteontem falei deste caso, o doutor Louçã, num espaço que tem na Sic Notícias, resolveu repescar uma intervenção de uma deputada, Aline Rolo Boivink, acho que é assim que se diz o nome, uma deputada municipal de Lisboa, de 2019, uma intervenção de 2019, em que ela falava sobre as grandes fomes soviéticas, especialmente a ucraniana, o Holodomor. E o doutor Louçã aproveitou o pretexto para fazer uma brincadeira com aquilo que a senhora disse, e o que a senhora disse foi que aquele mito de que os comunistas comem criancinhas não tinha caído do céu, havia uma razão de ser para esse mito. E o mito era realmente as grandes fomes que levaram ao canibalismo em várias épocas e em várias geografias da União Soviética, três ou quatro anos logo desde a Revolução de Outubro de 1917. As fomes começaram desde cedo. E prolongaram-se e repetiram-se demasiada e infelizmente. O doutor Louçã a pretexto disso resolveu brincar e gozar com a senhora, ou tentou gozar com a senhora. Claro que não conseguiu. A senhora respondeu num artigo excelente no "Observador", que só pecou por ser demasiado brando. Houve outras pessoas que responderam ao doutor Louçã. Nenhuma dessas pessoas que eu tivesse visto pertence ao PS atual ou à extrema-esquerda. Naturalmente, não iam criticar o doutor Louçã, sobretudo a propósito desta matéria, mas fora da esquerda e da extrema-esquerda, houve críticas ao doutor Louçã. Só que essas críticas e essas reações em geral à galhofa que o doutor Louçã fez face às fomes soviéticas, às fomes provocadas pelo comunismo, essas reações pareceram-me revelar alguma surpresa pelo doutor Louçã ter dito aquilo. Ora, quer dizer, o que o doutor Louçã disse é absolutamente roça o inominável. É difícil imaginarmos uma pessoa num espaço público televisivo, fora de um contexto de comédia, eu falei nisso na segunda-feira, fora de um contexto de comédia negra ou coisa do gênero, é difícil imaginar uma pessoa a fazer piadas e graçolas com a morte pela fome. Só na Ucrânia foram cerca de 10 milhões de pessoas, mas no total excederá muito esse número. E é muito difícil imaginar isto. Agora, não é surpreendente imaginar o doutor Louçã a dizer isto, porque se virmos a carreira do indivíduo, quando é que alguém ouviu o doutor Louçã e se alguém ouviu ou leu o doutor Louçã defender alguma vez um regime democrático, eu gostaria que me fizesse chegar essa informação ou essa citação, porque eu não me lembro de ver o doutor Louçã ter qualquer espécie de simpatia por qualquer espécie de emanação democrática dos regimes. O doutor Louçã é um dileto e um fiel seguidor e discípulo de tudo que é, ou de quase todos os totalitarismos. Ele só não venera o nacional-socialismo alemão dos anos 30, porque cai mal, porque em termos formais, aquilo não difere em grande coisa, na essência não difere até em nada, dos regimes que o doutor Louçã sempre venerou. Há aquela coisa do Bloco de Esquerda ter uma origem trotskista. Ora bem, Trotsky foi o inspirador dos campos de concentração modernos, por assim dizer, embora a expressão não seja propriamente elogiosa neste caso. E vimos o que o doutor Louçã, em relação à fome da Ucrânia, a grande fome ucraniana, do Holodomor, que é que despoletou esta questão. Foi uma fome despoletada no tempo de Stalin. O Bloco de Esquerda finge que se demarca, que admira Lenin, que se demarca de Stalin, mas na essência não se demarca de coisíssima nenhuma. O doutor Louçã é um comunista e é um soviético, é um bolchevique muitíssimo fora do tempo e que continua a ter os seus espaços e direito a dizer o que quer dizer, o que eu acho muito bem. Por exemplo, no "Expresso", na Sic Notícias, em vários órgãos do grupo Impresa. E ele diz estas barbaridades que qualquer outra pessoa que dissesse, ou quase qualquer outra pessoa que dissesse coisas que tivessem 10% da gravidade que isto tem, estava absolutamente queimada no espaço público português, a menos que essas coisas fossem também de teor favorável à extrema-esquerda e à história do comunismo, porque de resto qualquer outra pessoa não teria hipótese de dizer uma fraçãozinha daquilo que o doutor Louçã diz. Agora, se estas pessoas ficaram um bocado espantadas pelo doutor Louçã ter dito isto Estas pessoas que não são de esquerda ou de extrema-esquerda, acho estranho. Acho que deviam estar habituadas ao que pode sair daquela personagem, que nunca saiu nada de muito diferente disto. Se as declarações do doutor Louçã não trouxeram novidades sobre a criatura em si, trouxeram, pelo menos, novidades para o público em geral, que levantou esta questão das grandes fomes soviéticas e daquilo que o comunismo é capaz e daquilo para que o comunismo aponta. Com base na libertação dos povos, o comunismo normalmente costuma chacinar boa parte desses povos, costuma reduzi-los à miséria absoluta, à fome, ao canibalismo e quando isso não chega, também há o fuzilamento sumários e outras formas de se verem livres de obstáculos. Portanto, isto tem um sentido pedagógico. Nós vivemos num país em que, por exemplo, uma dirigente do PCP, uma pessoa destacada no PCP, sei que está à frente agora do Museu do Aljube, a doutora Rita Rato, não fazia ideia do que é o Gulag. Ela está à frente do Museu do Aljube, que evoca, e presumivelmente bem, as centenas de vítimas do salazarismo. Mas ela não sabia que o comunismo tinha mais de 100 milhões de vítimas e talvez continue a não saber. É possível que esta história, esta pequena polêmica em volta das declarações do doutor Louçã, ao menos elucide algumas pessoas ignorantes, não no sentido deliberado, mas pessoas que realmente não sabiam do que se passou na União Soviética e nos países satélites e nos países influenciados pelo comunismo em geral, ao menos talvez fiquem esclarecidos. A grande questão com base nisto tudo é que o doutor Louçã, além de discursar e dizer estas barbaridades medonhas na Sic Notícias e no "Expresso" e onde calha, também é conselheiro de Estado e foi conselheiro de Estado proposto pela Assembleia da República, nomeadamente pela Frente Esquerda, que até não disse nada sobre o assunto. Eu não sei se o presidente da República tem poder de recusar um conselheiro de Estado. Francamente, não consegui apurar se tem esse poder. Se tem esse poder e não diz nada a propósito, não quero comentar, prefiro nem comentar. A verdade é que já se passaram três ou quatro dias desde que o doutor Louçã fez estas declarações e o doutor Louçã continua a ser conselheiro de Estado, que é o órgão político consultivo da Presidência da República. Não cabe na cabeça de ninguém que isto possa acontecer num país minimamente civilizado. Para terminar, se calhar não estamos a falar de um país minimamente civilizado. Já tivemos outro tempo.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Alberto Gonçalves a regressar a este tema, à boleia dos comentários de Francisco Louçã. Na sequência também dessas declarações por parte de uma deputada luso-ucraniana eleita pelo Partido Popular Monárquico. São essas afirmações relacionadas, isso sim, com as fomes provocadas pelo comunismo. O Alberto Gonçalves amanhã regressa com mais ideias feitas.
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