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Alberto Gonçalves, boa tarde. Vamos à edição de hoje do "Ideias Feitas" e queres falar também tu do homem do momento, Luís Neves.

Olá, Miguel, é quase obrigatório. Eu não vou falar daqueles pormenores mais técnicos que já toda a gente comentou, esmiuçou e autopsiou as obrigações declarativas do senhor, a história do atrelado, a empresa da mulher, a herança. Apenas gostaria de falar, mas aqui muito brevemente, sobre a já clássica história da piscina, que afinal era um tanque ou da piscina que se identifica como um tanque. E o doutor Luís Neves ontem relatou que o tanque, contra a própria vontade do doutor Neves, se transformou numa piscina. Foi mais ou menos esta, ou praticamente, ou quase exatamente isto que ele disse. E eu gostava, sincera e genuinamente, de saber como é que esse fenómeno acontece, como é que um tanque se transforma de repente numa piscina, e se é uma coisa explicável pelas leis da Física ou se envolve a intervenção do sobrenatural. Mas infelizmente não houve nenhum jornalista que o inquirisse acerca disto. Quanto ao resto, interessam mais outros pormenores, uns mais ou menos objetivos, uns mais para o subjetivo. Começando pelos pormenores objetivos, o doutor Neves passou boa parte da conferência de imprensa a garantir que ou não fez nada de ilegal, ou se fez, fez aquilo que todos nós faríamos no lugar dele. E aqui é que está o problema, ou pelo menos uma parte substancial do problema, é que nós não estamos no lugar do doutor Neves. Nós somos cidadãos comuns, que desempenhamos funções comuns e que somos, com demasiada frequência ainda por cima, incomodados e constrangidos pelas regras do Estado, a cuja máquina o doutor Neves tem pertencido durante toda a sua carreira. E tem pertencido em lugares de particular destaque e influência na aplicação dessas regras que o Estado nos impõe. Dito de outra maneira, justamente por ocupar os cargos que tem ocupado, aquele que ocupa, aquele que ocupou antes daquele que ocupa atualmente, o doutor Neves teria a obrigação acrescida de agir de maneira diferente do cidadão comum, além de dever estar sujeito a maior escrutínio e maior exigência, o que é natural. Além disso, o doutor Neves deveria ser um exemplo, não um exemplo banal como qualquer um faz, daqueles recursos a compadrios, a esquemas, a umas fintas, a uns arranjos, umas distrações, mas um exemplo do oposto disto tudo, porque se o Estado quer ser respeitado, e não é fácil consegui-lo, é preciso que as principais figuras do Estado e os principais figurões e as principais figurinhas do Estado sejam absolutamente impolutas na relação com as leis que comprometem as restantes pessoas, as pessoas que, mais ou menos como nós todos ou como quase todos, não desempenham cargos destacados nesse exato Estado. É claro que, salvo novas informações ou investigações, pelo que se sabe hoje ou daquilo que se desconfia hoje plausivelmente, ou daquilo que se tem a certeza hoje, o cidadão Luís Neves não cometeu nada de radicalmente medonho. Agora, o que fez é mais do que suficiente para que o cidadão Luís Neves não devesse ter continuado, na altura diretor da Polícia Judiciária, se é que se sabia alguma coisa sobre estas histórias, presumindo que não se sabia, não devia continuar a ser Ministro da Administração Interna. Mas na conferência de imprensa de ontem, ele não apresentou a demissão, obviamente, ao contrário do que o elementar bom senso recomendaria. Além de não apresentar a demissão, e aqui entra a parte mais subjetiva, o doutor Neves mostrou-se irritado, como se estivesse impaciente por andarem a amassá-lo com ninharias e a forçá-lo a dar satisfações. Mostrou-se irritado, mostrou-se impaciente e o que talvez seja pior, mostrou-se muito orgulhoso das suas próprias virtudes e proezas, que aliás repetidamente recordou logo no início da conferência e depois algumas vezes durante a própria conferência, que foi penosamente longa. Ele combateu o crime e criminosos internacionais de gabarito, ele sacrificou-se pela nação e continua a sacrificar-se. Ele multiplicou não sei quantas vezes o orçamento e a quantidade de pessoal da Polícia Judiciária. Eu não sei em que medida é que isto é indiscutivelmente positivo, mas o que importa é que o doutor Neves gosta imenso dele mesmo e decididamente o doutor Neves não gosta de quem o questiona. E tudo somado, dado que estamos em Portugal, até é provável que este caso do Monte Alentejano fique por aqui e que o doutor Neves fique ministro mais uns tempos. Daqui a algumas semanas ninguém se lembra do assunto. Agora, desconfio que depois disto, a imagem que ele gostaria que tivéssemos dele também ficará definitivamente bastante aquém da imagem que ele tem dele próprio. Isto sou eu, é uma opinião. Imagino que muitos portugueses também tenham opiniões similares. Eu não confiaria no doutor Neves para liderar um condomínio ou uma associação de pais. Se o doutor Costa confiou nele para mandar na Judiciária e o doutor Montenegro confia neste momento nele para tutelar a Administração Interna, isso se calhar diz tanto ou mais sobre os senhores em causa do que diz sobre o doutor Neves, mas isso é lá com eles, embora também seja connosco.

Alberto, está feita esta edição do "Ideias Feitas". Estamos de regresso amanhã. Até lá.

Até amanhã, Miguel. Um abraço.